O avanço do debate sobre diversidade e inclusão no cinema trouxe consigo a discussão acerca da representatividade e do lugar de fala na ficção. Mais do que nunca, a legitimidade do discurso daqueles que narram as histórias tem sido questionada, colocando o tema da autorização discursiva no centro da problematização. Afinal, quem pode escrever sobre quem? Os roteiristas devem ter a liberdade de retratar realidades que não são as suas? Falar sobre dramas que não viveram? Ou seria necessária uma maior identificação do autor com o universo representado?
Popularizado no Brasil pela filósofa Djamila Ribeiro, através da sua obra “O que é lugar de fala?”, o conceito de lugar de fala pode ser definido, em poucas palavras, como a busca pelo reconhecimento da relevância de determinado discurso. Nesse contexto, o discurso é considerado a partir de uma noção mais ampla, foucaltiana: “não como amontoado de palavras ou concatenação de frases que pretendem um significado em si, mas como um sistema que estrutura determinado imaginário social” (RIBEIRO, 2017).
O lugar de fala, segundo a filósofa, não é uma questão individual, mas sim estrutural, e aponta para um lugar social, de localização de poder dentro da estrutura, onde não se trata de reconhecer as vivências específicas de indivíduos como legitimadoras do discurso que se vincula às suas particularidades.
Afirma, ainda, que não se deve confundir lugar de fala com representatividade, partindo de uma visão essencialista, e imaginar, por exemplo, que apenas um negro pode falar de racismo, ou apenas uma mulher pode falar sobre feminismo. Segundo ela, se estamos em relações raciais, relações de gênero, etc., é importante que todas as pessoas debatam sobre esses temas. Em suas palavras, “é claro que, de repente, uma travesti negra pode não se sentir representada por uma mulher branca, mas essa mulher branca pode pensar criticamente sobre a situação da travesti negra. Ela pode se responsabilizar e pensar criticamente o lugar que essa travesti ocupa (…) Todo mundo tem um lugar de fala, a questão é como se fala a partir do seu lugar sobre outras questões.”
Finalmente, enfatiza: “lugar de fala não é impedir alguém de falar, é dizer que outra voz precisa falar”.
Assim, ao pensarmos o lugar de fala na sua relação com a autorização do discurso na ficção cinematográfica, podemos considerar que a questão não está em saber quem pode falar sobre quem, mas em saber quem sistemicamente tem seu lugar de fala privilegiado através dessas narrativas e quem historicamente tem sido silenciado, trazendo para debate a hegemonia discursiva.
Nos últimos anos, vários estudos têm sido realizados com o intuito de documentar e chamar a atenção para a falta de diversidade na indústria cinematográfica, todos
constatando a predominância de homens brancos nas principais funções de liderança, incluindo roteiro. O último Hollywood Diversity Report (UCLA, 2020), identificou que entre os créditos de roteiro de todos os filmes analisados em 2019, apenas 17.4% foram para mulheres e 13.9% para pessoas de cor. No Brasil, um estudo realizado pela ANCINE, a partir da análise de longa-metragens lançados no circuito comercial em 2016, verificou que homens brancos assinaram 68% dos roteiros dos filmes de ficção, 63,6% dos documentários, e 100% das animações naquele período. E ainda que tais estudos não apresentem informações consolidadas sobre identidade de gênero e orientação sexual, indicam que pessoas LGBTQ+, assim como outros grupos minoritários, também sofrem com essa sub- representação.
Esses dados apontam para o fato incontestável de que no cinema o discurso legitimado é do homem cis branco heterossexual, e que as narrativas que nos são oferecidas têm sido contadas, ao longo da história, majoritariamente através de seu olhar.
A hegemonia desse discurso resulta em uma tradição de ficções baseadas em ideias estereotipadas e preconcebidas de realidades com as quais esse homem não se identifica, povoando o imaginário social com uma versão do mundo partindo apenas de seu ponto de vista.
Contudo, abordar essa problemática a partir do conceito de lugar de fala não implica em dizer, por exemplo, que um roteirista cis branco não deveria contar histórias sobre personagens de gênero, raça, identidade ou orientação sexual distintas da dele, mas exigir deste uma maior responsabilização — a partir do reconhecimento de seu próprio lugar de fala — e um olhar mais crítico e profundo sobre realidades que não são as suas. Ademais, é necessário apontar para a responsabilidade daqueles a quem sempre é dada a palavra na criação de espaços para a emergência de outras vozes.
Enfim, é possível defender que a representatividade importa no sentido de conferir maior valor ao discurso do autor, à medida que a narrativa com origem na autorrepresentação se destaca como mais genuína e legítima. Entretanto, reconhecendo que isso não invalida, necessariamente, as que partem de outro lugar.