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  • há 4 meses
Transcrição
00:00E hoje é sexta-feira, que é também dia da coluna Olhar Espacial.
00:06E o nosso colunista, Marcelo Zurita, nos leva a uma viagem no tempo
00:10para desvendar os segredos dos aglomerados globulares,
00:15as relíquias mais antigas do universo.
00:18Vamos com ele, Marcelo Zurita.
00:20Olá, pessoal! Saudações astronômicas.
00:32O céu noturno nos conta histórias.
00:34Cada estrela, um ponto cintilante, guarda consigo um erredo escrito em bilhões de anos.
00:40E assim como na vida, onde as melhores histórias muitas vezes são contadas por nossos avós,
00:45no cosmos também são as estrelas mais velhas que carregam os relatos mais preciosos.
00:50Para um astrônomo, não há melhor lugar para buscar por essas memórias do universo
00:54do que nos aglomerados globulares.
00:57Mesmo ao olho nu, os céus já nos dão pistas de que nem tudo é o que parece.
01:02Algumas manchas difusas, meio borradas no céu, intrigaram os primeiros observadores.
01:07Mas o que seriam? Nebulosas tênues? Cometas preguiçosos?
01:10Hoje sabemos que esses borrões são verdadeiros tesouros escondidos.
01:14Os aglomerados globulares.
01:16Esferas perfeitas que concentram centenas de milhares ou até milhões de estrelas
01:21comprimidas em um espaço apertado, como uma multidão num bloco de carnaval cósmico.
01:27Mas as grandes distâncias que nos separam desses objetos compactos
01:31protegeram os aglomerados globulares da curiosidade humana.
01:34Ao menos até a invenção do telescópio.
01:37Em 1665, o astrônomo amador Johann Hillel apontou seu telescópio para uma mancha difusa
01:44na constelação de Sagittário e percebeu que ela se desfazia em incontáveis pontos luminosos.
01:49Não era uma estrela e nem mesmo uma nuvem, mas um enxame estelar.
01:54Mais tarde, no século XVIII, Charles Messier, o caçador de cometas mais famoso do seu tempo,
01:59registraria diversos desses borrões inconvenientes em seu catálogo.
02:03Sem a tecnologia para observar toda a beleza e riqueza desses objetos,
02:08Messier os via apenas com obstáculos que poderiam confundir os astrônomos
02:12em busca de cometas em nosso sistema solar.
02:15A reviravolta nessa história veio no final do século XIX com o desenvolvimento da astrofotografia.
02:21A partir dos primeiros registros fotográficos daquelas manchas,
02:25que antes era apenas um borrão difuso, se revelou uma verdadeira joia cósmica,
02:30de simetria e beleza impressionantes.
02:32As imagens mostravam esferas de estrelas tão densas que pareciam se fundir em seu centro,
02:37formando uma única chama contínua.
02:40Foi o início de um longo caso de amor da astronomia moderna pelos aglomerados globulares.
02:45Mas afinal, o que são esses curiosos enxames?
02:49Hoje sabemos que os aglomerados globulares são coleções com algumas centenas de milhares
02:54ou até mesmo milhões de estrelas ligadas pela gravidade
02:57numa dança cósmica quase tão antiga quanto o universo.
03:01Geralmente, suas populações estelares têm mais de 10 bilhões de anos de idade,
03:06o que significa que são verdadeiras anciãs cósmicas,
03:09nascidas quando o universo mal tinha deixado as fraldas.
03:13Os aglomerados globulares observados na Via Láctea e em outras galáxias
03:17são compactos tipicamente com algumas centenas de anos-luz de diâmetro.
03:21Eles podem ser localizados fora do disco galáctico, em uma região próxima chamada de Halo.
03:27É como se fossem as joias da coroa da galáxia.
03:30Ao contrário dos aglomerados abertos, como as Pleiades, que são jovens, disformes e logo se dispersam,
03:36os globulares são velhos, coesos e duradouros.
03:40E é por isso que eles têm tantas histórias para contar.
03:43Eles nasceram junto com as primeiras fases das galáxias, os primórdios do universo.
03:47Provavelmente surgiram quando nuvens muito densas de gás colapsaram rapidamente,
03:53formando estrelas em massa.
03:54Por isso, os aglomerados globulares guardam a memória do ambiente em que a galáxia se formou.
04:00Estudá-los é como abrir um diário do universo, escrito em linguagem estelar.
04:05Eles nos mostram como eram as condições no início da formação da nossa galáxia.
04:10Suas estrelas mais antigas funcionam como relógios cósmicos,
04:13e ao medir suas idades, os astrônomos conseguem estimar a idade mínima do universo.
04:19Além disso, são verdadeiros laboratórios astronômicos.
04:22Dentro deles, os cientistas já descobriram buracos negros,
04:26pulsares de milissegundo, estrelas de nêutrons em sistemas binários
04:29e até candidatos a fontes de ondas gravitacionais.
04:33Tudo isso em um espaço minúsculo, cosmicamente falando.
04:37Eles também ajudam a mapear a distribuição da matéria escura.
04:40Como orbitam o centro da galáxia em trajetórias amplas,
04:43o movimento dos globulares revela a presença dessa massa invisível que molda a nossa galáxia.
04:49Alguns aglomerados globulares em nossa Via Láctea se tornaram grandes astros também para a astronomia amadora.
04:56M22, na constelação de Sagitário, provavelmente foi o primeiro a ser descoberto ainda no século XVII.
05:03O mais impressionante da nossa galáxia, sem dúvida, é o Ômega Centauri,
05:07tão grande e denso que parece ser o que sobrou do núcleo de uma pequena galáxia capturada pela nossa.
05:13O Ômega Centauri brilha tanto que pode ser visto a olho nu em céus escuros do hemisfério sul.
05:19Outro gigante é 47 Tucanae, também visível a olho nu próximo à pequena nuvem de Magalhães.
05:25Uma visão espetacular para quem tem o privilégio de observar o céu austral.
05:30Sem falar de M13, o grande aglomerado de Hércules, o preferidos pelos telescópios amadores do hemisfério norte.
05:37Os que outrora eram apenas borrões preteridos por Messier,
05:40hoje são joias celestes que encantam astrônomos amadores e cientistas.
05:45Retratado por nossos melhores instrumentos, os aglomerados globulares servem como bibliotecas do cosmos,
05:51guardando os segredos da infância do universo e ainda hoje continuam nos ensinando,
05:56mesmo depois de bilhões de anos.
05:58Olhar para eles é como contemplar uma antiga obra de arte.
06:02Estudá-los é escutar as melhores histórias do universo.
06:06Histórias que não se apagam com o tempo, mas que brilham em silêncio na imensidão do céu noturno.
06:13Bons céus a todos e até a próxima!
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