Day 7 — Your Ex-boyfriend/girlfriend/love/crush

Luiz,

Você não foi meu namorado, amor ou paixão. Quando precisei me referir a você – por algum motivo obscuro – te chamei de meu ex-vizinho da Geologia. Você foi isso, meu vizinho que estudava Geologia. Nada mais.

Mas ainda reservo alguma consideração. Sua sinceridade ácida era realmente incômoda e, por este fato, interessante. O que ainda me comove foi não termos terminado. Afinal, não tínhamos nada! Parece-me muito lógico.

O que não deve ter sentido algum para você é esta carta ser sua e não do meu, de fato, ex-namorado. O seu único mérito foi ter servido de ponte entre quem eu era, quem eu aceitei ser e quem eu queria ser. Desligar-me do meu ex-namorado foi me libertar de uma vida que eu não suportava mais, de um eu que não tolerava mais. E você me ajudou, sem querer.

Quem eu aceitei ser já partiu. Entendo os motivos de você não me respeitar naquela época, eu também não o fazia. E também não gostava muito de mim. Talvez essa tenha sido nossa verdadeira semelhança.

Você é bipolar. Procure ajude. Um abraço,

Camila.

Day 6 — A stranger

I
Conta-se que no início da década de 1960 uma jovem fugiu de casa, ainda com 17 anos. A partir de então os relatos acerca do caso são incertos, mas a lenda tradicional envolve um namorado. Tempos depois, uma menina é parida.

II
“A mãe que colocou seu filho recém-nascido em uma sacola plástica e o jogou de uma altura de dois metros…”
“… nasceram as duas meninas que, de imediato, foram colocadas dentro de um saco plástico e escondidas dentro do guarda-roupa…”
“Bebê enrolado em sacos plásticos é abandonado em calçada”
“Um bebê jogado, em um saco plástico, na Lagoa da Pampulha…”

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Senhor cujo espermatozóide fecundou um óvulo daquela que minha mãe diz para eu chamar de avó,

É com frequência que são noticiados abandonos e/ou violência contra bebês, sobretudo quando o agressor é a mãe. Cansei de ler estudos sobre depressão pós-parto, Síndrome de Munchausen e outras patologias que a maternidade pode causar. Quando um pai, ou aquele que ejacula ao final do ato sexual, renuncia a responsabilidade da paternidade, não causa nenhum espanto.

O abandono de uma criança é sempre um ato violento, mesmo com integridade física assegurada. Minha avó também não queria ser mãe. Minha avó – a garota que nos anos 60, muito provavelmente, por você foi resumida a um corpo quente e uma gravidez indesejada -, também era jovem demais. Mas a prole é sempre mais dramática e devastadora para a mulher e, ainda assim, ela não pôde simplesmente renunciar, ainda que renunciando.

Uma visita por ano, esforço suficiente. Ela não foi uma mãe, foi menos que uma tia distante. E se tornou uma mulher que não compreende a filha como filha; que não gosta de manter contato porque não gosta de lembrar do passado.

Senhor cujo espermatozóide fecundou um óvulo daquela que minha mãe diz para eu chamar de avó, não tenho plena opinião formada sobre seus atos, penso apenas em mediocridade; em quão medíocre é uma pessoa que abandona uma mulher grávida e não aparece mais. Talvez minha mãe tenha se livrado de um pai violento e ainda mais medíocre, talvez não. Talvez os assédios morais que ela sofreu por não ter uma família tenham sido melhores do que suportar sua presença medíocre, talvez não.

Mas isso tudo é irrelevante.
Minha mãe é mãe, com todos os defeitos que consegue carregar. E o senhor… bem, o senhor é apenas um desconhecido.

Camila.

Day 5 — Your dreams

Queridos sonhos,

Desculpe-me a ausência, sei que tenho sido negligente nos últimos anos. Gostaria de dizer que penso em vocês com frequência, mas seria mentira.

Quando me afasto de alguém, costumo culpar a falta de tempo. Realmente, o bom gerenciamento de atividades não é uma das minhas características principais (mas talvez o uso de eufemismo seja) e, contudo, minha inabilidade não é responsável por nosso afastamento.

O que melhor nos uniu foi Baudelaire e “O Sonho de um Curioso”; o término do poema já é conhecido. A verdade é que faço distinção entre sonho e realidade, e falhei miseravelmente na tentativa de ser nefelibata. A realidade me fascina, ainda que sufoque.

Espero que possamos nos encontrar novamente. Um beijo,

Camila.

O Sonho de um Curioso

Conheces tu, como eu, essa dor saborosa,
E que te faz dizer: “Oh, homem singular!”
– Morrer eu ia. Havia em minha alma amorosa,
Misto de êxtase e horror, um mal particular;

Desespero e esperança, indiferença ociosa.
Quanto mais a ampulheta eu via a se esvaziar,
Mais a tortura me era atroz e deliciosa;
Meu coração fugia ao mundo familiar.

Eu era com a criança à espera do espetáculo,
Odiando o pano como se odeia um obstáculo…
Mas a fria verdade enfim se revelou:

Eu morrera sem susto, e a terrível aurora
Me envolvia. – Mas como! o que então se passou?
O pano já caíra e eu não me fora embora.

Charles Baudelaire, As Flores do Mal.

Day 4 — Your sibling

Rodrigo e Carol,

Nunca consegui enxergar vocês como uma unidade, um conjunto. Talvez isso tenha um motivo.

Rodrigo, acredito que a última atividade que fizemos juntos, como irmãos, tenha sido uma brincadeira com o tio Rafael, que montava enigmas com você para a Carol e eu desvendarmos. Na época eu achava divertido, mas algum tempo depois percebi o quão maldosa essa brincadeira era. O objetivo era sempre encontrar vocês; as pistas eram escritas e eu ainda não sabia ler. A brincadeira divertida era você e o tio Rafael se esconderem de mim e da Carol. Eu não sabia ler na última vez em que fizemos algo juntos. O último amigo seu que conheci foi aquele da época do ITB: há mais de dez anos. Hoje perguntei se você sabia o nome do meu namorado e a resposta foi o nickname que ele usa no twitter.

Carol, você muda constantemente. As suas mudanças tem diversos motivos, mas especialmente o tédio que as pessoas te causam, o que te leva a romper relações com amigos que eram íntimos. Você rompeu a nossa relação inúmeras vezes e acredito que o único motivo de ainda nos falarmos seja porque seu quarto é ao lado do meu. Mas não há muita opção, o tempo passa e nos falamos novamente. Eu preciso confessar duas coisas. 1) Sempre fomos comparadas, eu sempre estava em desvantagem. Você era mais sociável, mais divertida, mais alta, mais magra, mais velha (elogio durante a adolescência). Todos meus colegas falavam de você, e eu me tornei a “irmã da Carol” em minha própria sala de aula. As minhas inseguranças sempre foram pautadas a partir de você e só recentemente eu consegui superar tudo isso. 2) Fiquei extremamente orgulhosa em 2009. Você estava com medo no aeroporto, mas mudou de país (o tédio, sempre) e começou uma vida inteiramente nova e independente. Saiu da sua zona de conforto e, sem imaginar, me ajudou a fazer o mesmo.

Nós nunca aproveitamos a companhia uns dos outros. Nós nunca sabemos realmente o que se passa uns com os outros. Nós somos, os três, completamente distintos. Nós reagimos de formas diferentes ao que ocorre em nossa volta; temos ideias divergentes sobre realização, futuro e relacionamentos. Convivemos tão pouco a ponto de não brigarmos.

E, curiosamente, isso é um avanço. Cuidem-se.

Camila.

Day 3 — Your parents

Gordos,

A nossa convivência foi, em um passado não muito distante, a mais caótica possível. A relação que eu tento estabelecer com o mundo – que se resume em me envolver com o pandemônio a fim de entendê-lo e, especialmente, sobrevivê-lo – teve início em casa, na necessidade de subsistir o que havia entre nós.

Eu brinco com apelidos para não usar os termos pai e mãe; nego aquilo que configura as realizações de vocês – enquanto, em níveis diferentes, vocês repudiam o que é importante pra mim. Eu sou a antítese dos valores familiares; tornei-me aquela pessoa que me disseram para não falar com. Com vocês aprendi a reagir; a dizer não; a aceitar que às vezes é preciso um tempo longe (30 dias, exatamente) para haver um esboço de respeito.

A Senhora Gê tenta me entender, o Senhor Barriga tenta prestar atenção. A Gê demonstra que diálogo é fundamental, o Gordo transmite interesse de forma sutil. A Gê tem o bom humor, o Gordo conserva a ironia.  A Gê me ensinou que é difícil dar aquilo que não recebemos, mas ainda assim é possível. Com o Gordo eu aprendi que, por mais que maus hábitos persistam por décadas, mudanças drásticas de comportamento podem ocorrer.

Paciência. Vocês não supuseram que eu desenvolvesse alguma, mas é o que vou carregar de vocês comigo. O distanciamento, o tempo, às vezes resulta em leve esperança. Eu espero.

Camila.

Day 2 — Your Crush

Kiki,

Nós caminhamos sempre pelos mesmo lugares. Geralmente sem roteiro definido, dificilmente pensando em um destino final, mas caminhamos sempre.

Eu já me questionei o motivo. A cidade muda, mas tudo muda o tempo todo – nem por isso há algo novo a ser visto. Não sei quantas vezes não fizemos nada na Galeria, ou andamos na Augusta sem perceber a existência do Inferno, ou visitamos o CCBB e nos perdemos naquelas ruas comerciais. Não sei quantas vezes você já derrubou chá mate em suas roupas, não sei quantas pessoas da FAU já encontramos, não sei quantas vezes você me parou no meio do fluxo para um abraço.

A verdade é que nossas caminhadas são resultados da forma como pensamos a vida. Desde a sua teoria do passeio, nossa maneira boba de falar, até os risos de ver a rua Maranhão e pensarmos no Venceslau Pietro Pietra.

A verdade é que eu nunca tive uma companhia para caminhar, nas ruas ou no tempo. E eu preciso andar pelas mesmas ruas e fazer as mesmas coisas, sempre, porque é difícil acreditar que o que nós temos realmente é possível.

Amo você,

Camila.