I
Conta-se que no início da década de 1960 uma jovem fugiu de casa, ainda com 17 anos. A partir de então os relatos acerca do caso são incertos, mas a lenda tradicional envolve um namorado. Tempos depois, uma menina é parida.
II
“A mãe que colocou seu filho recém-nascido em uma sacola plástica e o jogou de uma altura de dois metros…”
“… nasceram as duas meninas que, de imediato, foram colocadas dentro de um saco plástico e escondidas dentro do guarda-roupa…”
“Bebê enrolado em sacos plásticos é abandonado em calçada”
“Um bebê jogado, em um saco plástico, na Lagoa da Pampulha…”
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Senhor cujo espermatozóide fecundou um óvulo daquela que minha mãe diz para eu chamar de avó,
É com frequência que são noticiados abandonos e/ou violência contra bebês, sobretudo quando o agressor é a mãe. Cansei de ler estudos sobre depressão pós-parto, Síndrome de Munchausen e outras patologias que a maternidade pode causar. Quando um pai, ou aquele que ejacula ao final do ato sexual, renuncia a responsabilidade da paternidade, não causa nenhum espanto.
O abandono de uma criança é sempre um ato violento, mesmo com integridade física assegurada. Minha avó também não queria ser mãe. Minha avó – a garota que nos anos 60, muito provavelmente, por você foi resumida a um corpo quente e uma gravidez indesejada -, também era jovem demais. Mas a prole é sempre mais dramática e devastadora para a mulher e, ainda assim, ela não pôde simplesmente renunciar, ainda que renunciando.
Uma visita por ano, esforço suficiente. Ela não foi uma mãe, foi menos que uma tia distante. E se tornou uma mulher que não compreende a filha como filha; que não gosta de manter contato porque não gosta de lembrar do passado.
Senhor cujo espermatozóide fecundou um óvulo daquela que minha mãe diz para eu chamar de avó, não tenho plena opinião formada sobre seus atos, penso apenas em mediocridade; em quão medíocre é uma pessoa que abandona uma mulher grávida e não aparece mais. Talvez minha mãe tenha se livrado de um pai violento e ainda mais medíocre, talvez não. Talvez os assédios morais que ela sofreu por não ter uma família tenham sido melhores do que suportar sua presença medíocre, talvez não.
Mas isso tudo é irrelevante.
Minha mãe é mãe, com todos os defeitos que consegue carregar. E o senhor… bem, o senhor é apenas um desconhecido.
Camila.