
Para Chorik
Há algum tempo atrás, Chorik me perguntou sobre meu processo de criação, meus modos. Não sei se era bem isso que ele queria saber, mas aí vai.
Trabalho com arte por necessidade interior.Não tenho formação acadêmica e só comecei a pintar regularmente há cerca de dez anos. Por mais ou menos 28 anos tive que viver numa cadeira giratória, luz fria acesa o dia inteiro em cima da cabeça, engolindo sapos e digerindo aquele trabalho que não me dava nenhum prazer. A indiferença era tão genuína que ninguém se dava conta do que se passava comigo. Foi a necessidade de sobreviver.
Quando garota andava a rabiscar coisas e cheguei a "cometer" tres telas, atividade abandonada pela ciranda da vida e que voltou há alguns anos quando conhecí um artista e professor, mestre Edson Calmon, que destrancou meus dedos, minha cabeça e meu coração, liberando a criatividade que, talvez por tantos anos aprisionada, hoje faz com que a atividade de criar não faça pausa.
Tenho um quarto nos fundos da casa onde botei duas janelas frontais para entrada da luz e é lá onde passo a maior parte da minha vida. Sem horários, sem compromissos. Geralmente acompanhada de um enorme copo com água e gelo, a bebericar como se uísque fosse, e que é trocado (quando algum trabalho me empolga) por uma cerveja gelada. Também me acompanham nessa jornada meu grande companheiro Thomé de Souza e música, muita música.
Isso geralmente à tarde pois de manhã sou muito preguiçosa. Depois da soneca do almoço é só atravessar o quintal e trabalhar, criar. Desenhos, projetos, colagens, executo algum projeto pronto e só entro em casa feliz, prá jantar, seja lá que horas sejam. Quando ainda dá vou bloguear. Esse é meu ritmo. Fim de semana quando não aparece ninguém, trabalho aos domingos, pois o sábado é dia de praia, encontrar os parceiros de cervejas, peixes e pequenas mentiras que fazem rir e me deixam mais leve, com a sensação de que resolvemos alguns problemas do mundo.
Meu processo de criação não tem mistério: sento e faço. Não sei bem criar por encomenda.
Meu traço é apenas geométrico. Ainda estou aprendendo a desenferrujar os dedos e os neurônios prá criar mais livremente, como acredito que eu seja. Invejo quem cria lindas figuras humanas, quem desenha conversando, sou profundamente apaixonada pelos traços de Carybé. Meus gênios são Amilcar de Castro, Thomie Othake, Emanuel Araújo, Eduardo Sued, Lygia Clark, Mondrian, Picasso, Alexander Calder, Lygia Eluf, Antonio Lizárraga, etc. etc. etc.
Não me considero artista. Tenho muito que aprender, fazer. Sou apenas uma alma errante cujo grande prazer é criar.
Se voces gostam, ótimo.
Se não gostam, pelo menos boto prá fora uma linhas cercadas de emoções por todos os lados.
Trabalho e foto I.Moniz Pacheco