Passageiro de última hora, pulou no meu barco e seu sorriso iluminou a viagem como a lua dos amantes. Sua pequena bagagem foi acomodada sem sustos, afinal não eram esperados temporais nessa época. Sem cerimônias, enrosquei-me como sereia (será que foi a mãe-d'água que me mandou?) e deixei o rumo à deriva. No decorrer do navegar, as coisas foram mudando: a pequena mala começou a pesar demais, fedia. Seus movimentos eram muito bruscos e desequilibrava a embarcação. Sua presença virou a maré, o vento cessou, o leme partiu, o horizonte se apequenou. O barco já não cabia nós dois. Cada um sabia e antes que a tempestade anunciada se estabelecesse, fiz o que era de lei: devolví à mãe d'água aquele falso presente, como ela faz de vez em quando no dia 2 de fevereiro.
Sereia - Obra de Americo Azevedo
Foto I.Moniz Pacheco
