impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah
sábado, 26 de outubro de 2024
"Uma casa para Mr. Biwas" de V. S. Naipaul
Regressei pela segunda vez à leitura do laureado com o prémio Nobel da Literatura V. S. Naipaul, um escritor de origem indiana e natural de Trinidad e Tobago de expressão inglesa. O romance "Uma Casa para Mr. Biwas" relata a vida de Mohun Biwas desde o seu nascimento até à morte.
Mohun, nascido numa família miserável, com seis dedos, mas cedo perdeu o apêndice excedente, cujo arauto do pândita que o integrou na comunidade expressou que nunca deveria estar perto de água, pois por esta ele traria desgraças à família, cedo ficou órfão por transgressão à recomendação, o que levou à morte do pai. Acolhido depois por uma tia que o protege e após os primeiros trabalhos de infância descobre o seu dom para letras e escrita, nesta arte conhece a Shana do clã Tulsis com quem, inconscientemente, é levado a casar e a viver esmagado pela força da comunidade numerosa de dois irmãos e muitas irmãs da esposa, dos respetivos maridos e dos muitos sobrinhos, todos sob a alçada da matriarca e seu cunhado. Inconformado nesta opressão, retalia, protesta, incita à rebelião, sendo exilado para sucessivas propriedades do clã, onde presta trabalho quase escravo, enquanto Shana se mantém subserviente à sua família e lhe vai dando filhos e ele como um longo acumular de desgraças e antipatias. Nesta senda, aspira à sua libertação através de conseguir uma casa livre dos Tulsis, até chegar à capital de Trinidad onde consegue um trabalho num jornal especulativo que o torna conhecido mas não liberto do clã e sempre com o sonho de conseguir a sua casa.
É sem dúvida um grande romance, contudo o peso do clã e a descrição crua das tradições da cultura hindu que ao longo de quase todo o livro esmagam Mr. Biwas (baseado no pai do escritor) criaram-me uma aversão à narrativa e um preconceito contra a comunidade indiana que tornaram esta leitura dolorosa. Uma quase versão do Job bíblico nos tempos da II Grande Guerra naquela ilha das Caraíbas.
Tenho de reconhecer que em termos de obra, esta, além de extensa, tem um grande valor literário e força, mas mesmo temperada com sarcasmo e ironia para suavizar o asco da caracterização do clã Tulsis (cujo autor parece se ter baseado também na sua própria família materna), foi difícil prosseguir a leitura e, ao contrário de A Curva do Rio que gostei muito, este bom romance deixou-me marcas amargas, mas valeu a pena ler.
segunda-feira, 22 de julho de 2024
"O Imoralista" de André Gide
"Desgostos, remorsos, arrependimentos são as alegrias de outrora, vistas de costas."
Acabei de ler "O Imoralista" do escritor francês, laureado com o prémio Nobel da literatura, André Gide, correspondendo à minha estreia neste autor.
Michel é um jovem órfão de mãe, respeitador das regras morais e um brilhante estudioso da história das civilizações clássicas da Europa, um tipo de investigação que segue as mesmas pisadas de seu pai, mas, perto da hora da morte deste, ele toma a opção de casar com uma conhecida de família para assim transparecer perante o progenitor o seu enquadramento num futuro tradicional estável. Apesar do luto, os noivos decidem ir para a Tunísia em viagem de núpcias e conhecer os restos arqueológicos do império romano e de Cartago, só que ele adoece gravemente e na cura reconhece que ressuscitou para a vida, mas já não é o mesmo. Agora quer viver a vida sem amarras e a moral mais não é que um constrangimento ao verdadeiro disfrutar da vida. Então fascina-o tudo o que sai fora das regras. Entretanto, no regresso à França, é a sua mulher que adoece. Michel então empreende uma viagem ao norte de África para a cura desta, mas nem ele é o mesmo, nem a evolução é igual ao pretendido.
Como seria de esperar de um Nobel, o texto está brilhantemente bem escrito, trespassa para o leitor o sentimentos de Michel, as sua confusão fruto da mudança e as descrições do norte de África e de Itália são como fotos impressionistas, onde a atmosfera dos lugares é mais forte que a geografia.
Logicamente o romance é polémico, a preocupação de Gide em questionar as amarras da moral que limita o usufruir da vida, sente-se. O encanto pelo belo rústico e físico nos homens e, sobretudo, efebos, quase não há personagens femininas além da esposa, pode incomodar homofóbicos. A ideia de que os bem-comportados e integrados na sociedade são hipócritas conscientes ou inconscientemente é chocante, mas como refletir sobre a vida sem questionar os costumes e a moral instalada e incomodar?
Gostei, mas não é uma obra compreensível para todos ao nível da filosofia subjacente e deste romance poder-se-iam tirar do texto dezenas de pensamentos para reflexão.
sábado, 6 de abril de 2024
"O Evangelho segundo Jesus Cristo" de José Saramago
Citações
"Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens."
"o homem só é livre para poder ser castigado"
"Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar de tanto sangue."
Tenho um grande respeito pela liberdade de criação artística e uma aversão enorme a qualquer tipo de censura pública religiosa ou política no campo das ideias ou das obras criativas das pessoas, mas confesso que a força das minhas convicções religiosas levaram-me a adiar mais de 30 anos a leitura de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago, um dos meus escritores favoritos, português e laureado com o Nobel da literatura. Agora, numa fase de agnosticismo e de uma intensa revolta com a vida, aventurei-me, finalmente, a ler este romance, que mereceu grandes elogios por uns e indignação e contestação de outros.
A obra procura apresentar uma biografia alternativa de Jesus Cristo, sem preocupações de rigor histórico, é um romance de ficção, embora este aproveite e reescreva muitos dos episódios narrados nos evangelhos, vistos por um narrador omnisciente que acompanha o protagonista desde o momento da anunciação a Maria da encarnação deste filho, passando pela infância dele e aspetos da família de Jesus e com grande especulação sobre José. Depois prossegue com a saída de Jesus de casa e recria uma vida social e privada deste, incluindo sua comunicação com o Diabo e Deus-Pai, e a sua relação com Maria Madalena, os apóstolos até ao cumprimento da sua missão na cruz.
Por norma todas as situações são complementadas com comentários e apreciações do narrador num tom sarcástico ou irónico típico de Saramago, que subvertem em muitos os aspetos das bondade do Criador da sua justiça e amor deste para com os homens, por vezes são provocadores e podem mesmo ser incómodos para um crente que aceita a doutrina cristã sem espírito crítico. O autor não é mesmo nada complacente com a pregação da moral e doutrina católica.
A escrita e forma é a típica de Saramago e é conhecida, a vida de Cristo e a perspetiva messiânica são de facto reescritas neste livro, sendo que as alterações biográficas bem menos subversivas que o papel atribuído a Deus sobre o controlo da humanidade. Gostei de ler, mas não deixa de ser uma obra em que o autor assume confrontar a visão do Criador dada pelo cristianismo. Valeu talvez a pena esperar estes anos para ler este romance e entendê-lo sem me chocar e despojado do peso de uma fé acrítica.
quinta-feira, 7 de março de 2024
"a cidadela BRANCA" de Ohran Pamuk
Citações
"Procurar descobrir o que somos, refletir tão longamente sobre nós mesmos não poderia senão fazer-nos infelizes!"
"Todos nós sabemos que, para reencontrar a vida e os sonhos desaparecidos, é preciso sonhá-los novamente."
Voltei ao escritor turco, laureado com o prémio Nobel da literatura Ohran Pamuk, de quem lera apenas um livro há vários anos. "a cidadela Branca" é um romance diferente que de forma indireta a narrativa levanta as questões de "quem sou eu?" e "porque eu sou como sou?".
O autor expõe um manuscrito com um relato do cativeiro de um veneziano estudante que, quando jovem, no século XVII foi capturado pelos turcos e levado para Istambul, onde o Sultão o doou a um conselheiro como escravo, sendo o dono tão semelhante fisicamente a cativo como um gémeo e um cientista interessado no saber, investigação astronómica, outras civilizações e criador de artefactos a quem chama de Mestre. Este tenta extrair conhecimento do italiano e, aos poucos, começa uma troca de saberes e surgem as questões. Num jogo de espelhos inicia-se uma autoanálise onde cada um escreve como foi, os seus erros e as suas memórias, a dado momento começa a confundir-se quem é o Mestre ou outro. Entretanto, o Sultão vai pedindo conselhos e apreciando as invenções que resultam daquela equipa, até se aperceber da inter-relação dos dois e lhes pedir a construção de uma arma capaz de conquistar os territórios europeus onde luta até à batalha junto à cidadela branca, a que se segue final surpreendente.
Como todas as obras de introspeção, não é uma narrativa acelerada, o que é ainda travado pelos parágrafos extensos, em estilo de reflexão e onde os diálogos são expostos como memórias, apesar da riqueza do texto, senti uma nostalgia ou uma infelicidade permanente enquanto lia. Não é um livro grande, mas a leitura não fluía pela necessidade de atenção e densidade do texto, tal não impede o reconhecimento de que se está perante uma excelente obra e de grande originalidade, mas não um simples livro lúdico e muito fácil.
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
"Trilogia" de Jon Fosse
quinta-feira, 30 de novembro de 2023
"Ravelstein" de Saul Bellow
Voltei ao escritor laureado com prémio Nobel em 1976, nascido no Canadá e naturalizado Norte Americano Saul Bellow com a leitura do seu último romance "Ravelstein".
Chick apresenta-nos com um enorme brilhantismo o seu grande amigo Ravelstein: uum grande e influente professor universitário de filosofia política, um acutilante crítico dos comportamentos sociais e das pessoas alicerçado nos seu saber dos filósofos e da história clássica e dos judeus e acede aos principais líderes ocidentais. Extravagante, satírico e homossexual, adora roupas de luxo, gastronomia requintada e música barroca e Paris. É ainda o mentor de alunos que se fascinam por ele e. quando reconhecidas suas capacidades por este, tenta orientar as suas vidas. Quase sempre viveu com dificuldades em sustentar os seus caprichos, mas, de uma sugestão de Chick, escreve um livro sobre si e suas ideias que o torna imensamente rico, o que lhe permite satisfazer os seus gostos. Em Paris encomenda a Chick a sua biografia, sendo-lhe depois diagnosticada SIDA. Decorre então um período do desenvolvimento da doença, mas não de abatimento da sua personalidade, é acompanhado de perto por Chick e a última mulher deste, descrevendo a sua luta, seguindo-se os efeitos da sua ausência nos amigos dele, até que Chick adoece com uma toxina e reconhece a importância dos que lutam pelos outros e do seu dever de eternizar o seu amigo.
Escrito com uma ironia requintada e cheio de referências cultas que mostram a força de uma grande amizade sem complexos por quem é diferente. É um elogio a mentes geniais e às pessoas que dão tudo para outros sobreviverem nesta vida. Denuncia, uma marca deste autor, os complexos dos judeus norte-americanos na integração social através de reflexões filosóficas e religiosas. Apesar de dois períodos de doença, nunca a narrativa se torna deprimente, pois o bom humor acutilante atravessa todo o livro que me cativou do princípio ao fim. Magnífico e sintético, eis uma obra com pouco mais de 200 páginas que, ao contrário de outras obras onde Bellow se estendeu excessivamente, constrói para mim um romance leve e culto, mas perfeito de um galardoado com o Nobel da literatura.
sábado, 28 de outubro de 2023
"Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez
Citação
"o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão."
Apesar de ser um grande leitor, não sou dado a releituras, que me lembro "Cem Anos de Solidão", do colombiano e prémio Nobel da literatura Gabriel García Marquez, é o terceiro romance que releio, neste caso passados 35 anos de quando o li pela primeira vez e é talvez a obra emblemática deste escritor.
José Arcadio Buendía e sua esposa Úrsula com mais um conjunto de homens e mulheres partem da sua terra em busca do mar e perdem-se na floresta amazónica e criam a sua aldeia Macondo isolada do mundo e apenas visitada por artistas de circo que comunicam os seus saberes mágicos que José Arcadio se deixa aliciar e no qual investe os parcos rendimentos do casal. Começa então a história desta família marcada pela pobreza, magia, solidão e guerra que se estende por 7 gerações de amores, traições, incestos, loucuras, guerras, vitórias, derrotas, sucessos e superstições num mundo em que ocorrem invenções tecnológicas e revoluções políticas e económicas cujos ecos chegam e perturbam progressivamente Macondo e as relações humanas desta terra perdida na floresta entre a realidade, a magia e os espíritos dos mortos.
Numa narrativa que criou o estilo do realismo mágico, o autor encadeia um conjunto de acontecimentos e loucuras a ritmo alucinante onde se conta a vida das várias gerações de Buendías, marcados pela personalidade mais terrena e alquímica dos Arcádios ou mais guerreira e social dos Aurelianos, sempre sujeita à força das mulheres e amantes que a integram ou que com ele se cruzam. Assim, de uma forma indireta, se denunciam as injustiças sociais da América Latina, se fala das revoluções políticas de que o continente foi alvo e de cujos frutos nunca responderam às esperanças revolucionárias e onde a pobreza e superstição apenas permitem uma vida de um povo marcada pela solidão e superstição.
Um romance que é um clássico e uma obra incomparável pela sua originalidade e força, onde o leitor se perde entre gerações com nomes iguais, entre a realidade e a magia, entre a esperança e a desilusão e entre a busca do outro e a solidão. Uma obra que deve ser lida por todos os que amam a literatura ficcionada como arte que combina a narrativa, a criatividade e explora os limites da escrita, enquanto monta um retrato da realidade sem o fotografar. Um excelente livro
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
"Travessuras da Menina Má" de Mario Vargas Llosa
"fundava a sua teoria da inevitável desintegração da humanidade devido à gangrena burocrática"
Após vários anos, voltei ao laureado com o Nobel da literatura Mario Vargas Llosa, agora com o romance "Travessuras da Menina Má". O adolescente Ricardo tem o sonho de viver em Paris e apaixona-se no seu colégio em Lima, Peru, por uma recém-chegada que se diz chilena e o aceita de forma fugidia, mas descobre-se que a moça bonita é uma menina má, envolta em mentiras com o objetivo de parecer alguém de classe alta e ser alvo de atenções e desmascarada desaparece. Muitos anos mais tarde, Ricardo torna-se tradutor da UNESCO em Paris, faz um amigo peruano que recruta compatriotas para formação revolucionária em Cuba, entre estes surge a chileninha. Ressuscita a paixão que a menina má alimenta do forma fugidia, vai para Havana e torna-se amante de uma chefia guerrilheira, eis a a vocação da mulher: buscar alguém que lhe dê um estatuto social para ter vida de rica. Inventa passados falsos, mas todas as suas conquistas acabam mal e tem sempre à espera Ricardo, o seu menino bom, que a ama e a acolhe nos interregnos de nova fuga. Uma sucessão de casamentos e amantes em capítulos, décadas, países e cidades diferentes que construirão as memórias da vida de Ricardo que por amor nunca singrou verdadeiramente na sua vida.
A obra, bem escrita e com uma história bem narrada, origina uma trama ao estilo de novela com um amor difícil do protagonista vítima da menina má. O romance vale, sobretudo, porque cada capítulo faz um enquadramento histórico, geográfico social e cultural, assim assistimos sucessivamente à vida dos adolescentes num bairro de classe média alta em Lima na década de 1950, depois a expansão dos ideais da revolução cubana nos anos seguintes na América Latina vistos a partir de uma Paris, que é então o epicentro da cultura mundial com escritores e filósofos como Camus e Sartre, a admiração internacional da canção francesa e do cinema de autor como Truffaut. Depois, tudo muda para Londres entre a década de 60 e 70: o movimento hippie, a minissaia, os Beattles entre outros agentes da revolução cultural de então, uma das páginas que mais gostei do livro. Mas as aventuras da menina má em seguida saltam para uma Tóquio hiper-higienizada e de sentimentos escondidos mas capaz de realidades extremas que chocam. Para se avançar para tempos mais próximos onde é menos evidente a diferença dos costumes face ao presente, um centrado na esperança e desilusão da evolução política do Peru, outro em Paris e o último que mostra a abertura à cultura de Madrid após a ditadura, momento em que a história tem um fim.
Um livro fácil de ler, por vezes cansa a subserviência por amor do narrador à menina má, mas que se torna interessantíssimo por mostrar a evolução cultural no hemisfério ocidental e apontar por alguns dos nomes da literatura mais importantes da Rússia, pelo que se torna um magnífico guia nestes assuntos.
domingo, 14 de novembro de 2021
"José e os seus Irmãos - As histórias de Jaacob" de Thomas Mann
Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "José e os Seus Irmãos - As histórias de Jaacob" baseado na personagem do antigo testamento José e considerada a maior obra deste escritor alemão laureado com o prémio Nobel da literatura.
Thomas Mann pega nas narrativas bíblicas e torno de José para romanceadamente as ampliar, reconstituindo a vida dele e das personagens à sua volta como: o pai, a mãe, os irmãos, os avós, recuado aos patriarcas, e outras figuras referidas no antigo testamento e ainda fazer reflexões sobre a época, o nascimento do monoteísmo e judaísmo num médio-oriente politeísta e dividido por múltiplos pequenos reinos bordejados pelo Egito, além de tomar a liberdade de tentar corrigir eventuais erros históricos ou até mesmo questionar a tradição dos textos sobre o que então se passou.
No primeiro romance, depois de um prelúdio em estilo de ensaio sobre a neblina do passado e a época e a dificuldade em distinguir factos e a especulação, onde eu senti grande dificuldade de leitura e desisti, seguem-se sete histórias. Na primeira conhecemos um José excessivamente belo, curioso por descobrir o seu papel entre a mitologia pagã e o Deus do seu pai com quem reflete sobre isso, a sua má convivência com os irmãos por se sentir predestinado e por estes saberem-no predileto de Jaacob com quem tem um diálogo entre a ambiguidade do paganismo e monoteísmo com o fascínio do pai pelo filho que é quase um ensaio sobre a passagem do mundo politeísta ao de Javé. A partir deste capítulo, os restantes episódios são centrados em Jaacob, com os seus defeitos e a consciência de estar destinado a ser gerador da linhagem do povo de Deus, o que lhe serve de guia para os seus atos, nem sempre louváveis, mas justificáveis a esse fim. Assim saberemos do sonho de Jaacob; do episódio infeliz de Dina devido à malvadez dos filhos mais velhos de Jaacob; do roubo deste da benção da primogenitura de Isaac a Esaú; da sua fuga para oriente e servidão em casa de Labão, seu tio e sogro, por amor a Raquel; como foi ludibriado em casar com Lia antes de consumar o casamento com Raquel, a sua amada; a rivalidade entre as irmãs Lia-Raquel; e o nascimento de José e de Benjamim com a morte da mãe.
No fundo, todas as narrativas em parte são de excertos bíblicos que são reconstruídos e alvo de análise filosófica e teológica e muitas vezes reexplicados sobre um outro prisma ou reinterpretação da narrativa. Muitas vezes pode ser incómodo para quem segue literalmente o conteúdo bíblico como factos históricos que aqui são por vezes desmontados ou mesmo alterados com justificação para essa reconstrução. O texto é muito descritivo e denso, por vezes com parágrafos de várias páginas, mas de grande beleza plástica, só que nem sempre de fácil leitura, mas confesso que com o decorrer desta me fui entusiasmando e embora conhecedor do que é contando no antigo testamento a curiosidade de como Mann tratou o assunto despertou-me suspense na leitura.
Gostei e recomendo a quem gosta de leituras profundas, mas não é um livro fácil e após um intervalo espero voltar a esta tetralogia de modo a perceber a evolução da narrativa que já sabemos irá até ao Egito e à subida de José até principal conselheiro ou ministro do faraó.
quarta-feira, 11 de agosto de 2021
"ALICE MUNRO selected stories"
Acabei de ler um livro em inglês de contos selecionados da escritora canadiana laureada com o prémio Nobel da literatura "Alice Munro Selected Stories". Este reúne 23 histórias curtas, na sua maioria com cerca de duas dezenas de páginas, que na generalidade são memórias de mulheres comuns sobre momentos fortes da sua vida ou do desenrolar desta no seu dia-a-dia normal e os seus problemas, mostrando assim, não só o seu modo de viver, como também montando retratos da sociedade em várias partes do Canadá, na sua maioria no sudoeste do Ontário e em meio rural.
Reflexões sobre o peso da mentalidade social e religiosa da sociedade canadiana sobre o comportamento das mulheres e no seu relacionamento com os homens na primeira metade do século XX, descrições analíticas das tensões em família ao nível de casais ou entre gerações, exposição de impulsos íntimos e da sexualidade e os problemas do despertar da adolescência para a juventude e maturidade sujeitos a uma pressão em comunidades conservadoras de pequenos aglomerados urbanos, traições e oportunismos no relacionamento entre homens e mulheres e ainda perceção e esforço de compreensão do modo de agir de pessoas próximas do narrador, vão ao longo dos contos sendo tratados de forma introspetiva por olhares no feminino e num desenvolvimento que se vai desenrolando lentamente dentro de cada história até à montagem se completar no final como quadros da realidade esbatidos sobre uma pintura entre o impressionista e o expressionista.
Nesta seleção compreende-se a razão de muitos considerarem Alice Munro uma versão feminina do século XX de Tchékhov, efetivamente, cada conto, mais que uma narrativa linear, é uma história que se vai montando devagar em torno ou a partir de personagens que em nada se destacam do cidadão comum, sem lições morais, mas que no fim deixam pistas para a reflexão moral e ética e constroem o retrato da sociedade de uma época, do país e dos constrangimentos dos protagonistas de cada relato.
Gostei muito destes retratos com uma escrita magnifica que selecionam o que de melhor escrevera Alice Munro em anos bem anteriores ao prémio Nobel da Literatura e, no meu caso, por permitir compreender a mentalidade e muitos pormenores da vida diária e em família da comunidade anglo-saxónica do Canadá, sobretudo do sudoeste de Ontário, onde nasci e que visito com alguma regularidade.
sexta-feira, 28 de maio de 2021
"Memorial do Convento" de José Saramago
Terminei a releitura de "Memorial do Convento" de José Saramago, o único premiado com o Nobel da literatura de expressão portuguesa e para muitos o romance emblemático da sua obra de ficção. Pouco releio livros, se gosto muito da escrita opto por rever excertos, pois a surpresa no desenrolar da trama conta também muito para o meu prazer de leitor, mas este lera-o há cerca de 33 anos atrás, aliás, foi a minha estreia neste autor que depois tornei-me seguidor pontual por mais de uma década. Decorrido este tempo todo, tirando o tema e personagens principais, já pouco me lembrava do seu conteúdo e foi quase uma primeira leitura ao nível de pormenores e das cenas que se vão desenrolando na história. O exemplar que possuo, quer a capa, quer a editora, já nem correspondem às da imagem, pois os direitos editoriais foram transferidos para outra casa distinta da que o escritor foi fiel em vida. Na verdade possuo centenas de livros que não folheio há muito tempo e penso ter chegado ao momento de os redescobrir e optei começar por este.
A história tem como centro a razão de se edificar e os trabalhos de construção do Convento de Mafra, todavia em Saramago nada é uma simples narrativa. O escritor, além de romancear um conjunto de personagens que existiram à época: como o rei D. João V e família, o inventor Bartolomeu de Gusmão, o compositor Scarlatti e diversos membros do clero e nobreza; foca a trama em Baltasar Sete-Sóis, maneta, e Blimunda Sete-Luas, vidente do interior das pessoas, que se encontram num ato da inquisição, juntam os seus trapos e se tornam num casal sem as regras legais e morais da época. Estes vivem as dificuldades do povo sem instrução e servem de defesa das relações naturais sem obediência a regras exteriores aos elementos apaixonados ou acostumados entre si e ainda de denúncia das injustiças face à opulência da realeza e clero a coberto da religião e a escassez e riscos dos pobres e pessoas livres pensadoras sob a ameaça da inquisição. Na primeira parte teremos Bartolomeu Gusmão a ser auxiliado pelo par na sua invenção aeronáutica quando a tecnologia era vista como uma arte demoníaca e onde o sonho e a vontade do Homem estão acima das limitações físicas da Natureza e da castração religiosa.
Na segunda da obra o mesmo par integra-se no grupo de trabalhadores explorados na construção do monumento edificado à custa da extração da riqueza das colónias do império para glória de Deus no agradecimento pelo Seu papel de satisfação dos anseios e caprichos dos ricos em detrimentos dos pobres por Ele amados.
A escrita da obra é tipicamente ao estilo único criado por Saramago, mas agora com o tempo verifico que ainda tinha sido levado à exaustão alcançada em obras posteriores. O sarcasmo pícaro sobre a justiça, a ética e a moral sexual atravessam todo o texto, numa crítica mordaz, por vezes a rondar a brejeirice e irónica, e frequentemente alavancada em ditos populares. A denúncia dos defeitos e vícios do clero e realeza, a coberto de uma teologia interesseira destas partes, não é minimamente travada neste romance.
É sem dúvida um grande romance, um clássico da literatura mundial, nem sempre fácil de ler devido à forma narrativa e a uma forma única de realismo mágico exclusiva de Saramago, mas cheio de informações históricas e vale bem a pena o esforço, na releitura não sofri o choque da primeira vez em que me estreei no autor, mas mesmo assim continuo a gostar muito deste romance e foi o que mais me marcou à partida, mesmo que hoje prefira outros do escritor.



















