Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Nobel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nobel. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah

Estreei-me no escritor, presentemente de língua inglesa, do arquipélago do Zanzibar na Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, laureado com o Nobel da literatura em 2021, lendo um dos seus romances mais conhecidos "Junto ao Mar".
O romance começa com o narrar do idoso Saleh Omar da sua entrada como fugitivo do Zanzibar num aeroporto de Londres com o passaporte de Rajab Shaban, transparecendo que não sabe inglês, e com uma caixa de incenso apenas como principal bagagem. Após relatar o contacto com o agente de imigração e com uma voluntária para refugiados, é acolhido num centro de abrigo, onde buscam um tradutor para comunicar, encontram Latif Mahmud, este, igualmente um refugiado já naturalizado, suspeita de um usurpador do nome do seu pai, enquanto o primeiro desconfia que se trata do filho do homem de quem tomou a identidade. Entre o receio e a curiosidade, depois de alojado dá-se o encontro entre ambos e a narrativa passa para a história das duas famílias da parte de cada um: as falhas, os erros, as retaliações e as perseguições com a independência e os excessos de qualquer revolução que permitem um conhecimento mútuo e o crescimento de uma amizade inesperada.
Numa narrativa pouco acelerada, em parte nostálgica, em parte sentimental, a dar a conhecer a vida dos refugiados, das vítimas do fim da colonização e da guerra fria em África; o autor mostra com olhar africano o que foi a vida na parte oriental deste continente e as ligações históricas e comerciais entre os povos banhados pelo Índico.
Uma obra de divulgação civilizacional e cultural de uma parte do mundo muitas vezes esquecida ou contada apenas pela perspetiva europeia e vale conhecer pelo outro lado.
Gostei e deu para perceber a argumentação do comité Nobel das razões do galardão de literatura atribuído a Abdulrazak Gurnah. Fácil de ler e recomendo a quem quer alargar os seus conhecimentos sobre esta região de uma forma simpática e agradável.
 

sábado, 26 de outubro de 2024

"Uma casa para Mr. Biwas" de V. S. Naipaul

 

Regressei pela segunda vez à leitura do laureado com o prémio Nobel da Literatura V. S. Naipaul, um escritor de origem indiana e natural de Trinidad e Tobago de expressão inglesa. O romance "Uma Casa para Mr. Biwas" relata a vida de Mohun Biwas desde o seu nascimento até à morte.

Mohun, nascido numa família miserável, com seis dedos, mas cedo perdeu o apêndice excedente, cujo arauto do pândita que o integrou na comunidade expressou que nunca deveria estar perto de água, pois por esta ele traria desgraças à família, cedo ficou órfão por transgressão à recomendação, o que levou à morte do pai. Acolhido depois por uma tia que o protege e após os primeiros trabalhos de infância descobre o seu dom para letras e escrita, nesta arte conhece a Shana do clã Tulsis com quem, inconscientemente, é levado a casar e a viver esmagado pela força da comunidade numerosa de dois irmãos e muitas irmãs da esposa, dos respetivos maridos e dos muitos sobrinhos, todos sob a alçada da matriarca e seu cunhado. Inconformado nesta opressão, retalia, protesta, incita à rebelião, sendo exilado para sucessivas propriedades do clã, onde presta trabalho quase escravo, enquanto Shana  se mantém subserviente à sua família e lhe vai dando filhos e ele como um longo acumular de desgraças e antipatias. Nesta senda, aspira à sua libertação através de conseguir uma casa livre dos Tulsis, até chegar à capital de Trinidad onde consegue um trabalho num jornal especulativo que o torna conhecido mas não liberto do clã e sempre com o sonho de conseguir a sua casa.

É sem dúvida um grande romance, contudo o peso do clã e a descrição crua das tradições da cultura hindu que ao longo de quase todo o livro esmagam Mr. Biwas (baseado no pai do escritor) criaram-me uma aversão à narrativa e um preconceito contra a comunidade indiana que tornaram esta leitura dolorosa. Uma quase versão do Job bíblico nos tempos da II Grande Guerra naquela ilha das Caraíbas.

Tenho de reconhecer que em termos de obra, esta, além de extensa, tem um grande valor literário e força, mas mesmo temperada com sarcasmo e ironia para suavizar o asco da caracterização do clã Tulsis (cujo autor parece se ter baseado também na sua própria família materna), foi difícil prosseguir a leitura e, ao contrário de A Curva do Rio que gostei muito, este bom romance deixou-me marcas amargas, mas valeu a pena ler.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

"O Imoralista" de André Gide


 Citação

"Desgostos, remorsos, arrependimentos são as alegrias de outrora, vistas de costas."

Acabei de ler "O Imoralista" do escritor francês, laureado com o prémio Nobel da literatura, André Gide, correspondendo à minha estreia neste autor.

Michel é um jovem órfão de mãe, respeitador das regras morais e um brilhante estudioso da história das civilizações clássicas da Europa, um tipo de investigação que segue as mesmas pisadas de seu pai, mas, perto da hora da morte deste, ele toma a opção de casar com uma conhecida de família para assim transparecer perante o progenitor o seu enquadramento num futuro tradicional estável. Apesar do luto, os noivos decidem ir para a Tunísia em viagem de núpcias e conhecer os restos arqueológicos do império romano e de Cartago, só que ele adoece gravemente e na cura reconhece que ressuscitou para a vida, mas já não é o mesmo. Agora quer viver a vida sem amarras e a moral mais não é que um constrangimento ao verdadeiro disfrutar da vida. Então fascina-o tudo o que sai fora das regras. Entretanto, no regresso à França, é a sua mulher que adoece. Michel então empreende uma viagem ao norte de África para a cura desta, mas nem ele é o mesmo, nem a evolução é igual ao pretendido.

Como seria de esperar de um Nobel, o texto está brilhantemente bem escrito, trespassa para o leitor o sentimentos de Michel, as sua confusão fruto da mudança e as descrições do norte de África e de Itália são como fotos impressionistas, onde a atmosfera dos lugares é mais forte que a geografia.

Logicamente o romance é polémico, a preocupação de Gide em questionar as amarras da moral que limita o usufruir da vida, sente-se. O encanto pelo belo rústico e físico nos homens e, sobretudo, efebos, quase não há personagens femininas além da esposa, pode incomodar homofóbicos. A ideia de que os bem-comportados e integrados na sociedade são hipócritas conscientes ou inconscientemente é chocante, mas como refletir sobre a vida sem questionar os costumes e a moral instalada e incomodar?

Gostei, mas não é uma obra compreensível para todos ao nível da filosofia subjacente e deste romance poder-se-iam tirar do texto dezenas de pensamentos para reflexão.

sábado, 6 de abril de 2024

"O Evangelho segundo Jesus Cristo" de José Saramago

 

Citações

"Quando chegará, Senhor, o dia em que virás a nós para reconheceres os teus erros perante os homens."

"o homem só é livre para poder ser castigado"

"Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar de tanto sangue."

Tenho um grande respeito pela liberdade de criação artística e uma aversão enorme a qualquer tipo de censura pública religiosa ou política no campo das ideias ou das obras criativas das pessoas, mas confesso que a força das minhas convicções religiosas levaram-me a adiar mais de 30 anos a leitura de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" de José Saramago, um dos meus escritores favoritos, português e laureado com o Nobel da literatura. Agora, numa fase de agnosticismo e de uma intensa revolta com a vida, aventurei-me, finalmente, a ler este romance, que mereceu grandes elogios por uns e indignação e contestação de outros.

A obra procura apresentar uma biografia alternativa de Jesus Cristo, sem preocupações de rigor histórico, é um romance de ficção, embora este aproveite e reescreva muitos dos episódios narrados nos evangelhos, vistos por um narrador omnisciente que acompanha o protagonista desde o momento da anunciação a Maria da encarnação deste filho, passando pela infância dele e aspetos da família de Jesus e com grande especulação sobre José. Depois prossegue com a saída de Jesus de casa e recria uma vida social e privada deste, incluindo sua comunicação com o Diabo e Deus-Pai, e a sua relação com Maria Madalena, os apóstolos até ao cumprimento da sua missão na cruz.

Por norma todas as situações são complementadas com comentários e apreciações do narrador num tom sarcástico ou irónico típico de Saramago, que subvertem em muitos os aspetos das bondade do Criador da sua justiça e amor deste para com os homens, por vezes são provocadores e podem mesmo ser incómodos para um crente que aceita a doutrina cristã sem espírito crítico. O autor não é mesmo nada complacente com a pregação da moral e doutrina católica.

A escrita e forma é a típica de Saramago e é conhecida, a vida de Cristo e a perspetiva messiânica são de facto reescritas neste livro, sendo que as alterações biográficas bem menos subversivas que o papel atribuído a Deus sobre o controlo da humanidade. Gostei de ler, mas não deixa de ser uma obra em que o autor assume confrontar a visão do Criador dada pelo cristianismo. Valeu talvez a pena esperar estes anos para ler este romance e entendê-lo sem me chocar e despojado do peso de uma fé acrítica.

quinta-feira, 7 de março de 2024

"a cidadela BRANCA" de Ohran Pamuk

 

Citações

"Procurar descobrir o que somos, refletir tão longamente sobre nós mesmos não poderia senão fazer-nos infelizes!"

"Todos nós sabemos que, para reencontrar a vida e os sonhos desaparecidos, é preciso sonhá-los novamente."

Voltei ao escritor turco, laureado com o prémio Nobel da literatura Ohran Pamuk, de quem lera apenas um livro há vários anos. "a cidadela Branca" é um romance diferente que de forma indireta a narrativa levanta as questões de "quem sou eu?" e "porque eu sou como sou?".

O autor expõe um manuscrito com um relato do cativeiro de um veneziano estudante que, quando jovem, no século XVII foi capturado pelos turcos e levado para Istambul, onde o Sultão o doou a um conselheiro como escravo, sendo o dono tão semelhante fisicamente a cativo como um gémeo e um cientista  interessado no saber, investigação astronómica, outras civilizações e criador de artefactos a quem chama de Mestre. Este tenta extrair conhecimento do italiano e, aos poucos, começa uma troca de saberes e surgem as questões. Num jogo de espelhos inicia-se uma autoanálise onde cada um escreve como foi, os seus erros e as suas memórias, a dado momento começa a confundir-se quem é o Mestre ou outro. Entretanto, o Sultão vai pedindo conselhos e apreciando as invenções que resultam daquela equipa, até se aperceber da inter-relação dos dois e lhes pedir a construção de uma arma capaz de conquistar os territórios europeus onde luta até à batalha junto à cidadela branca, a que se segue final surpreendente.

Como todas as obras de introspeção, não é uma narrativa acelerada, o que é ainda travado pelos parágrafos extensos, em estilo de reflexão e onde os diálogos são expostos como memórias, apesar da riqueza do texto, senti uma nostalgia ou uma infelicidade permanente enquanto lia. Não é um livro grande, mas a leitura não fluía pela necessidade de atenção e densidade do texto, tal não impede o reconhecimento de que se está perante uma excelente obra e de grande originalidade, mas não um simples livro lúdico e muito fácil.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

"Trilogia" de Jon Fosse



Acabei de ler o meu primeiro livro do norueguês Jon Fosse, o vencedor do prémio Nobel de 2023. A obra "trilogia" é constituída por três novelas, em que cada uma surgem as mesmas personagens principais, de modo a que o conjunto se completa num romance mais vasto.

Na primeira novela, Alse, tocador de violino, e Alida, empregada doméstica e grávida, ambos pouco mais que adolescentes, saem da terra rural natal para Bjorgvin (Bergen), uma fuga da sua situação mal tolerada pelo conservadorismo da aldeia; na cidade buscam alojamento que não conseguem encontrar, até que chega à hora de nascer Sigvald, em paralelo assistimos ao pensar de cada um sobre como vê o outro. Na segunda, Alse adota o nome de Olav e veio à cidade a partir do local que ocupou para residir e com a ideia de comprar uma aliança para Alida, ela agora com o nome de Aste, mas na viagem encontra um velho que mostra saber de todas as malfeitorias que Alse terá feito na primeira novela, enquanto o chantageia ele consegue comprar uma prenda alternativa para a sua companheira, mas a denúncia levará a um final diferente, igualmente cada membro do casal imagina sobre o outro. Na terceira, Alida já morreu, mas pelos olhos de sua filha, Ale, sabemos que a mãe terá ficado sem o seu primeiro companheiro e juntou-se ao seu pai numa solução para a sua situação de abandono e assistimos ao evoluir desta nova realidade.
Jon Fosse tem, efetivamente, um estilo muito próprio de construir a sua narrativa: uma sucessão de frases muito curtas: ora unidas pela conjunção "e", ora constituindo diálogos sem sinais de interrogação ou de exclamação, mas rematados por disse ele, ela ou outro interlocutor, deixando pontualmente a dúvida de quem de facto o disse, mas que, por adição, vai montando a história de modo semelhante ao pontos que no pontilhismo constroem a imagem impressionista. Surge assim um texto minimalista que parece ritmado e sincopado com abundância de notas de união.
A história é de fácil apreensão, mas os sentimentos parecem ausentes, o que dá um caracter frio e de solidão nas relações humanas, apesar de se sentir a presença do amor, do ódio e do oportunismo na forma como cada personagem fala ou reflete sobre o outro.
Gostei, foi um experiência de leitura de uma narrativa escrita de forma diferente.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

"Ravelstein" de Saul Bellow

 

Voltei ao escritor laureado com prémio Nobel em 1976, nascido no Canadá e naturalizado Norte Americano Saul Bellow com a leitura do seu último romance "Ravelstein".

Chick apresenta-nos com um enorme brilhantismo o seu grande amigo Ravelstein: uum grande e influente professor universitário de filosofia política, um acutilante crítico dos comportamentos sociais e das pessoas alicerçado nos seu saber dos filósofos e da história  clássica e dos judeus e acede aos principais líderes ocidentais. Extravagante, satírico e homossexual, adora roupas de luxo, gastronomia requintada e música barroca e Paris. É ainda o mentor de alunos que se fascinam por ele e. quando reconhecidas suas capacidades por este, tenta orientar as suas vidas. Quase sempre viveu com dificuldades em sustentar os seus caprichos, mas, de uma sugestão de Chick, escreve um livro sobre si e suas ideias que o torna imensamente rico, o que lhe permite satisfazer os seus gostos. Em Paris encomenda a Chick a sua biografia, sendo-lhe depois diagnosticada SIDA. Decorre então um período do desenvolvimento da doença, mas não de abatimento da sua personalidade, é acompanhado de perto por Chick e a última mulher deste, descrevendo a sua luta, seguindo-se os efeitos da sua ausência nos amigos dele, até que Chick adoece com uma toxina e reconhece a importância dos que lutam pelos outros e do seu dever de eternizar o seu amigo.

Escrito com uma ironia requintada e cheio de referências cultas que mostram a força de uma grande amizade sem complexos por quem é diferente. É um elogio a mentes geniais e às pessoas que dão tudo para outros sobreviverem nesta vida. Denuncia, uma marca deste autor, os complexos dos judeus norte-americanos na integração social através de reflexões filosóficas e religiosas. Apesar de dois períodos de doença, nunca a narrativa se torna deprimente, pois o bom humor acutilante atravessa todo o livro que me cativou do princípio ao fim. Magnífico e sintético, eis uma obra com pouco mais de 200 páginas que, ao contrário de outras obras onde Bellow se estendeu excessivamente, constrói para mim um romance leve e culto, mas perfeito de um galardoado com o Nobel da literatura.

sábado, 28 de outubro de 2023

"Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez

 

Citação

"o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão."

Apesar de ser um grande leitor, não sou dado a releituras, que me lembro "Cem Anos de Solidão", do colombiano e prémio Nobel da literatura Gabriel García Marquez, é o terceiro romance que releio, neste caso passados 35 anos de quando o li pela primeira vez e é talvez a obra emblemática deste escritor.

José Arcadio Buendía e sua esposa Úrsula com mais um conjunto de homens e mulheres partem da sua terra em busca do mar e perdem-se na floresta amazónica e criam a sua aldeia Macondo isolada do mundo e apenas visitada por artistas de circo que comunicam os seus saberes mágicos que José Arcadio se deixa aliciar e no qual investe os parcos rendimentos do casal. Começa então a história desta família marcada pela pobreza, magia, solidão e guerra que se estende por 7 gerações de amores, traições, incestos, loucuras, guerras, vitórias, derrotas, sucessos e superstições num mundo em que ocorrem invenções tecnológicas e revoluções políticas e económicas cujos ecos chegam e perturbam progressivamente Macondo e as relações humanas desta terra perdida na floresta entre a realidade, a magia e os espíritos dos mortos.

Numa narrativa que criou o estilo do realismo mágico, o autor encadeia um conjunto de acontecimentos e loucuras a ritmo alucinante onde se conta a vida das várias gerações de Buendías, marcados pela personalidade mais terrena e alquímica dos Arcádios ou mais guerreira e social dos Aurelianos, sempre sujeita à força das mulheres e amantes que a integram ou que com ele se cruzam. Assim, de uma forma indireta, se denunciam as injustiças sociais da América Latina, se fala das revoluções políticas de que o continente foi alvo e de cujos frutos nunca responderam às esperanças revolucionárias e onde a pobreza e superstição apenas permitem uma vida de um povo marcada pela solidão e superstição.

Um romance que é um clássico e uma obra incomparável pela sua originalidade e força, onde o leitor se perde entre gerações com nomes iguais, entre a realidade e a magia, entre a esperança e a desilusão e entre a busca do outro e a solidão. Uma obra que deve ser lida por todos os que amam a literatura ficcionada como arte que combina a narrativa, a criatividade e explora os limites da escrita, enquanto monta um retrato da realidade sem o fotografar. Um excelente livro

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

"Travessuras da Menina Má" de Mario Vargas Llosa


 Citação

"fundava a sua teoria da inevitável desintegração da humanidade devido à gangrena burocrática"

Após vários anos, voltei ao laureado com o Nobel da literatura Mario Vargas Llosa, agora com o romance "Travessuras da Menina Má". O adolescente Ricardo tem o sonho de viver em Paris e apaixona-se no seu colégio em Lima, Peru, por uma recém-chegada que se diz chilena e o aceita de forma fugidia, mas descobre-se que a moça bonita é uma menina má, envolta em mentiras com o objetivo de parecer alguém de classe alta e ser alvo de atenções e desmascarada desaparece. Muitos anos mais tarde, Ricardo torna-se tradutor da UNESCO em Paris, faz um amigo peruano que recruta compatriotas para formação revolucionária em Cuba, entre estes surge a chileninha. Ressuscita a paixão que a menina má alimenta do forma fugidia, vai para Havana e torna-se amante de uma chefia guerrilheira, eis a a vocação da mulher: buscar alguém que lhe dê um estatuto social para ter vida de rica. Inventa passados falsos, mas todas as suas conquistas acabam mal e tem sempre à espera Ricardo, o seu menino bom, que a ama e a acolhe nos interregnos de nova fuga. Uma sucessão de casamentos e amantes em capítulos, décadas, países e cidades diferentes que construirão as memórias da vida de Ricardo que por amor nunca singrou verdadeiramente na sua vida.

A obra, bem escrita e com uma história bem narrada, origina uma trama ao estilo de novela com um amor difícil do protagonista vítima da menina má. O romance vale, sobretudo, porque cada capítulo faz um enquadramento histórico, geográfico social e cultural, assim assistimos sucessivamente à vida dos adolescentes num bairro de classe média alta em Lima na década de 1950, depois a expansão dos ideais da revolução cubana nos anos seguintes na América Latina vistos a partir de uma Paris, que é então o epicentro da cultura mundial com escritores e filósofos como Camus e Sartre, a admiração internacional da canção francesa e do cinema de autor como Truffaut. Depois, tudo muda para Londres entre a década de 60 e 70: o movimento hippie, a minissaia, os Beattles entre outros agentes da revolução cultural de então, uma das páginas que mais gostei do livro. Mas as aventuras da menina má em seguida saltam para uma Tóquio hiper-higienizada e de sentimentos escondidos mas capaz de realidades extremas que chocam. Para se avançar para tempos mais próximos onde é menos evidente a diferença dos costumes face ao presente, um centrado na esperança e desilusão da evolução política do Peru, outro em Paris e o último que mostra a abertura à cultura de Madrid após a ditadura, momento em que a história tem um fim.

Um livro fácil de ler, por vezes cansa a subserviência por amor do narrador à menina má, mas que se torna interessantíssimo por mostrar a evolução cultural no hemisfério ocidental e apontar por alguns dos nomes da literatura mais importantes da Rússia, pelo que se torna um magnífico guia nestes assuntos.

domingo, 14 de novembro de 2021

"José e os seus Irmãos - As histórias de Jaacob" de Thomas Mann

 

Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "José e os Seus Irmãos - As histórias de Jaacob" baseado na personagem do antigo testamento José e considerada a maior obra deste escritor alemão laureado com o prémio Nobel da literatura.

Thomas Mann pega nas narrativas bíblicas e torno de José para romanceadamente as ampliar, reconstituindo a vida dele e das personagens à sua volta como: o pai, a mãe, os irmãos, os avós, recuado aos patriarcas, e outras figuras referidas no antigo testamento e ainda fazer reflexões sobre a época, o nascimento do monoteísmo e judaísmo num médio-oriente politeísta e dividido por múltiplos pequenos reinos bordejados pelo Egito, além de tomar a liberdade de tentar corrigir eventuais erros históricos ou até mesmo questionar a tradição dos textos sobre o que então se passou.

No primeiro romance, depois de um prelúdio em estilo de ensaio sobre a neblina do passado e a época e a dificuldade em distinguir factos e a especulação, onde eu senti grande dificuldade de leitura e desisti, seguem-se sete histórias. Na primeira conhecemos um José excessivamente belo, curioso por descobrir o seu papel entre a mitologia pagã e o Deus do seu pai com quem reflete sobre isso, a sua má convivência com os irmãos por se sentir predestinado e por estes saberem-no predileto de Jaacob com quem tem um diálogo entre a ambiguidade do paganismo e monoteísmo com o fascínio do pai pelo filho que é quase um ensaio sobre a passagem do mundo politeísta ao de Javé. A partir deste capítulo, os restantes episódios são centrados em Jaacob, com os seus defeitos e a consciência de estar destinado a ser gerador da linhagem do povo de Deus, o que lhe serve de guia para os seus atos, nem sempre louváveis, mas justificáveis a esse fim. Assim saberemos do sonho de Jaacob; do episódio infeliz de Dina devido à malvadez dos filhos mais velhos de Jaacob; do roubo deste da benção da primogenitura de Isaac a Esaú; da sua fuga para oriente e servidão em casa de Labão, seu tio e sogro, por amor a Raquel; como foi ludibriado em casar com Lia antes de consumar o casamento com Raquel, a sua amada; a rivalidade entre as irmãs Lia-Raquel; e o nascimento de José e de Benjamim com a morte da mãe. 

No fundo, todas as narrativas em parte são de excertos bíblicos que são reconstruídos e alvo de análise filosófica e teológica e muitas vezes reexplicados sobre um outro prisma ou reinterpretação da narrativa. Muitas vezes pode ser incómodo para quem segue literalmente o conteúdo bíblico como factos históricos que aqui são por vezes desmontados ou mesmo alterados com justificação para essa reconstrução. O texto é muito descritivo e denso, por vezes com parágrafos de várias páginas, mas de grande beleza plástica, só que nem sempre de fácil leitura, mas confesso que com o decorrer desta me fui entusiasmando e embora conhecedor do que é contando no antigo testamento a curiosidade de como Mann tratou o assunto despertou-me suspense na leitura.

Gostei e recomendo a quem gosta de leituras profundas, mas não é um livro fácil e após um intervalo espero voltar a esta tetralogia de modo a perceber a evolução da narrativa que já sabemos irá até ao Egito e à subida de José até principal conselheiro ou ministro do faraó.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

"ALICE MUNRO selected stories"

 

Acabei de ler um livro em inglês de contos selecionados da escritora canadiana laureada com o prémio Nobel da literatura "Alice Munro Selected Stories". Este reúne 23 histórias curtas, na sua maioria com cerca de duas dezenas de páginas, que na generalidade são memórias de mulheres comuns sobre momentos fortes da sua vida ou do desenrolar desta no seu dia-a-dia normal e os seus problemas, mostrando assim, não só o seu modo de viver, como também montando retratos da sociedade em várias partes do Canadá, na sua maioria no sudoeste do Ontário e em meio rural.

Reflexões sobre o peso da mentalidade social e religiosa da sociedade canadiana sobre o comportamento das mulheres e no seu relacionamento com os homens na primeira metade do século XX, descrições analíticas das tensões em família ao nível de casais ou entre gerações, exposição de impulsos íntimos e da sexualidade e os problemas do despertar da adolescência para a juventude e maturidade sujeitos a uma pressão em comunidades conservadoras de pequenos aglomerados urbanos, traições e oportunismos no relacionamento entre homens e mulheres e ainda perceção e esforço de compreensão do modo de agir de pessoas próximas do narrador, vão ao longo dos contos sendo tratados de forma introspetiva por olhares no feminino e num desenvolvimento que se vai desenrolando lentamente dentro de cada história até à montagem se completar no final como quadros da realidade esbatidos sobre uma pintura entre o impressionista e o expressionista.

Nesta seleção compreende-se a razão de muitos considerarem Alice Munro uma versão feminina do século XX de Tchékhov, efetivamente, cada conto, mais que uma narrativa linear, é uma história que se vai montando devagar em torno ou a partir de personagens que em nada se destacam do cidadão comum, sem lições morais, mas que no fim deixam pistas para a reflexão moral e ética e constroem o retrato da sociedade de uma época, do país e dos constrangimentos dos protagonistas de cada relato.

Gostei muito destes retratos com uma escrita magnifica que selecionam o que de melhor escrevera Alice Munro em anos bem anteriores ao prémio Nobel da Literatura e, no meu caso, por permitir compreender a mentalidade e muitos pormenores da vida diária e em família da comunidade anglo-saxónica do Canadá, sobretudo do sudoeste de Ontário, onde nasci e que visito com alguma regularidade.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Memorial do Convento" de José Saramago

Terminei a releitura de "Memorial do Convento" de José Saramago, o único premiado com o Nobel da literatura de expressão portuguesa e para muitos o romance emblemático da sua obra de ficção. Pouco releio livros, se gosto muito da escrita opto por rever excertos, pois a surpresa no desenrolar da trama conta também muito para o meu prazer de leitor, mas este lera-o há cerca de 33 anos atrás, aliás, foi a minha estreia neste autor que depois tornei-me seguidor pontual por mais de uma década. Decorrido este tempo todo, tirando o tema e personagens principais, já pouco me lembrava do seu conteúdo e foi quase uma primeira leitura ao nível de pormenores e das cenas que se vão desenrolando na história. O exemplar que possuo, quer a capa, quer a editora, já nem correspondem às da imagem, pois os direitos editoriais foram transferidos para outra casa distinta da que o escritor foi fiel em vida. Na verdade possuo centenas de livros que não folheio há muito tempo e penso ter chegado ao momento de os redescobrir e optei começar por este.

A história tem como centro a razão de se edificar e os trabalhos de construção do Convento de Mafra, todavia em Saramago nada é uma simples narrativa. O escritor, além de romancear um conjunto de personagens que existiram à época: como o rei D. João V e família, o inventor Bartolomeu de Gusmão, o compositor Scarlatti e diversos membros do clero e nobreza; foca a trama em Baltasar Sete-Sóis, maneta, e Blimunda Sete-Luas, vidente do interior das pessoas, que se encontram num ato da inquisição, juntam os seus trapos e se tornam num casal sem as regras legais e morais da época. Estes vivem as dificuldades do povo sem instrução e servem de defesa das relações naturais sem obediência a regras exteriores aos elementos apaixonados ou acostumados entre si e ainda de denúncia das injustiças face à opulência da realeza e clero a coberto da religião e a escassez e riscos dos pobres e pessoas livres pensadoras sob a ameaça da inquisição. Na primeira parte teremos Bartolomeu Gusmão a ser auxiliado pelo par na sua invenção aeronáutica quando a tecnologia era vista como uma arte demoníaca e onde o sonho e a vontade do Homem estão acima das limitações físicas da Natureza e da castração religiosa.

Na segunda da obra o mesmo par integra-se no grupo de trabalhadores explorados na construção do monumento edificado à custa da extração da riqueza das colónias do império para glória de Deus no agradecimento pelo Seu papel de satisfação dos anseios e caprichos dos ricos em detrimentos dos pobres por Ele amados.

A escrita da obra é tipicamente ao estilo único criado por Saramago, mas agora com o tempo verifico que ainda tinha sido levado à exaustão alcançada em obras posteriores. O sarcasmo pícaro sobre a justiça, a ética e a moral sexual atravessam todo o texto, numa crítica mordaz, por vezes a rondar a brejeirice e irónica, e frequentemente alavancada em ditos populares. A denúncia dos defeitos e vícios do clero e realeza, a coberto de uma teologia interesseira destas partes, não é minimamente travada neste romance.

É sem dúvida um grande romance, um clássico da literatura mundial, nem sempre fácil de ler devido à forma narrativa e a uma forma única de realismo mágico exclusiva de Saramago, mas cheio de informações históricas e vale bem a pena o esforço, na releitura não sofri o choque da primeira vez em que me estreei no autor, mas mesmo assim continuo a gostar muito deste romance e foi o que mais me marcou à partida, mesmo que hoje prefira outros do escritor.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"As Mansão" de William Faulkner

Acabei de ler o romance "A Mansão" escrito pelo norteamericano galardoado com o prémio Nobel da literatura: William Faulkner. Este constitui o último da trilogia da família Snopes que li ao longo do corrente ano.
Esta saga familiar iniciada com a A Aldeia, onde Rattlif, um vendedor ambulante residente na cidade de Jefferson e excelente perceção, relata como Flem Snopes, o filho de um rendeiro recém-acolhido  nos domínios rurais Will Varner consegue, de forma capciosa e pouco escrupulosa, assumir a liderança dos negócios do homem forte e tornar-se senhor dos seus terrenos e ainda trazer parentes de forma a criar um clã ominoso e execrável que controle a zona. Seguiu-se a A Cidade, onde Ratliff, o seu amigo advogado Stevens e o sobrinho deste ainda criança relatam como o mesmo Flem vem com a mulher e a filha para Jefferson, a esposa deslumbra o advogado, enquanto a filha o tio e sobrinho, e em simultâneo por vias igualmente pouco dignas Flem estabelece relações com o Presidente da Câmara e banqueiro e com isso não só se torna maioritário na instituição como senhor da sua mansão e como afasta de forma vil os seus familiares que possam manchar a sua reputação pouco digna.
Este volume prossegue a saga de Snopes, desde a década de 1930 e prolonga-se pela de 1940 e é de novo contada pelos mesmos três narradores do segundo romance. Agora assistiremos ao modo como Flem se acomodou à sua situação de rico, como um primo Snopes detido de modo perpétuo nos volumes anteriores por falta de ajuda do líder do clã procurará agora vingar-se e o papel da filha do banqueiro em tudo isto a coberto de uma bondade ideológica onde tentará corrigir erros e retaliará dentro de portas, no que culminará com o fim do domínio regional de Flem Snopes.
Logo no início do livro Faulkner alerta-nos para a existência de incoerências entre este romance e os anteriores e de facto algumas são mesmo incompatíveis ou inconsistentes, mas faz parte da evolução de como ele desejou para as suas personagens, sendo que este último foi escrito duas décadas depois do anterior. Uma vez que os lera há poucos meses a memória logo se apercebeu de contradições e reformulações, por vezes extensas, de acontecimentos contados antes.
No que se refere ao estilo de escrita, Faulkner, além do quase permanente tom de ironia e insinuação a aspetos futuros, utiliza o fluxo de consciência, ou seja: a narrativa vai sendo destilada ao ritmo da memória, da fala e da observação dos acontecimentos, sendo ainda intercalada com análises e considerações do narrador que surgem encadeadas e sem filtro ao longo de frases extensas. Isto faz com que o texto pareça caótico com mudança brusca de sujeito, do tempo, do local ou do ângulo do comentário e exige grande atenção para o leitor não se perder. Eu adotei há muito um método de ultrapassar esta dificuldade em Faulkner: ler ao ritmo da narrativa, construindo mentalmente a história sem me fixar nos pormenores que a rodeiam, o que torna mais fluida a leitura, mas há por vezes que reler um parágrafo descubro aspetos da narrativa não fixados, só que o essencial fora retido. Ler Faulkner é um desafio, pois cada parágrafo é um denso ramalhete das mais díspares informações cuja beleza brota do conjunto e exige técnica.
O primeiro volume tem um tradutor diferente dos outros dois, estes parecem-me ter um brilho e vivacidade superior, mostrando como a tradução pode realçar ou enfraquecer um livro escrito em língua estrangeira. Há outros escritores com narrativas intencionalmente difíceis, mas poucos me cativam como Faulkner. Recomendo-o a quem gosta de desafios de leitura e sabe tirar prazer destes.

domingo, 26 de julho de 2020

"A Colmeia" de Camilo José Cela

Acabei de ler uma das obras de referência do escritor da Galiza e vencedor do prémio Nobel, Camilo José Cela: A Colmeia,
A obra decorre na cidade de Madrid pouco depois do confronto que colocou Franco no poder, em plena II Grande Guerra, quando esta começa a ser desfavorável aos alemães, e narra o dia-a-dia de um conjunto de cidadãos da classe média e baixa, com a escassez de dinheiro, os seus artifícios diversos de sobrevivência e manhas numa sociedade influenciada pela hipocrisia pública religiosa e conservadora e uma prática privada cheia de vícios.
O romance não tem propriamente uma trama, temos uma série de cenas curtas (às vezes de um pequeno parágrafo e na maioria das vezes estendendo-se por perto de uma página de texto), onde em cada uma se relata um episódio da vida das personagens que vão sendo apresentadas sucessivamente, por vezes com repetição, outras uma única vez e só um pequeno número surge desde perto do início do livro e continuam a reaparecer até quase ao fim do mesmo. Uma parte dos episódios decorre no café da senhora Rosa, onde vemos as suas relações duras com vários empregados e clientes, histórias da vida destes, do engraxador, do vendedor de tabaco, da criança cigana que canta rua, da mulher de vida em final de carreira e solitária em busca de um conforto para o futuro, do poeta sem dinheiro e dos músicos que animam o espaço, entre outros.
Outro conjunto de episódios decorre numa pensão barata de encontros íntimos onde por coincidência frequenta um pai, uma filha e os respetivos amantes, que procuram esconder entre si as sua relações íntimas. Há também uma casa de apartamentos onde ocorre um homicídio de uma idosa e mãe de um homossexual de vida escandalosa, aqui coexiste gente diversa, incluindo um médico e sua família. Há ainda uma casa de um contabilista que nos trabalhos ajeita as contas em favor dos clientes, casado cuja mulher tudo faz para ajudar o poeta pobre apesar da relação conflituosa deste com o cunhado. Além destes casos, onde é possível traçar uma linha evolutiva, existem cenas de rua e muitos outros episódios em mais locais que no conjunto envolvem 160 personagens (o número consta de um prefácio) em duas centenas e meia de páginas que dão um retrato da miséria de vida das gentes de Madrid no pós guerra civil e numa Europa em luta. Uma espécie de colmeia onde a maioria busca salvar-se individualmente e por vezes com que dores. 
O texto é muito bem escrito, vai desde linguagem popular até outra mais trabalhada e literariamente é uma obra bem original. Gostei de muitos episódios, a minha dificuldade resultou do facto de eu ser péssimo e memorizar  nomes e nesta sequência tive de fazer um esforço significativo para identificar as personagens que tinham linha evolutiva na obra e quando as comecei a identificar o contexto o romance estava a acabar... se acabou de facto!
Para quem gosta de experiências literárias: recomendo; não pelo enredo da narrativa que é escasso mas é uma obra inesquecível.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Doutor Jivago" de Boris Pasternak

Excerto
"Já aconteceu assim algumas vezes na história. O que foi concebido como ideal e elevado, acabou em grosseiro materialismo.  Assim a Grécia se tornou Roma, assim o Iluminismo russo se tornou na Revolução Russa."

Acabei de ler o romance "Doutor Jivago" que está na origem da atribuição do prémio Nobel da literatura ao seu autor: Boris Pasternak, russo de nascimento, galardoado quando soviético, apesar de então o livro ter sido proibido na União Soviética, foi igualmente adaptado ao cinema em Hollywood com o mesmo nome e vencedor de vários prémios, incluindo 5 Oscar e 5 Globos de Ouro, entre outros.
Apesar de tantos galardões em torno desta obra, eu tinha algum preconceito relativamente a este romance por saber que alguns prémios foram usados como arma política na guerra fria, o que me deixava dúvidas sobre o seu valor intrínseco. Agora tenho de reconhecer que é de facto um grande romance que mistura componentes históricas, paixão romântica, prosa e poesia e enraizado no legado filosófico e literário dos escritores geniais da Rússia: Dostoiévski e Tolstoi.
A obra divide-se em duas partes: a primeira até à I Guerra Mundial e início da revolução russa, esta arranca com a apresentação de numerosas personagens de várias classes sociais, muitas delas ainda crianças e adolescentes, mas quase todas afetadas por questões de injustiça ou problemas familiares e onde conhecemos o quarteto das personagens em torno do qual se centrará a obra: Iuri Jivago, Toina, Lara e Antipov, na qual se casam e assim entram na segunda parte que começa no tempo da guerra civil russa, a vitória do exército vermelho e vai até à segunda guerra mundial. Temos assim quase meio século de história do País e onde já brotara a defesa dos valores de justiça e fé na grande literatura russa, mas que desembocou numa tragédia de desconfiança e perseguição política que estilhaçou famílias e o amor, nomeadamente na vida dos protagonistas vítimas de tudo isto apesar de abraçarem quase os mesmos valores e até professarem simpatia ou pelo menos não alimentarem antipatia pelo comunismo.
Zivago, médico e poeta com o seu conflito entre a fidelidade conjugal para com Toina e amor à família e a sua paixão por Lara que sofre de um dilema semelhante com a sua admiração pelo marido, o revolucionário Antipov, e o seu amor para com Iuri, aspetos que vão estar presentes no confronto da frente ocidental russa da 1.ª Grande Guerra e no campo da guerra civil na Sibéria a oriente, passando várias vezes por Moscovo e levantando questões filosóficas dos valores da revolução até ao extremismo e a desilusão de uma mudança que em nome da libertação levou não só à destruição como à opressão do povo que era para libertar. A estória não é contra os ideais revolucionários iniciais mas  evidencia como o seu evoluir acabou por destruir o que defendia de forma injustificada. No fim veremos os poemas de Zivago numa rara adição póstuma do trabalho poético do protagonista ao seu tempo de vida.
Gostei do romance, tive dificuldade em entrar nele devido ao elevado número de personagens que vão desfilando no início em espaços paralelos, mas depois de fixado o elenco, as suas relações, pensamentos e a evolução política no País, descobre-se uma grande obra, que fica mais rica para quem já conhece a literatura russa do século XIX, onde se é evidente a constatação de que a solução para as denúncias de injustiça e a defesa dos valores levaram depois a uma degradação desumana bem contrária ao proposto por Dostoiévski e, sobretudo, Tolstoi.
Uma obra que levanta questões políticas e filosóficas temperadas com um amor romântico racionalizado entre pessoas maduras que não deixam de se questionar sobre a relação entre as suas obrigações pessoais face à rendição sentimental às paixões o que o torna num excelente livro onde a razão e o desejo não convivem facilmente..

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"A Cidade" de William Faulkner


"A Cidade" de William Faulkner", norteamericano laureado com o Nobel da literatura, é o segundo volume da trilogia da família Snopes, cujo primeiro "A Aldeia" li recentemente.
Em A Aldeia Lem Snopes dominou a economia rural do Velho Domínio do Francês, enriqueceu ao entrar na família de Will Varner e no fim partiu para a capital do condado: Jefferson. 
Aqui, a sua ambição desmedida não pára, para tal alia-se ao presidente da câmara, explorando a relação deste com a sua mulher e mãe da sua filha Linda, bastarda, mas que o levou ao casamento de conveniência. Assim, em paralelo, desvia bens municipais de que sai ileso devido à teia montada, enquanto os seus parentes, já conhecidos anteriormente, vão sendo atraídos do campo para esta cidade com atos mais ou menos duvidosos até ao desfalque no banco onde Lem e o sogro tem ações. A partir de então começa a fase deste subir no domínio da cidade, enriquecer e limpar o seu nome socialmente numa terra de moral conservadora das religiões protestantes britânicas e ainda vingar-se como marido traído, retendo Linda de quem depende grande parte do património que deseja, expulsa os elementos do clã que lhe sujam o nome e vai até ao sucesso final com vítimas pelo caminho. Ficam as pistas para o terceiro volume.
Toda a estória é contada por três testemunhas das práticas de Lem Snopes: (1) Rattlif que fora o principal narrador do primeiro volume que o compreende, explica e perspetiva as ações futuras dele; (2) Gavin Stevens, advogado e depois procurador público de Jefferson, que se apaixona também pela mulher de Lem e mais tarde por Linda e vive em permanente luta entre os seus sentimentos, a aproximação e o cuidado social, sendo alvo dos reparos e conselhos da sua irmã gémea, casada e com quem coabita e (3) o filho desta, Charles Mallison, cujos primórdios de Lem na cidade lhe foram contados por um primo e passa a testemunha e agente envolvido como criança e adolescente que servia de intermediário inocente entre partes em jogo.
O texto tem, por norma, um tom sarcástico, irónico ou de crítica social, o que o torna divertido, e recorre à técnica escrita de fluxo da consciência: o narrador vai expondo de forma cruzada e sequencial no parágrafo as ações, os comentários, os à partes, reposições de omissões de dados passados, as reflexões pessoais do narrador e até as suas hesitações, erros e correções. Isto obriga a uma grande atenção do leitor devido às variações bruscas no tempo, lugar e de sujeitos, com frequentes intercalações estranhas entre a introdução da ideia da frase e a conclusão do assunto.
Apesar de leitura difícil diverti-me muito, embora certos capítulos se tornem prolixos de pormenores do início à conclusão da ação devido ao fluxo da consciência, o que pode cansar, mas em paralelo permite um retrato social profundo das populações dos Estados Unidos longe dos grandes centros urbanos.

domingo, 22 de março de 2020

"A Aldeia" de William Faulkner


A acabei de ler o romance do norteamericano de William Faulkner, escritor laureado com o prémio Nobel da literatura, "A Aldeia". Esta obra é a primeira de uma trilogia em torno da família Snopes no Mississipi.
Neste romance, passado no meio rural, Will Varner é o rico da aldeia, dono de vastas propriedades incluindo O Velho Domínio do Francês. Praticamente toda a atividade económica gira em torno dele: a produção de algodão, as lojas, os empregados e os arrendatários. Um dia Ab Snopes entra na loja e arrenda um terreno ao filho Jody, mas pouco depois descobre-se que ele já causara problemas a outros rendeiros da vizinhança: associado a fogos sobre armazéns dos proprietários; mesmo assim o negócio avança e pouco depois o filho de Ab, Lem, torna-se empregado da loja e vão chegando outros parentes que se instalam e o clã a cresce na economia numa teia de conluios a que os aldeões assistem e compreendem, sobretudo, através dos comentários de Ratliff que vive na cidade e conhece de infância Ab. Quem se deixará enganar pelos Snopes e até onde irão? Vai-se descobrindo neste volume da Trilogia.
William Faulkner desenvolveu um estilo de escrita literária que pratica neste romance denominado fluxo da consciência: narrativa vai sucessivamente tecendo uma teia de ideias, comentários, descrições da ação, da envolvente cénica, personagens e seu enquadramento que obriga a uma grande atenção. Isto porque do início à conclusão de um parágrafo pode existir um extenso texto cheio de complementos com referência a outros sujeitos, factos, tempos, locais e ações onde nos podemos perder, assim a leitura da narrativa vá-se montando como peças de um puzzle que permitem a compreensão do geral e dos pormenores lançados.
Algumas páginas dão grande prazer de ler pela beleza do texto, outras entram em conflito com a atenção do leitor e tornam-se muito difíceis, embora o tom sardónico por norma presente e o suspense associado às pistas lançadas permitam manter vivo o interesse na continuidade da leitura de quem resista à dificuldade do estilo de escrita. Gostei, até mesmo muito, já tenho comigo os restantes volumes, mas preciso de uma pausa a este esforço de atenção. Desejo retomar os Snopes em breve.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Watt" de Samuel Beckett

Acabei de ler o livro "Watt" do irlandês, laureado com o prémio Nobel, Samuel Beckett. Como já conheço outras obras deste autor, tanto de teatro como romance, já sabia que era um escritor com narrativas de situações absurdas a que se junta uma escrita criativa, aspeto que o distingue em muito de Kafka: onde há uma evolução consistente dentro de uma realidade estranha e um texto sem experimentações livres da sintaxe ou da morfologia.
O romance tem 4 partes. A primeira começa a assemelhar-se a um ato de teatro com diálogos como uma encenação que introduz Watt a partir de um banco de jardim de onde as personagens o estariam a ver carregado de bagagem e fora de cena. Os primeiros pormenores absurdos já despontam aqui. Segue-se a viagem de Watt num comboio com outra personagem e um diálogo estranho, depois a descrição do percurso a pé até a casa de Knott e a sua entrada nesta onde ouve o empregado que está de saída que ele vai substituir e o absurdo vai num crescendo.
O segundo e terceiro capítulos descrevem a vida e as observações de Watt como serviçal e em duas posições distintas. Tomamos conhecimento das rotinas em casa de Knott, que nunca intervém, e dos seus absurdos associados e de todas as combinações possíveis, envolvendo personagens estranhas, para assegurar tais tarefas por tempo indeterminado.
A quarta parte corresponde ao fim da estada em casa de Knott e o regresso à estação de comboio e o absurdo intromete-se na sequência dos acontecimentos. Há ainda uma adenda com complementos a parágrafos ou situações respeitantes aos anteriores capítulos que não acrescentam nada de lógico.
Enquanto se avança no livro, a liberdade criativa da escrita aumenta, juntando ao absurdo variações da mesma, ora ao nível de articulações das frases, ora de situações, ora de combinações e repetições (por vezes de grande extensão) e também a organizar o texto em forma de pauta polifónica, em verso e, nalguns casos, com omissões e erros que se percebem ser intencionais.
Existem momentos hilariantes, outros monótonos e até mesmo irritantes. Uma tristeza que atravessa toda a obra, quer pela solidão e pobreza de Watt, quer pelo desencontro de personagens e ainda em virtude destas frequentemente serem portadoras de alguma deficiência: física, psicológica ou carência emocional e financeira que as torna feias, porcas, mas não más.
Um livro bem diferente, por vezes divertido, mas noutros de difícil leitura cujo absurdo o torna incompreensível. Diz-se que Beckett usou a escrita criativa de Watt como uma forma de escapar à loucura quando estava escondido do nazismo em França. Contudo, eu não consegui parar de ler e diverti-me muito em alguns momentos da narrativas, noutros foi mesmo sofrido.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

"Bilhar às Nove e Meia" de Heinrich Böll


Citação
"nem mesmo os assassinos eram sempre assassinos, não o eram a todas as horas do dia e da noite, havia a hora de descanso do assassino, como havia o período de descanso dos ferroviários;"

Li "Bilhar às nove e meia" do alemão Heinrich Böll, prémio Nobel da literatura de 1972, um romance que mostra o sofrimento de alemães do início do século XX até 1958. Cidadãos pacifistas ou não subservientes ao regime ditatorial e vítimas de duas guerras, bem como as feridas psicológicas que ficaram após o termo da última.
A ação decorre ao longo do dia 6 de setembro de 1958, mas com recordações narradas desde 1907 em torno dos membros de três gerações de Fähmel: Heinrich, Robert e Joseph; pai, filho e neto, todos arquitetos e com papel ativo  na abadia de Santo António perto de Colónia; as mulheres dos dois primeiros, a namorada do último e sua irmã, a que se juntam amigos e inimigos nas questões de regime e das guerras, tendo Heinrich perdido 6 dos seus sete filhos neste meio século.
Tudo começa por uma transgressão da secretária de Robert, instruída para só o interromper entre as 9 e meia e as 11h se os envolvidos fossem o pai, a mãe, o filho, a filha ou o sr. Schrella que ela desconhece. O patrão repreende-a e Heinrich acalma-a e convida-a para o seu aniversário naquele dia. Descobre-se que às 9 e meia Robert se fecha num hotel para jogar bilhar, uma fuga para recuperar dos traumas do passado. Aos poucos entramos nas memórias de cada um e vai-se tomando conhecimento da difícil história dos Fähmel, iniciada na juventude do provinciano Heinrich após a vitória no concurso, perante consagrados arquitetos, para a construção de uma abadia, o que lhe permitiu riqueza e casamento na cidade com a filha de Kilb.
Três gerações de pessoas onde uns adotaram o caminho da paz: os filhos do cordeiro; e outros optaram pelo oposto e comeram: o sacramento do búfalo que perseguiram os primeiros e mataram. A história decorre em 1959 à sombra da torre de São Seferino o passado é marcado pela construção, destruição e reconstrução da abadia sempre com a intervenção dos arquitetos Fähmel e só para a festa de aniversário no fim de 6 de setembro o Sr. Schrella se encontra com Robert.
A escrita por vezes é rica de diálogos e essas páginas são muito fáceis, mas as narrativas do passado são constituídas por parágrafos muito extensos com conteúdo de difícil apreensão e cheios de simbolismos e referências cristãs, onde as memórias que fluem e se intercalam para completar o passado como peças de um puzzle que se vai montando. Cada capítulo centra-se numa personagem e suas memórias face ao presente; já depois da guerra, da ditadura e dos lobos vestirem pele de cordeiros e manterem-se no poder com dolorosos efeitos nas vítimas.
Sem dúvida um romance muito denso, rico de conteúdo e com páginas difíceis que despertam interesse em descobrir o que escondem das feridas e atos loucos. Gostei de ler, recomendo a quem gosta de textos que dão alguma luta enquanto oferecem reflexões sobre as questões da sobrevivência do bem perante o mal que grassa na sociedade.