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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

REMEMBERING: Frances Farmer (ou Frances, Hollywood, Lúcifer e o Inferno: de „Aura Lee“ a „Love me Tender“)



Uma das personalidades cinematográficas que mais me intriga até hoje é Frances Farmer (1913 – 1970).


Foi difícil escolher Frances como tema. Mais ainda fazer um relato sobre ela. Tanto já foi escrito, dito, interpretado sobre ela. E de certa forma é quase impossível encontrar material „neutro“ sobre sua vida. A maioria é influenciada por Hollywood e transforma-a numa espécie de Lúcifer cinematográfico, um anjo caído das grandes produções. Sua própria auto-biografia é de um „tom“ meio extra-terrestre. Lê-se nas entrelinhas que uma pessoa já não mais muito „normal“ (bem, o que é na realidade normal?) escreveu-a. E como poderia depois de todas as „surpresas“ que a vida lhe trouxe?
Muitos talvez ouviram seu nome, outros assistitam o filme que foi feito nos anos 80 sobre sua vida. Poucos ainda se lembram de sua imagem nas telas (minha mãe confessou lembrar-se bem do „nome“ Frances Farmer). Na realidade sua trajetória pelo cinema americano foi curta (1936-42) e foi, por motivos que leremos abaixo, práticamente „apagada“ da história. Não fosse pelo filme de 1936 (dirigido por Howard Hawks e William Wyler) que lançou-a ao estrelato (e no qual foi comparada pela crítica à uma „nova Garbo“), „Come and get it“, práticamente não teríamos um testemunho deste imenso talento.


Pergunto-me se algum dia seram redescobertos/relançados em DVD seus filmes com atores e partners famosos como Bing Crosby, Tyrone Power, John Hall, John Barrymore, Ray Milland, Fred MacMurray e Cary Grant (foto abaixo).
Mas Frances não é bem-vinda na memória de Hollywood: a história desesperada de Frances não é realmente uma que enfoque Hollywood pelo seu melhor e mais humano lado. Na opinião de muitos ela „traiu“ Hollywood ao, de certa forma, ter possibilitado uma visão mais „profunda“ sobre a fábrica de sonhos. Mas ela não foi a culpada, ela foi a vítima.
Frances havia sido descoberta pela Paramount em 1935. Foi muito bem sucedida nos seus primeiros anos no cinema mas sua incansável recusa em deixar-se fotografar em maillot (algumas indesejadas fotos existem) no que se chamaria „cheese cake“,
seu desejo de fazer teatro (Ela foi uma época para N.Y. onde trabalhou no sucesso „Golden Boy“ e tornou-se amante do autor, Clifford Odetts, que era na época casado com Luise Rainer)
e seus boicotes contra a Paramount logo a transformaram em „persona non grata“ no estúdio. Quando voltou, obrigada pelos advogados da Paramount, de N.Y., foi relegada à papeis secundários em produções „B“ como uma espécie de castigo.
Frances Elena Farmer, uma mulher inteligente e altamente crítica, incomodava Hollywood com seu jeito de ser e pensar. Acho que de certa forma até hoje incomoda já que não foi possível eliminar completamente todos os vestígios de sua existencia. Sua recusa a „cooperar“ (e a leve surra, ou tapa, que deu numa cabelereira durante a filmagem de „No escape“) transformaram-a num „outcast“ na Mecca do cinema. Ela foi presa por agressão física à cabelereira acima mencionada. Ela estava completamente bebada num quarto do "Knickerbocker Hotel", lugar decadente para o qual foi "mandada" quando o estúdio tomou-lhe a casa onde morava.

Sua fulminante e assustadoramente rápida caída em direção ao inferno havia começado


(Nota: Quando chegou à chefatura de polícia perguntaram-lhe seu nome, ela respondeu: „Voces arrombam meu quarto de hotel, me trazem para aqui à força no meio da noite e não sabem o meu nome?“. Em seguida perguntaram-lhe sua profissão. Ela ponderou por um curto instante e disse seca- e desafiadoramente: „Cocksucker“).
Que „coincidencia“ que repórters e cameras à esperavam na chefatura para retratar um grande escandalo.

Mas o tapa dado na cabelereira durante as filmagens da produção B „No Escape“ seria muito mais fatal do que um processo por uma pura agressão física.

Paramount, Hollywood (e, detalhe, sua mãe) usaram o „famoso“ tapa para „tirá-la de circulação“ durante algum tempo. Sendo porém a razão principal sua ideologia política. Frances era comunista e muito radical em suas idéias, o que nada agradava os chefes do estúdio.

Ela foi colocada num hospício. Primeiro em boas instituições mas com o passar do tempo e à medida que SEU dinheiro foi acabando (Hollywood não lhe oferecia papéis), sua mãe foi obrigada a colocá-la num manicomio do estado. Nestas instituições ela passou os próximos 11 anos de sua vida. É até cogitado que ela foi um dos primeiros pacientes a sofrer uma „Lobotomia“ (operação já há muitos anos proibida).

Sim, o inferno tinha definitivamente aberto suas portas para Lúcifer.

Frances não era de nenhuma forma „louca“; era uma „angry woman“ que tudo questionava, uma mulher angustiada que tinha encontrado a tequilla como substituta ao amor, como ombro para chorar suas mágoas. Uma vez ela pode ir para casa. Quando disse à sua mãe que jamais voltaria a Hollywood e que não mais queria ser atriz, foi mais uma vez internada. Foi considerada louca por recusar Hollywood.

O filme com Jessica Lange (abaixo) sobre sua vida („Frances“, 1982) é um ótimo trabalho. Principalmente por só contar com um „trunfo“ nas suas mãos: Um bom diretor com bons atores.


Ele é porém, apesar de ser MUITO forte, quase um „conto de fadas“ em comparação aos fatos de sua auto-biografia „Will there really be a morning?“ que conta sua luta para sobreviver aos maltratos, humilhações e sofrimentos num manicomio (isto sem contar os estrupos quase diários. Sim, ela era „vendida“ pelo "staff" para soldados por ser uma „Hollywood Star“ e para se afastar, pelo menos em espírito da sórdida situação, recitava em voz alta as poesias de Walt Withman enquanto era estrupada, muitas vezes por vários soldados em questão de uma hora).

Nos anos 50 ela saiu finalmente do manicomio: Frances viveu o resto de sua vida práticamente bebada, nunca tendo „resolvido“ seus 11 anos nos manicomios (Alguém se admira?). Ela fez durante anos um programa de TV em Indianapolis durante o dia (durante as noites ela bebia) e tentou até, sem sucesso, voltar ao cinema. Ela, que tinha crescido odiando Deus (vejam minha postagem de 03.06.2009 na qual traduzi um trabalho seu ainda durante sua época de estudante), acabou sua vida como uma fervorosa católica (!?).
Nossa!!!! Como me distanciei do caminho que estava „traçado“ para esta postagem. Comecei a „tertuliar“ comigo mesmo e uma coisa leva à outra…
O título desta postagem de certa forma „revela“ o que queria contar: „Aura Lee“ (ou às vezes „Lea“), uma canção original da Guerra Civil americana, foi interpretada por Frances em „Come and get it“ em 1936. Seu personagem, a mulher „com um passado“, Lotta Morgan canta-a num Saloon. Lotta, um dos personagens que Frances interpreta neste filme (ela também é a outra „Lotta“, a filha de Lotta Morgan) não é como as estereotipadas „mulheres da vida“ da época (Pensem em Mae West) mas sim uma mulher de voz grave, olhar intenso e de carne e osso. Detalhe: estamos falando de 1937!
A fotografia é um ponto fascinante desta produção. Só o efeito à la „venetian Blind“ que a sombra do parasol (ou sombrinha?) causa sobre seu rosto, já é em si magnífico. Técnica artesanal no cinema. Sim, deste material é que se criava estrelas.
A música virou realmente um sucesso só 20 anos depois, com outro texto e cantada por Elvis. Voces reconhecerão!

Aqui, Ladies and Gentlemen, uma bela e talentosa atriz: a esquecida Frances Farmer.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Frances Farmer and God


Desde a trágica Segunda-Feira passada penso neste “Essay” escrito ainda na High-School por Frances Farmer (sim, a maravilhosa atriz que, anos depois lutou contra o sistema Hollywoodiano, perdeu e passou muitos e muitos anos num hospício, não sendo louca – mais sobre ela um outro dia).
A mensagem desta ainda adolescente não saiu-me da cabeça por todos estes dias. Tive que sentar-me e traduzí-la. Voces entenderão.

“… e ninguém nunca aproximou-se de mim e disse „Voce é uma boba. Não existe tal coisa como Deus... “. Eu não acho que ele foi assassinato. Eu acho que Deus só morreu de velhice. Quando dei-me conta que ele não mais existia, isto não me chocou. Talvez pelo motivo de nunca ter-me deixado impressionar pela religião. Eu ía à escola dominical e gostava das estórias – estórias sobre Cristo e a Estrela de Belém. Elas eram bonitas mas eu não acreditava nelas. Era tudo muito vago. Deus era algo diferente. Deus era algo real. Algo que eu podia sentir. Mas existiam só certos momentos nos quais eu podia senti-lo. Eu costumava deitar-me entre os frescos, limpos lençóis à noite, tendo esfregado meus cotovelos e unhas e dentes para entao conversar com Deus. Eu estava limpa. Nunca havia estado mais limpa. E de uma certa forma sentia Deus. Eu só não estava certa do que era. Só esta sensação de frescura, limpeza e escuro. Mas aquilo não era religião. Existia um lado muito físico nisto tudo. Depois de um certo tempo, mesmo à noite, o sentimento de sentir-me com Deus não durava mais. Eu comecei a ponderar sobre o que o Pastor dizia... que Deus ve até o menor pardal cair do ninho e que ele toma conta de todas as suas crianças. Mas se Deus era pai de todas as crianças, então aquela limpeza que eu sentia à noite não era Deus. A partir daí, quando eu ía para a cama à noite, começava a pensar que estava limpa e logo em seguida que estava com sono. Então eu adormecia. Isto não impediu-me de desfrutar menos da limpeza. Mas eu sabia que Deus não mais estava lá. Algumas vezes achei bastante prático lembrar-me dele. Principalmente quando eu perdia coisas importantes. Depois de correr desbaforida pela casa, cansada de procurar, eu conseguia parar no centro de um quarto e fechando meus olhos, dizia: “Por favor Deus, deixe-me encontrar meu chapéu azul com a fita vermelha”. E normalmente funcionava. Isto deixou-me muito satisfeita até o dia em que comecei a pensar que se Deus amava todas suas crianças igualmente, porque se preocupava com meu chápeu azul enquanto outros perdiam seus pais e mães para sempre? Eu comecei a perceber que Ele não tinha muito o que haver nem com a morte das pessoas nem com os chapéus. Estas coisas aconteciam caso ele quizesse ou não. E Ele mantinha-se no “Céu” e pretendia não notar. Eu pensei um pouco sobre o porque de Deus ser tao inútil. Parecia uma perda de tempo pensar nele. Fiquei muito orgulhosa de ter por mim mesma descoberto tudo isto, sem a ajuda de ninguém. Me intrigou porém o porque de outros não terem também descoberto. Deus tinha ido embora. Porque não conseguiam ver isto? Isto ainda me intriga”.
(Tradução livre de Ricardo Leitner 02.06.2009)