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terça-feira, 29 de março de 2016

Glorious: Florence Forster Jenkins



Independente de suas (inquestionáveis) qualidades artísticas, temos que considerar Florence Forster Jenkins uma pessoa afortunada: uma que realizou seus sonhos na vida… e como!


Considerada nos seus “dias de glória” uma das piores cantoras que este mundo já presenciou, ela disse: “Some people say I cannot sing, but no one can say I did not sing!” (Algumas pessoas dizem que não posso cantar, mas ninguém pode dizer que não cantei!”).

Sua falta de ritmo, altura e tom (como imortalizadas em suas gravações) assim como sua terrível pronúncia (em qualquer língua) tornaram-se legendárias. Ridicularizada por todos, ela era objeto de gargalhadas durante seus “Concertos” porém esta mulher alegre e incansável, negou-se a deixar-se desiludir…


Sua vida foi analizada na peça “Glorious” (Erroneamente interpretada por Marília Pera em tons de “comédia”. Lembro.me de ter saído na metade do espetáculo), no filme frances inspirado em sua vida “Marguerite” e brevemente no cinema, com ninguém menos do que Meryl Streep dando vida a esta lutadora que tornou-se “culto” ainda durante sua vida: não podemos esquecer que “grandes” nomes da época como Noël Coward e Cole Porter assistiam seus recitais, normalmente feitos em hotéis como o Ritz para um publico seleto. Para evitar “jornalistas” e bisbilhoteiros Florence vendia pessoalmente as entradas, que eram disputadíssimas. Os artigos, que depois apareciam em jornais e revistas, eram escritos ou por ela mesma ou por amigos (Nota ironica da redação: Atenção para esta “auto-promoção”; já existente em épocas anteriores ao “Facebook” onde muitos parecem promover-se incansávelmente).

Não vou estender-me sobre dados biográficos da “diva do grito” (como também foi chamada) pois para isto a internet oferece muitas possibilidades mas não podemos deixar de acentuar um valor único que Florence teve. Ela até hoje é, indisputávelmente, a pior intérprete que Mozart, Strauss, Verdi & co. já tiveram em toda a história. Ela possuía uma forte segurança sobre seu “talento” e seu repertório era o que poderíamos chamar de dificílimo.



Gravou discos (nove árias ao total em 78rpm): seus amigos e seguidores tentaram convence-la de não gravá-los (pois achariam que ao “se ouvir” reconheceria sua total falta de talento) mas ela não deu nenhuma importancia a esses conselhos.

Acreditava piamente que suas gravações preservariam seu talento para futuras gerações, que seriam seu, por assim dizer, "legado" para o mundo das Artes.
E, aqui pergunto, estava errada?

Abaixo coloco um link de uma de suas preferidas árias: a da “Rainha da Noite” de “A flauta mágica” de Mozart (que deve se virar dentro do túmulo ouvindo-a… Sinto, um exemplo mal escolhido: não se sabe até hoje onde Mozart foi enterrado, já que foi tratado como um indigente): Ouvimos Florence até hoje! (E sabemos até onde está enterrada)



Aos 76 anos Florence “aceitou” apresentar-se para um público maior do que nos recitais do “Ritz” e estrelar um concerto no aclamado “Carnegie Hall” (só nos USA uma coisa assim é possível, não é verdade?). Como os ingressos se esgotaram em poucas horas, mais de duas mil pessoas tentaram fútilmente conseguir entradas na última hora…

Quem assistiu garante que foi uma apresentação inesquecível.
E interminável.
Entre uma ária e outra intervalos enormes eram necessários para Florence poder mudar seu elaboradíssimo figurino. Sua roupa com asas — ela a chamava de “Angel of inspiration” — tornou-se um clássico.
Conta-se que Tallulah Bankhead riu tanto durante a apresentação que teve que ser retirada do teatro
(Nota: Florence sempre disse que as risadas dadas durante suas apresentações eram dadas por pessoas que haviam sido pagas por “suas invejosas rivais”).



Um mês depois do concerto, Florence morreu. Há quem atribua a morte à depressão por, enfim, dar-se conta da reação do público em relação à sua “arte”.
É difícil de acreditar.
Em 32 anos de carreira, Florence, certamente, conheceu todo tipo de reação. Não seriam algumas gargalhadas mais escancaradas que a fariam desistir. Florence era uma estrela e sabia como tornar sua platéia feliz.

E ela realizou seus sonhos…

E brevemente no Cinema (mal posso esperar!):

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O começo do (meu) Ano-Novo em Viena...

Nada para mim tem um sabor tão „decisivo“ como um ano que começa… nele coloco minhas esperanças, desejos, vontades, fantasias, fé… faço „limpeza na casa“ (falando do plano emocional), tento reavaliar os bons e maus momentos do Ano que passou, como que fazendo o “balanço do estoque das prateleiras da minha alma"… checando qual mercadoria ainda está "boa" para levar para o próximo ano... então tomo decisões sobre tudo que intenciono fazer no próximo ano: seja mais exercício, comer mais frutas, andar mais de bicicleta ou ser mais atencioso com certas coisas, ter mais paciencia (tarefa a´rdua para mim... ), tomar mais vitaminas… inclusive prometo (mais uma vez) que a partir “deste” ano vou ser mais organizado com minhas papeladas (ihhh….. ) e por aí vai a lista…


Não sou um grande “fã” do Reveillón… Não gosto de sair de casa nesta Noite e “fico triste” quando tenho que aceitar um convite (um “daqueles” que a gente não tem como “recusar”).

Adoro “Festa” mas não com aquela coisa de fogos, música alta, muita bebida, alegria “forçada” à meia-Noite (esta alegria “forçada” é o pior dos elementos desta Noite! Já passei por cada uma… Certa vez, o Reveillón estava chatíssimo, todas as pessoas estavam fatigadas esperando a meia-noite… e então, como que guiados por um força sobrenatural, 10 minutos antes da passagem do Ano transformaram-se num robozinhos: rindo as gargalhadas, saltitando, cantando, acendendo fogos, gritando… Eu fiquei “pasmo”! Como se diz no Brasil - ou se dizia? - "Esta não é a minha praia!").

Eu prefiro ficar em casa e desfutar tranquilamente, em paz ao lado de pessoas queridas a passagem do ano...


Este ano estou tranquilo… ficaremos em casa, comeremos bem mas frugalmente (chega de comer depois do longo período de Natal!) e, provávelmente, logo depois de Meia-Noite nos recolheremos… O motivo é pura- e simplesmente o Concerto de Ano-Novo da Filarmonica de Viena no “Musikverein” na manhã do dia primeiro ♪ ♫ ♪

Ninguém me tira de casa há muitos anos no dia primeiro de janeiro. Amo este concerto!

Enquanto tomamos um café-da-manhã gostoso com panquequinhas, geléias, ovos etc. (mais comida!) assistimos a primeira parte do Concerto… com o passar das horas vou trazendo aos poucos tudo o que amo comer no primeiro dia do Ano (viram? Ainda mais comida… Ave!) e faço um brunch “pic-nic” delicioso: Salmão, pastinhas, caviar, suco de tomate com aipo, arenques, camarões…


e Champagne… Este Ano temos uma boas garrafas de Moët & Chandon que estão esperando para serem abertas no dia 31 e no dia primeiro…

O Concerto da Filarmonica, como já contei algumas vezes aqui, é um “Must” para se começar o Ano bem…♫ ♪ ♫

Um “Must” para quem entende a fundo (ou quer entender) a alma austríaca/ vienense…
Tenho no meu círculo de amigos realmente pouquíssimos que não o assistem!
É quase uma "heresia" deixar de assistir um espetáculo tão lindo assim...


Uma tradição espetacular que é televisionada para 73 países e tem mais de 45 milhões de pessoas de audiencia… Infelizmente a grande “Grobis” cancelou seu contrato há muito (Me lembro de, ainda criança, te-lo assistido muitas vezes): Quem acompanha as “Tertúlias” há tempo deve estar pensando: “Já li isso antes”.
É verdade.
Mas quem sabe… Não se dizia “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”? Pois é… Eu acredito que se fosse televisionado também no Brasil teria muito público...

Este Ano o magnífico Maestro é o russo Mariss Janson, que muito admiro… e pela primeira vez na história deste tradicional evento em Viena ouviremos duas peças de Tchaikowsky

O Ballet da Ópera (Wiener Staatsballet) está sempre belamente representado e, além de outras peças, dança todo Ano „An der schönen blauen Donau“ (O Danúbio azul) de Johann Strauss.


No mais são sempre apresentados Ballets com composições típicamente austríacas em locações ainda mais típicamente austríacas – como o Schloss Laudon (que, incrívelmente, ainda é uma propriedade privada!) em 2011.


Não esquecam que o fato de ser televisionadao em tantos países faz do Concerto de Ano-Novo um evento importantíssimo em termos de marketing para o turismo na Austria).

Este Ano (enquanto escrevo esta „Tertúlia“ ainda estamos em 2011) tivemos um número musicalmente interessante (O ballet em si é sempre aquela coisa bem “Opereta”, bem “brilhante”, bem vienense, bem tradicional… Nada de extremamente especial): “Mein Lebenslauf ist Lieb und Lust” (O meu viver é amor e alegria/prazer) Valsa Op. 263 de Josef Strauss (Sim, Josef… Johann – o „rei“ da Valsa era seu irmão).


Nele aparece como solista um dos meus bailarinos prediletos da Ópera (mais sobre ele numa próxima „Tertúlia“), o moldavo Mihail Sosnovschi (ou Mischa Sosnovski, como ele mesmo se chama no Facebook).

Um grande talento, uma grande energia que enriquece nossos palcos!

Voces logo o reconhecerão como o solista que está lendo, estudando um livro… com uma longa, solta camisa branca! Um lindo bailarino - que aqui é mais um "support" à bailarina com quem baila do que um solista... mas ele "pode" muito mais do que isso (apesar de eu ter que dizer que ser um bom "partner" é uma tarefa extremamente difícil... e ele é excelente!).

Mais sobre Mischa, como já escrevi, numa futura "Tertúlia"!


Desfrutem tranquilamente destes momentos… e, queridos, do fundo do coração:

UM FELIZ ANO NOVO PARA TODOS! QUE TODOS NOSSOS SONHOS SE REALIZEM!!!!!


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Thaïs: Livro, Ópera e... Thaïs-Pas de Deux... Ashton...

“Thaïs-Pas de Deux” é um trabalho maravilhosamente rico, denso… também em sua atmosfera exótica… Pensando nos trabalhos em que foi inspirado, gostaria de tentar aqui uma análise mais próxima, já que, apesar de um pouco esquecido e talvez até um pouco “ empoeirado”, é uma maravilha em termos coreográficos, históricos e mais do que digno de uma curta pesquisa.


A Ópera “Thaïs” (1894) de Massenet foi baseada no livro homonimo de Anatole France. Apesar de estar em terceiro lugar como obra mais encenada de Massenet (depois de “Manon” e «Werther») é para muitos desconhecida. Em sua estréia mundial, na Ópera Garnier, chamou mais a atenção do público e crítica pelo simples fato de sua intérprete principal, o soprano californiano Sybil Sanderson, estar extremamente “levemente” vestido, principalmente ao redor dos seios – o que chocou as platéias da época… Só em 1903, no Scala, foi pela primeira vez realmente aceita e de certa forma admirada pela sua genial musicalidade. Sua estréia no Novo Mundo teve lugar em 1907 em N.Y. com o soprano Mary Garden.

“Thaïs” não é realmente parte do repertório “standard” da maioria das casas de Ópera mundo afora. Não é «naturamente conhecida» e "popular" como uma “La Bohéme”, uma “Butterfly”, uma “La Traviata”. Talvez pela sua dificuldade técina (poucas cantoras “atuais” atreveram-se a cantar a parte de Thaïs… Leontyne Price -querida Leontyne!-sucedeu-se maravilhosamente e recentemente em 2008


a maravilhosamente talentosa (e linda) Renée Flemming - foto acima- recebeu belíssimas críticas) mas também talvez pelo seu tema e colocação histórica no tempo, delatando a «suposta» verdade, a «forma oportunista da afirmação» do Cristianismo (como interpretado na época e, talvez, até hoje em muitos países do terceiro mundo), não da religião em si... Um difícil papel… essa „dualidade” entre o passado e o presente, entre o ser profano (e até entre o "crer") e ser (supostamente) religioso…

O enredo de “Thaïs” tem seu lugar no Egito, no quarto século depois de Cristo, durante a ocupação bizantina. Em Alexandria um monge chamado Athanaël tenta, a qualquer preço, converter a linda cortesã (e profanamente devota de Venus) Thaïs ao Cristianismo. Isso só para descobrir que sua obsessão por ela está baseada no simples e primitivo desejo carnal. O “clímax” da Ópera está para mim na cena em que Athanaël reconhece para si mesmo a razão de sua louca obsessão enquanto, ao mesmo tempo, a pureza angelical de coração desta ex-cortesã nos é revelada…

“Thaïs”
é uma obra muitas vezes descrita como contendo um certo “eroticismo religioso”. Acho que o “ápice” desta afirmaão está no Entr’acte para Orquestra e solo de violino, o famoso “Méditation” (entre as cenas do segundo ato). Logo falaremos mais sobre ele – pois ele é a real razão deste escrito…

(acima: Viviana Durante e Stuart Cassidy)

Momentos, como no início do segundo ato, nos quais Thaïs expressa uma profunda disatisfação com sua vida, inútil e vazia, e com seu futuro (que acabará qundo perder sua beleza), são de uma eloquencia enlouquecedora e fascinante. Seguem momentos inolvidáveis como quando, por exemplo, Thaïs decide acompanhar o sacerdorte para o deserto e ele lhe pede que destrua todos seus bens queimando seu palácio, como para liberar-se completamente do seu passado, dos seus “pecados”. Ela concorda mas lhe pede um único favor: poder levar uma estátua de “Eros”, Deus do Amor, explicando-lhe que “pecou mais pelo amor do que por causa dele » (uma sutíl diferença, n’est-ce pas?). Ele, radicalmente, não aceita seu pedido e os dois mal tem o tempo necessário para escapar já que estão sendo apedrejados pelo povo “pagão” (que nao quer que ele leve-a ao deserto).
Eles escapam.

Exaustos chegam a um oásis. Os pés de Thaïs sangram, ela está quase morrendo (lembram de como «Manon Lescaut» morre nos braços de Des-Grieux nos desertos de New Orleans ?). Mesmo assim eles se referem a momentos idílicos e platonicos de companheirismo… E assim chegam ao Monastério onde Thaïs será enclausurada para o resto de sua vida…

Um momento, que quase esqueci, e que é de extrema importancia para o entendimento desta obra, é também inesquecível: No primeiro ato Athanaël fala a Thaïs de seu amor. Espiritual. Para a eternidade. Ela discorda e fala do lado carnal de seus desejos… Depois do “Entr’acte” (Méditation) ELA muda de idéia… e para quem quizer saber : o final do terceiro ato nos revela um Athanaël chegando à cama-de-morte de Thaïs. Mudado, arrependido. Ele lhe conta que tudo que lhe ensinou (lembram da viagem pelo deserto?) foi uma mentira. Que na verdade é a vida entre dois seres humanos, o aor carnal, o que conta…

Ela só lhe descreve o que está vendo naquele momento: como os céus estão abrindo suas portas para recebe-la e como os anjos estão voando em sua direção para escortá-la ao paraíso…


para então morrer…

«Thaïs-Pas de Deux» é, para mim, um resumée de toda uma mega de emoções que tem lugar nos dois primeiros atos da Ópera de Massenet e nos primeiros capítulos do livro de De France.

(acima: Nino Gogua e Lasha Kozahshvili)

Sir Frederick Ashton, talvez o maior coreógrafo do século XX, usou brilhantemente “Méditation” ( o já mencionado « Entr’acte ») para o seu «Thaïs-Pas de Deux». Muitos falam que ele reflete de certa forma a imersão de Ashton no “entertaimment” popular de seus jovens anos… Nascido em 1904, Ashton cresceu numa época em que o Ballet também fazia parte das Pantomimas (típicamente inglesas… como p.e na época do Natal “Cinderella”) e programas de Music-Hall. Principalmente os últimos atraíam platéia de diferentes camadas sociais e poder monetário – e por esse motivo tinham que ter temas “da atualidade” (de então) para os espetáculos. Incrívelmente, tanto na infancia/juventude de Ashton até a minha própria infancia/juventude (na década de 60) todos éramos levados por “mundos de sonhos” e estórias do Oriente Médio. Pensem p.e. em Ali Baba… ou na quantidade de véus que caíram ao chão, em algum harém, para revelar lindas e misteriosas mulheres que lá estavam emprisionadas… Idéia, imagens, protótipos do Oriente (médio) povoavam nossas imaginações… e os véus, definitivamente, exerciam um grande papel… principalmente misterioso e sensual…


«Thaïs-Pas de Deux» teve sua premiére mundial em Londres, em março de 1971, com (os lindos) Antoinette Sibley e Anthony Dowell. Inevitávelmente esse Pas de Deux reflete a época e o lugar em que foi criado (por isso a «sugestão» sobre a “imersão de Ashton no Entertaimment popular dos seus jovens anos») por ter eternizado o tempo em que Londres e uma grande parte das capitais européias estavam presenciando uma espécie de «Revival» da) cultura oriental (média), da qual «Thaïs» - seja livro, Ópera ou Pas de Deux – é um «Pastiche» (Detalhe: o Pas de Deux sublinhou e perpetuou o status de «Super Stars» de Sibley e Dowell como «Casal de Sonho» do Royal Ballet das décadas de 60 e 70… já que o Ballet foi concebido por Ashton para eles - foto acima).

Bem… 2011… na nossa atualidade – e não sei se por motivos só políticos, ou éticos, ou influenciados pelo oportunismo (nao sei mesmo e não quero opinar, já que é um tema muito sensível e que não tem realmente lugar nas «Tertúlias») o papel da cultutal oriental (média) está sendo, ou já foi, completamente esquecido. Pensem nos «véus» das estorinhas que lemos como crianças… eram misteriosos e eróticos. Hoje simbolizam, pelo menos nas nossas mentes “ocidentais” opressão sobre o sexo feminino, Fanatismo religioso, Radicalismo… Em França estão proibidos… como nos distanciamos dos valores mais «naïve» e descomplicados de nossa vida de « jovens». Como a amiga Eliana Caminada escreveu comentando minha postagem anterior : «é tão bom relembrar que já fomos ingênuos”

(acima: Lucia Lacarra e Marlon Dino)

Mas esta postagem está transformando.se numa longa estória e esta não é minha intenção… Pensemos só em como Ashton conseguiu resumir uma tendencia da “Swinging London” com música dos Beatles, leituras de Khalil Gibram, do início dos anos 70, com sua curiosidade sobre e cultura do Oriente Médio, num momento de uma beleza patética como aqui em «Thaïs-Pas de Deux».

Fato é que «Thaïs-Pas de Deux», apesar de Thaïs ter sinalizado sua vontade de «cooperar» ao retirar o véu, acaba no momento em que os dois se beijam, como se ela – livre de desejo – não «respondesse» a atitudes tão «humanas, mortais»…

Divirtam-se com Sibley e Dowell (com o "bonus" de testemunhar o magnífico Ashton os ensaiando)



e (numa versão mais atual, na qual me falta infelizmente muito da "mágica" de Sibley e Dowell) Leanne Benjamin e Thiago Soares. Soares não entendeu aqui o que está fazendo. Acho que Roland Petit também coreografou "Médiation" mas não estou muito certo... Senão me engano assisti Dominique Khalfouni uma vez bailando-o... Eliana, voce sabe... conte-nos!



e a divina Anne-Sophie Mutter!

domingo, 23 de outubro de 2011

Ragtime: um perfeito retrato do preconceito, do medo e da ignorancia encenado a alto nível....

Quem tem um Blog normalmente compartilha com seus seguidores e amigos aquilo que gosta (ou não), suas coisas preferidas (ou não), suas idéias, suas críticas, suas novidades, suas férias, seu "diário" e, as vezes, também seus princípios… Como tenho, nos últimos tempos, compartilhado muito o que gosto, gostaria hoje de dividir com voces um princípio… um pensamento...


Quando escrevi as palavras preconceito, medo, ignorancia estava consciente do seu efeito, do seu significado… principalmente ignorancia.
Para que voces compreendam bem o meu “pointe” hoje, é extremamente necessário explicar como “vejo e sinto” esta palavra…

Temos a tendencia no nosso portugues de transformar o sentido original de muitas palavras… Exemplos? “Decadencia”, "Barato", “Polaco” (odeio essa palavra) só para citar alguns…

Quando no Brasil falamos de um “ignorante”, temos a tendencia de pensar logo num pobrezinho sem sapatos do interior, num pobre favelado ou num pobre que vem dos subúrbios todo dia para trabalhar na casa de alguém na Zona Sul… Generalizamos e colocamos uma imagem – para nós conhecida – dentro de nossas cabeças. Pois esta é a que conhecemos. Pensamos sómente em pessoas pertencentes à uma certa classe social, e elas são, para nós, pessoas sem instrução…

Quando eu me refiro à palavra “ignorancia” penso em sua origem… “ignorar” no “Aurélio”: “não ter conhecimento, desconhecer” e “ignorante”: “Diz-se de pessoa que ignora, que não tem conhecimento de determinada coisa”.

Há nisso uma diferença sutil porém essencial...

Tudo o que se refere à “instrução” aparece bem depois e não faz parte da “base” essencial desta palavra. Por isto para mim pessoas “nada humildes” poder ser consideradas „ignorantes“. E é este o sentido com o qual a palavra “Ignorancia” é usada no alemão. Não é só ignorante aquele que não sabe qual é capital do Holanda mas também aquele que ignora completamente seres humanos, despreza outras culturas… e , as vezes, nem está consciente disso!


Pensemos no musical “Ragtime”: baseado na famosíssima Novela de 1975 de Terrence McNally (alguém leu esse livro? Uma maravilha) ele conta a estória de tres grupos étnicos nos U.S.A. Uma única cena desta maravilhosa obra (que na época não foi um sucesso comercial) descreve perfeitamente a ignorancia à qual venho aqui me referindo. Nos tres grupos ! Este “desconhecer” outras culturas, formas de ser, idiomas, cores de pele, religiões, hábitos… Um processo não só muito conhecido nas nossas Américas mas muito, muito tendencioso aqui na Europa… Infelizmente!


Quando vejo o grupo dos “americanos” com suas roupas brancas, penso em “Meet me in St.Louis”, filme da MGM e de Minelli que também nos vendeu esta imagem “branca” da America, já que neste St.Louis não aparece durante toda a extensão do filme uma única pessoa representante de um outro grupo étnico… Já repararam como isso é incrívelmente comum em filmes da velha MGM?
Ignorancias da America e de Mr. Louis B. Mayer! Ignoravam simplesmente... e completamente!


Uma lembrança: lembro quando dei de presente este DVD a um conhecido meu na Alemanha. Ele disse: “Quase dormi, que chatura e tirei no meio…”. Ou seja ele ignorou uma coisa que muito lhe queria mostrar. Ignorou. Mas aí está a “seiva” do que quero dizer… A real ignorancia. E tanto ele ignora o que outros pensam, fazem profissionalmente e sentem que seu trabalho tem-se transformado numa sucessão de fracassos embaraçosos (mesmo que na província, onde o nível teatral é bem mais baixo). Ignorar é não aprender e não se desenvolver…

Assistam tranquilamente esta excepcional cena, que vocalmente chega ao limite do “musical”…
O coro é de um precisão tão perfeita, de uma qualidade tão maravilhosa que quase alcança o "território" que pertence à Ópera nas últimas barras.
Aliás, o “Coro” não. Os tres Coros…


Para quem curte e conhece a Broadway e seus "performers", é muito interessante ver-se a talentosíssima Audra McDonald (de vestido vermelho), começando sua carreira, nesse espetáculo!


Uma ex-bailarina e ex-conhecida minha disse um dia: “O pior ignorante é aquele que se acha sábio“. E ela, com sua conhecida precisão no expressar-se disse tudo! Falou uma grande verdade!

Eu gostaria porém de adicionar um outro pensamento à minha forma de “ver” e”entender” o sentido da palavra ignorancia: “Um ignorante generaliza” (refiro-me à idéias pré-concebidas sobre raças, nacionalidades, religiões!).
É triste!

Ragtime, “denuncia” preconceitos, medos e, acima de tudo, a ignorancia!
Viva Ragtime, impossível de ser ignorado!
Grande trabalho – e no nosso mundo atual, de suma importancia!

Era isso o que quiz compartilhar hoje com voces…

quinta-feira, 23 de junho de 2011

REMEMBERING: Leontyne Price

Viena, 18.6.2011

Ontem acordei com o que chamo de “My Leontyne Price-Mood”. Entre meus vários CDs busquei um (capa abaixo) com «A» gravação de «Chi il bel Sogno de Doretta» de «La Rondine» (Puccini). Uma de suas interpretações que mais prezo, mais admiro… E fiquei pensando, refletindo sobre a carreira desta excepcional artista…


Que longo caminho percorreu esta menina de Laurel, Mississipi…


Filha de uma parteira e de um marcineiro que a encheram de amor (esperaram 13 anos pela “chegada” dessa criança em 1927), já na tenra infancia Leontyne demonstrou seu talento em relação à música. Com tres anos de idade seus pais lhe deram um piano de brinquedo – para logo colocá-la em aulas sérias com uma professora local. O “gramofone”da família foi vendido para interar o “sinal” de um piano verdadeiro para a menina Leontyne. A patroa de uma tia sua (que era lavadeira), Mrs. Chisholm, figura de influencia local, incentivou não só seus estudos de piano como também sua extraordinária voz.
O resto é história.

Com a ajuda financeira dos Chisholm e do baixo Paul Robeson (que deu um concerto beneficente para ela) ela pode aceitar uma bolsa de estudos na Julliard – pois seu “alvo” era tornar-se uma professora…
Uma revival de “Porgy and Bess” de Gershwin em 1953 mudaria sua vida. Neste mesmo ano o “Met” convidou-a para cantar com o Ensemble no Ritz Theater da Broadway para uma Gala de fins caritativos. Ela foi então a primeira afro-americana a cantar “com” o Met (apesar de não ter sido a primeira a cantar “no” Met).

Mais anos de muito estudo, definição de repertório, aprendizado em recitais, tournées pelos U.S.A., India e Australia seguiram… Até que em setembro de 1957 ela debutou no palco da Ópera (“Dialogues de Carmélites” de Poulenc). Antes ela já tinha sido convidada por Herbert von Karajan para debutar no Scala (sob sua regencia) em “Salomé”, ela porém declinou. Não sei realmente porque…

Em 1958 mais uma vez von Karajan convidou-a para «Aida» na Staatsoper em Viena – palco que seria muito importante para todo o resto de sua carreira, palco no qual foi declarada “Prima Donna assoluta”. Leontyne Price virou a cabeça do público vienense, revolucionou o mundo da Ópera aqui e tornou-se o ídolo dos estudantes que a carregavam desde a entrada dos artistas da Staatsoper até o Hotel Sacher, onde se hospedava.


No ano seguinte ela retornaria à Viena não só para repetir seu sucesso como “Aida” mas também para debutar como Pamina em “A flauta mágica” de Mozart. Sua pura voz e um “entendimento” mais do que simplesmente “gramático” do idioma alemão deram-lhe a facilidade de entender a delicadeza e projetar a leveza de um Mozart, assim como anos mais tarde abririam-lhe as portas para a complexidade das perfeitas, poéticas frases musicais de um Richard Strauss

Depois de Viena seguiram-se “debuts” no Covent Garden, Arena di Verona e no “La Scala”.

Rudolf Bing, o temido diretor do Met, convidou-a para uma única performance de “Aida” no Met em 1958. Ela não aceitou, como lhe foi recomendado pelo seu “manager”: “Leontyne Price está destinada a ser uma grande artista. Quando ela debutar no Met, será como uma grande Dama, não como uma escrava”, disse ele.


Um ano mais tarde Bing a ouviu uma vez mais em Verona em “Il Trovatore” e a convidou para o Met – desta vez para vários papéis. Ela aceitou.
Ela debutou junto a Corelli em “Trovatore” (num, por ssim dizer “debut duplo”) e o público a ovacionou por 42 minutos! Um “record” até hoje na história dessa casa.


Entre os vários papéis que lhe foram oferecidos figurava também Cio-Cio-San de “Butterfly” que ao contrário da “lenda” foi interpretada SEM maquiagem branca .


Sua última “Ópera” foi “Aida” em 3 de janeiro de 1985. Uma carreira de 32 anos que ainda continuou em concertos e recitais em Hamburgo, Viena, Paris, Lucerna e no Festival de Salzburgo por mais 12 anos. Seu poder vocal foi fenomenal. Ela sempre alcançou os “High Cs” com muita facilidade – ela mesmo disse que, debaixo do chuveiro, alcançava regularmente também um “High F”. Fenomenal.

Inspiração de grandes artistas como Kiri Te Kanawa, admirada por «colegas de profissão» como Pavarotti (“Só poucas cantoras conseguem encher um “Hall” para um concerto ou um recital: Joan Sutherland, Leontyne Price e Marilyn Horne”), Placido Domingo (“O mais lindo Soprano de Verdi que até hoje ouvi”) e até Callas (“Eu ouço muito amor em sua voz”).


Leontyne recebeu muitas homenagens em sua bela carreira – a última em 2008 “Honoree at National Endowment for the Arts Opera Honors”.
Ela vive em Greenwich Village.

Gostaria de deixar aqui dois momentos, bem diferentes, de sua fase concertante. A ária de «La Rondine» ao qual me referi quando comecei a escrever esta postagem… o que ouvi ontem…
Que momento supremo!!!!



…e, já celebrando o (nosso) verão que entrará dia 21... “Summertime” de Gershwin. "Carro-chefe" que ela nunca esqueceu apesar de que técnicamente não se compara ao canto lírico que a tornou famosa em todo o mundo. Eu adoro...
Eterna Leontyne Price!!!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Raina Kabaivanska - Tosca



Pesquisando demais a vida e o trabalho deste maravilhoso soprano lírico nascido em 1934 na Bulgaria. Que talento... que sensibilidade...

Vissi d'arte...



Obrigado Maurette, por have-la me "apresentado"!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Prima Donna, Paris & um bom cliché...

Se sou muito sincero, tenho que admitir que sou “bem chegado” a um cliché,



Adoros mesas de Natal cheias de opulencia, considero o Egito o cliché de um país para uma clássica viagem cultural assim como Paris em abril perfeita (foi o que fiz no meu último aniversário !), fazer compras pré-Natalinas em Londres no Harrods, ir a Portugal e comer bacalhau, assistir «O quebra-nozes» na época do Natal…

Da mesma forma adoro “personas” como Cauby e Angela Maria, o cliché dos “cantores do povo”, malandro de sapatos brancos, cartão postal com vista do Pão-de-Açúcar, prato de borboleta, a janela de minha cozinha no inverno com a vista (cartão postal) de árvores nevadas, “Orfeu Negro” com as mulheres levando latas d’água na cabeça para a favela, Ovo de Páscoa… Clichés…

No mundo das artes adoro o eterno cliché das divas:



Callas, Tebaldi, Schwarzkopf, Pavlova, Duncan, Garbo, Anita Ekberg como diva suéca em "La Dolce Vita",



Lina Lamont
em «Singin’ in the Rain» e por aí vai a lista…

Talvez seja este o motivo de tanto gostar desta cena abaixo… Não gosto do trabalho de Andrew Lloyd Weber (os seus clichés musicais são demais, até para mim!), nem de “O Fantasma da Ópera” no palco e no cinema MAS amo a qualidade visual desta cena e de tudo que ela exalta.



Carlota. Prima-Donna. Claro, um dos maiores clichés. Desde o Champagne bebido nos sapatos até as jóias e toda a bajulação feita ao redor dela (Incluíndo o cliché do mundo da Ópera em França).
P.S. Adoro a entrada das bailarinas no final... é a única parte na qual a música realmente me agrada!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Raina Kabaivanska - Tosca

Pesquisando demais a vida e o trabalho deste maravilhoso soprano lírico nascido na Bulgaria em 1934. Que talento... que sensibilidade...