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quinta-feira, 5 de março de 2015

Roth libertado, de Claudia Roth Pierpont



Lendo esse livro fiz uma reavaliação de meu relacionamento de leitor com Philip Roth. Demorei para ler Roth. Adiei o máximo possível. Não sentia o mínimo interesse por ele. Umbiguista demais, americano demais no pior sentido que eu via naquele tempo. Só cheguei até ele porque então foi inevitável, quando da necessidade de seguir a trilha lançada pelos autores modernos, Saul Bellow, Martin Amis, etc. O primeiro que li foi Pastoral americana. Eu me lancei neste livro com todo preconceito possível, e o achei passável. Percebi que toda a justificativa do autor estava unicamente na potência de sua prosa, e posso me vangloriar que eu me encontrava em um grau de astúcia de leitor suficiente para já intuir os pecados do escritor. Já intuí a grande vontade de Roth de ter um tema legítimo e nunca realmente conseguir. Intuí as emulações sofisticadas mas falsas que ele fazia dos grandes romancistas da Europa Oriental nas tantas cenas estridentes de Pastoral americana. Percebi a importância pretensiosa que ele se dá, montando um livro propositalmente volumoso para angariar com isso mais distinção, afinal os grandes romances russos são caudalosos. Para juntar página a página e ampliar a equação, ele escreve nesse romance uma série de passagens maçantes e desnecessárias, chega a implodir a paciência do leitor ao descrever as etapas de produção de uma indústria de luvas de couro. Saí com a impressão de que tratava-se de um livro distinto, sério, com uma superfície geral de honestidade, mas que eu jamais iria reler. O li em uma época em que eu ainda não tinha salário suficiente para atender minha compulsão pela leitura, e Pastoral foi um dos que entraram em minha lista de livros que podiam ser trocados por outro em sebos. Me desfiz dele rapidamente.

Depois li o Complexo de Portnoy, morrendo de rir em uma viagem de ônibus. Me identifiquei com Roth, e esse livro cortou grande parte de minha indisposição com ele. Ainda não era um grande livro, ainda era artificial e manipulado e não honesto o bastante, frívolo, mas o seu humor era arrebatador. Com certeza Roth não seria lembrado se tivesse parado nele. Depois li as sequências de Pastoral americana. As primeiras páginas de Casei com um comunista estão entre o que há de melhor na literatura norte-americana, chega a ser tão boas quanto as primeiras páginas de O legado de Humboldt. Mas a velha estridência esquisita continuava lá, as mesmas provas circunstanciais do desespero de Roth em trazer para si o Evento que os escritores da Europa Oriental tinham de sobra e ele era desprovido por completo em seu embotamento de cidadão do mais hedonista país do planeta. Há uma cena nesse romance que copia quase que descaradamente O idiota. Só fui encontrar um livro de Roth que merecia a mesma disposição de releitura que eu via em todos os livros de Saul Bellow com A marca humana. Esse eu li duas vezes, e é o primeiro grande romance autêntico que eu li de Roth. Tem uma beleza, uma intensidade, um caráter esotérico, que até então não havia encontrado em seus outros títulos. E como é magistralmente escrito! Depois li O avesso da vida, e percebi que nesse caminho oposto de ter encontrado um Roth mais maduro e menos umbiguista tornava qualquer investida em seu passado anacrônico uma chatice. O avesso da vida talvez seja a pior coisa que li dele. Vaidoso, vazio, tolo, o que comprovava que não bastava para um escritor saber escrever como ninguém, o mais importante é ele ter uma alma intensa, uma visão superiormente desapegada, um idealismo profundo. Roth era o oposto de Dostoiévski, o que aumentava ainda mais minha admiração pelo pior estilista do mundo ter conseguido escrever quatro romances que botavam as bobagens do grande esteta no chinelo.

Aí então, finalmente, eu pude ler O teatro de Sabbath. Esse sim ampara com glória a perseverança de Roth. É um dos maiores romances do século XX, e uma obra que permanecerá inalcançável por umas boas décadas. A aproximação mais eficiente de Roth aos amados escritores da europeus. Esse eu li três vezes, e uma quarta vez em seu idioma original. Magnífico!

Depois eu tive a felicidade de ler todos os livros de sua fase tardia, todos também magníficos, notavelmente Nêmesis, sua última obra. Ah! Eu li Operação Shylock, que é brilhante, pynchoniano. Li o descartável Conspiração contra a América. E uma série de outros.

Esse prazeroso livro, que mistura biografia com intimidades sobre a escrita do autor, mostra, em sua primeira metade, o quanto Philip Roth se beneficiou com o mainstream do ambiente literário dos EUA. O que a autora nos conta é o que qualquer leitor de Roth sabe desde que espichou o pescoço para o início de sua carreira: por bem pouco Roth não desapareceu como escritor. Afora um primeiro livro de contos peculiar, cuja qualidade não seria suficiente para compor a relevância de seu autor, e um romance psicológico-masturbatório bombástico, todos os esforços de Roth até além de seus quarenta anos e próximo dos cinquenta geraram fracassos de público e crítica à semelhança de Richard Tull, o personagem do romance A informação, de Martin Amis, que escrevia calhamaços que o quanto tinham de pretensiosos tinham de bocejantes. A diferença entre Roth e Tull parece ter sido a sorte do primeiro ter nascido no mercado editorial mais mercurial do planeta, e numa época em que o fetiche das liberdades sexuais e políticas estava à toda_ e, também, o fato de Roth ter sido sempre um batalhador incansável e compulsivo da escrita.

Claudia Roth Pierpont (que já no começo anuncia não ter qualquer grau de parentesco com o escritor) escreveu um livro que é um prato cheio para todos os leitores de Roth, para todos que gostam de segredos de alcova e de escrivaninha de escritores, e para todos que gostam do ambiente literário dos Estados Unidos. Ela foi muito bem sucedida em contrabalançar a biografia ligeira, sem compromissos cronológicos exaustivos, com o ensaio crítico. A maior parte das informações que coloca no livro vem da série de conversas particulares que teve com Philip Roth, sempre descrito por ela como simpático, engraçadíssimo e compreensivo. Pierpont diz que o livro não foi lido antes por Roth (o livro foi lançado nos EUA ano passado). Ela se diz uma apaixonada pela escrita de Roth, mas isso não impede que seja ácida e verdadeira nas análises que faz sobre cada um dos livros do romancista.