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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq

 



A leitura desse fenômeno de vendas, chamado Michel Houellebecq, suscita muitas cogitações sobre o que vem a ser carisma na literatura contemporânea. Houellebecq é retorcido com certa insistência, pelos seus leitores bem intencionados, para caber no molde de um Jonathan Swift e de um Albert Camus, e mesmo em suas primeiras obras ele tendo demonstrado não ter nenhum propósito de se equivaler a esses modelos, já em seus romances mais recentes vem reagindo passivamente a essa necessidade de entendimento, talvez de forma inconsciente. Em seu romance Plataforma, quando a temática das novas investiduras da dominação global através do turismo sexual dos antigos dominadores nas ex-colônias se junta à repercussão de um polêmica criada e exagerada pelos jornais, o carisma com muitas lacunas do autor sofre uma espécie de eufemização na tentativa de ver sarcasmo sofisticado no que aparentemente é apenas um niilismo grosseiro e uma astuta adequação ao que o público ávido por comprar livros requer. Tudo não passa de uma estratégia mercantil: o mercado encontra um escritor que polemiza dentro do gosto do freguês, e a mídia se apressa a potencializar o escândalo de uma elegante má reputação também ela com olhos raposinos nos lucros. É o par com sintonia perfeita para alimentar a fama e a glória para ambos os lados_ quantos jornalistas e formadores de opinião não passaram a se beneficiar largamente com documentários, reportagens e livros sobre Houellebecq?_: Houellebecq escreve Plataforma, um romance que só com muita credulidade poderia matizar delicadezas pontuais da política moderna como o turismo sexual e o islamismo, e a mídia ecoa com uma sensibilidade simuladamente ultrajada que realmente o autor brutaliza tanto o turismo sexual quanto o islamismo. Talvez o que satisfaz em primeiro plano o leitor nem seja a controversia, mas os mobiliários de cena os quais Houellebecq é pródigo em oferecer_ como paisagens, o tédio dos aeroportos e os apartamentos aquecidos de Paris_, mas a premissa sustentada pela propaganda feita para que as sublimidades de sua escrita passe a dar a impressão ao leitor de que ele está ganhando algo mais profundo do que um simples hedonismo de viagem: há ali uma sarcasmo político, um humanismo às avessas, uma fina experiência filosófica. Quando Houellebecq escreve todo um romance sobre turismo sexual, que qualquer um levemente bem informado sabe ser uma característica de todos os países, algo notório e incapaz de provocar surpresas, o imaginário criado como áurea à sua mensagem secreta é que quando ele aparenta defender a exploração de meninas em países subdesenvolvidos ele está, na verdade, emulando Swift quando este satiriza que a solução para conter a desigualdade social da Irlanda é comer os filhos dos irlandeses pobres. E no seguimento dessa colaboração entre escritor e mídia publicitária, Houellebecq encerra Plataforma com um massacre provocado por islamitas, o que dá à obra uma segunda vertente de incorreção. Se o leitor tiver ânimo para uma segunda leitura de Plataforma, verá que sua primeira impressão é a certa, de que tal romance tem 400 páginas dedicadas a descrições sexuais de uma insensibilização fisiológica (com uma repetição da frase, que é uma assinatura do autor em todos os seus livros: "ejaculei violentamente"), e uma longa e morosa catalogação sobre a burocracia de como funciona uma agencia de turismo internacional. Não que Houellebecq seja mal escritor, mas a questão é que ele parece ter perdido a mão, parece que seu excepcional talento demonstrado nesta que é sua única grande obra, Partículas elementares, se limita agora apenas a um bom cenógrafo. 

Uma recente pesquisa apontou que as crianças mais bem educadas do mundo são as francesas. Elas não fazem bagunça em aviões, elas não gritam, elas não pulam, elas não atravessam os assuntos dos adultos, elas não dão birra: uma criança francesa, pelo que enalteceu as revistas que ensinam as etiquetas do bom comportamento para famílias abastadas, para todos os efeitos do bem público, simplesmente não existe. Elas estão lá como composição do ambiente, mas são esvaziadas desde muito pequenas de qualquer potencial de perturbação. O segredo para se obter uma criança destas, reproduz por nossa terras virtuais o site da revista Veja, é porque os franceses não as tratam como crianças, os franceses deixam bem claro que as vidas dos pais estão desvinculadas das vidas de seus filhos, no tocante a tudo que esteja externo à manutenção financeira de seus estudos, alimentação e saúde. O carinho é algo protocolar, biológico, como deve ser entre bons conviventes de idades diametralmente opostas e que só por um acaso envolve detalhes escatológicos triviais como a gravidez e amamentação. Eu sempre achei que a excepcional assepsia da educação parental dos franceses determinou toda a literatura francesa. Determinou que seja algo impossível para a literatura francesa gerar um escritor como Kafka, por exemplo; e determinou que a atmosfera de abandono cósmico pretendido por Beckett para seus romances tenha levado Beckett a optar escrevê-los em francês. Nenhum escritor francês jamais teria a capacidade idiossincrática de centrar a figura do pai em sua obra, como fez Kafka, nem nas complexas identificações deístas do pai como em O processo e O castelo, nem mesmo no mais pungente debate com a tirania caseira do pai em Carta ao pai. Para um escritor francês, a figura do pai é meramente um assombro muito bem estancado em eras passadas a ponto de se tornar um reminiscente sem nenhum apelo filosófico em seus genes; o pai na literatura francesa tem um peso bovino, de animal associado a ilesas características reprodutoras, de uma figura que aparece nas fotos com uma seca intranscendência que é visto pelo seu filho com a falta de qualquer necessidade de esgotamento racional; o pai poupou o filho de especulações esotéricas, de nostalgias emocionalmente pouco econômicas e desgastantes; o pai oferece ao filho o dever de devolver no final da vida do pai a mesma polidez de ausência de toques desnecessários que este outorgou ao filho, na infância. Mesmo Camus, o menos francês dos escritores em francês, fracassou diante o abismo de tentar escrever uma elegia mais ocidental a seu pai, em O primeiro homem, quando todas as suas pretendidas observações sobre o túmulo do pai se transformam no mesmo ruído proximal e sem fôlego, expirado com pressa. E por isso o mais próximo do afeto paternal que se encontra na expressão francesa seja o da eutanásia do pai: seja no filme As invasões bárbaras, ou no romance de Houellebecq, O mapa e o território. Mas algo tão reativo para a arte como a figura do pai não é extirpado sem sérias consequências estéticas e significantes: a literatura francesa moderna é incapaz de se beneficiar da riqueza do tema da paternidade (temos aqui a mais gritante das exceções à regra na figura de Proust, principalmente na tocante e belíssima relação de paternidade entre o sr. Vinteuil e sua filha, que se acentua e perde todos os atenuantes regidos na educação da filha somente após a morte do pai, e na relação peculiar e terna do narrador com sua mãe).

Isso é amplamente visto nos romances de Houellebecq. Para nós, leitores sul-americanos, a assepsia da importância do pai é ainda mais implacável, nós que sempre fomos muito mau criados em nossos mimos de compensações supersticiosas e nossas balanças de afeto católicas, o que para o leitor francês de Houellebcq não passa de pedantismo circunstancial. Essa ausência de esoterismo afeta muito a qualidade da mais ambiciosa obra de Houellebecq, O mapa e o território. Esse romance é a prova de força do que sobra do carisma do autor quando ele tenta dar-se autonomia de escritor relevante negando-se a manter um contrato tão evidente de recíprocas garantias com a mídia polemista. Neste romance Houllebecq abre mão do sexo (há poucas cenas, e a usual frase "ejaculou violentamente"), não o colocando como um dos pés da obra; e aqui ele não recorre ao escândalo ou à maledicência. Sua tentativa de autonomia é respeitável, mas o que ele pretende ser a aproximação ao patamar sério de um Camus, acaba mostrando vários defeitos na obra. O defeito recorrente é o unidimensionalismo dos personagens: o herói da trama é bonzinho demais, racional demais, se permitindo um arroubo de violência moderada no final para ganhar legitimidade. As mulheres ainda são as sacerdotisas agradecidas dos desejos dos machos, que muito tem colaborado para as feministas verem no autor a encarnação do demônio, mas com menos disposição ao sacerdócio do que aparecem nos outros romances: elas arvoram uma inédita independência, sendo que a namorada do herói o deixa pela carreira profissional_ aqui, pela primeira vez, Houllebecq permite que uma de suas mulheres tenha humor, na figura da promotora de exposições do herói. O segundo e mais grave erro foi a técnica mal sucedida do próprio autor se pôr como um personagem no livo: na verdade é o que o livro tem de melhor, um Houellebecq pouco higiênico e com abstrusões de humor, mas o sentido da coisa fica incompreensível e a brutalidade da resolução dada ao artifício dá a impressão de uma mera comicidade gratuita.

A parte genuína da obra, a que parece capaz de alçar Houellebecq para um novo patamar, é a relação entre o pintor e herói da narrativa, Jed Martin, com seu pai. Martin é um recente milionário das artes, e seu pai é um profissional do ramo da arquitetura que está prestes a enfrentar o vazio de uma aposentadoria sem os vícios urbanos do excesso benemérito de trabalho. A convivência entre os dois, como não haveria de deixar de ser, é fria, distanciada, monologal, mecânica. Todo o peso da excepcional educação pragmática é visto na vida de Martin: seu determinismo ao sucesso, seu apartamento de alto luxo sem mobília em que ele dorme em um colchonete suportando o ronco do aquecedor sempre estragado, seus meses em que fica trancado em casa pintando, sem falar com ninguém, ao ponto de um simples pedido em uma padaria ser um esforço de desatrofiamento das cordas vocais. Martin vive a angústia de sua mãe ter suicidado antes que sua memória infantil pudesse perpetuar uma imagem dela. Martin é muito francês em seu polimento e suas reservas, em seu humanismo embutido aquém da racionalização. É o mais humano dos personagens de Houllebecq, em uma bibliografia recheada de personagens que estão situados além do bem e do mal, o mais próximo a um desentronamento de seu casulo para ser aquecido por uma impressão de alteridade. Uma vez, sem motivo algum, ele desce de seu apartamento e vai até o escritório do pai, apenas para estar diante dele, sabendo que a mesma inexorável falta de assunto vai abater sobre eles. O pai o recebe esbaforido, em pleno meio de um dia hipertensivo, e o repreende por assustá-lo e pelo nonsense da visita. Tempos depois, o próprio pai o visita, e eles bebem junto, num clima de intimidade desconcertante de uma primeira vez, e com o laconismo de sempre o pai lhe diz que vai recorrer à eutanásia em uma clínica suíça, porque se nega suportar o tratamento de um câncer de reto. É a última vez que se veem. Martin, em um novo arroubo, parte para procurar a clínica suíça para saber sobre os últimos momentos do pai, e encontra um prédio branco límpido e com a pureza sem exaltação dos muito ricos e muito civilizados. Lá, ele é atendido por uma mulher insípida e crua, avessa sem a mínima paciência a atender à vontade de Martin de saber o que seu pai viu e falou em seus momentos finais. Ele a soca e a espanca violentamente, a deixando atirada em evidente coma no chão, e sai diligentemente até o aeroporto, contando ser preso a qualquer hora. Neste momento, se fosse um filme, a plateia do cinema com certeza teria se regozijado em gritos e batido palmas. Martin vê que uma clínica destinada a multi-milionários jamais iria procurar os noticiários com uma denúncia de espancamento, e ele chega de volta a Paris. Quando ele estava procurando a clínica, um erro de interpretação idiomática faz com que o taxista o leve a um bordel de luxo. Houellebcq faz um novo esforço em adstringir o peso da vida com comparações do quanto seria melhor se o pai de Martin tivesse recorrido ao hedonismo do braço daquelas moças, no final da vida, em vez da solução da clínica. Inconscientemente ele acabou transformando todo o bem engendrado mobiliário de cena apto para reflexões mais profundas no mesmo clichê dessa vez sexualmente ponderado de seus outros livros. O único alcance obtido foi esse: a figura do pai fracassa em produzir algo substancial e vira uma decantada comédia. O que é revelado como mais diagnóstico desse fracasso é que o pai de Martin, na juventude, sonhou ser também um artista.

O vazio da paternidade é o tema de O mapa e o território. O personagem mais interessante, um chefe de polícia que é lamentavelmente aposentado da narrativa sem qualquer explicação próximo ao término do romance, é um pai fracassado por causa de sua oligoespermia, a quase nula produção de esperma. Isso que ele considera a maior dor da sua vida é contornada com o lenitivo da criação de um cachorrinho e de uma vida de atenções sanitárias recíprocas com a sua esposa. O próprio Houellebecq que aparece no livro é um órfão sedimentado, um órfão insofismável. O órfão padrão francês, com selo de qualidade. E tudo passa. A vida deles todos passa e é descrita até o fim a decomposição rumo à velhice e à morte de Martin. E o romance termina com a tristeza cada vez mais plástica e vazia de Houellebecq, que o conclui com o carisma típico de um escritor famoso que se sustenta pelo comedimento chique e pela competência de mobiliar bem a narrativa. Há uma tentativa de criticar a sociedade de consumo num novo coisismo em que Houllebecq faz de seu livro uma repetição da obra consumida, descrevendo manuais de funcionamento de carros e outros utensílios do desejo do homem moderno comum.

É impossível não se questionar por que Houellebecq é um dos escritores que mais se vendem no panorama atual das letras. Seus leitores são como ele? Ele fala o que pensa? Ele é uma forma ultra-moderna de sátiro? O que eu acho é que Houellebecq expressa muito mais sobre o que realmente é em seus livros, e o fato de ser brutalmente assassinado em O mapa e o território revela uma catarse auto-crítica que talvez aponta para uma nova exploração pessoal nas próximas obras. Ele se fez morrer talvez como forma de mea culpa. O que eu acho é que sua intranscendência é um espelho da mesma característica do homem consumidor de cultura do alto desse século XXI, bem localizado em sua falta de necessidade do autêntico e refestelado com o que a bijuteria fina da aparência do autêntico lhe dá de garantias de sofisticação e conteúdo. Uma leitura rarefeita e dentro de certos parâmetros válida, com a precisão de oferecer a matéria hercúlea de 400 páginas com a fluidez de leituras de revista. Uma leitura, no final das contas, inofensiva em toda sua comburência de coisa perigosa, fechada em seu círculo de validade ao ter como polo receptor um consumidor exatamente igual a ela.

domingo, 28 de junho de 2015

Submissão, de Michel Houellebecq



Duas coisas que Houellebecq disse em sua entrevista a um programa da Globo News me chamaram a atenção. A primeira é que ele demonstrou um certo descontentamento com o resultado final de seu romance Submissão, alegando que esse livro é "otimista demais"; a segunda é, ao final da entrevista, como despedida ele ter lançado a observação simpática à jornalista: "é uma questão (a do tema do livro) da qual vocês no Brasil vivem longe". Um livro que trata sobre o domínio ideológico progressivo da França por um partido islâmico, ao ponto de surtir mudanças radicais no âmbito social, trabalhado como foi por Houellebecq, realmente me pareceu tímido no alcance de sua crítica, algumas vezes desnecessariamente retórico, e pouco eficiente, o que, nas palavras do autor, se traduz pelo que diz de seu otimismo. Houellebecq, que muitas vezes demonstra uma percepção histórica aguçada acima da média, sabe bem que a vida de um escritor como Salman Rushdie não é nada agradável, para que ele próprio incorra no martírio em vida de escrever algo que abale a paciência de um chefe religioso até o nível deste colocar sequazes fanáticos assassinos em seu encalço. Faltou um amor monástico maior a Houellebecq pelas letras para que ele se desse em holocausto a uma causa, e tal atitude é totalmente compreensível para o leitor que o conhece por outros romances como Plataforma e O mapa e o território, em que evidencia-se a crença de Houellebecq de que o homem ocidental está com os dias contados. Os atentados de ontem, por exemplo, que vitimou vários turistas ocidentais em uma praia na Tunísia, com certeza ativou a memória dos leitores de Plataforma, em que se é narrado uma cena similar à realidade. Houellebecq concebe o homem moderno ocidental como um projeto eclodido por seu próprio hedonismo e frivolidade, por sua ausência de conteúdo e sua absoluta boçalidade, e por isso, é natural que esse homem seja substituído por um exemplar mais viril, mais darwinianamente apto à sobrevivência e à dominância; é natural que o homem ocidental adiposo e entupido de drogas de todos os tipos seja massacrado pelo novo homem oriental, que veio, após séculos, restituir seu lugar na história. Tendo-se isso em mente, a leitura dos livros de Houellebecq sofre um grande acréscimo de qualidade. Houellebecq, sob esta interpretação, deixa de ser um autor da moda, ponderado e passageiro, para ser um arauto sofisticado da visão lúcida, cheio de ironia fina e sutilezas.

Eu achava que supervalorizava Houellebecq com essa minha interpretação, mas a leitura de Submissão me ajudou a firmar sua relevância de grande visionário. Submissão é um livro assustador, cuja inquietação está nas entrelinhas e nas nuances, e não na parte emergente visível. A história em si é a mais linear e sem muito chamariz entre os livros de Houellebecq: a narrativa de um professor universitário que, paulatinamente, acompanha a ascendência do partido muçulmano francês até à eleição de seu candidato à presidência da França. Tudo se passa sete anos no futuro, e o narrador aos poucos descobre como a História só se concretiza quando arrebanha pessoas comuns como ele para dentro da tormenta. O narrador perde seu emprego, foge por um país de cenários desertos devastados pela conflagração da massa homicida, e tem seu livre arbítrio repaginado de maneira espontânea como exigência para ser aceito pelo novo mundo que o cerca. O modo como Houellebecq vai subindo o tom de sua orquestração é típica de um mestre, e nisso está a grandiosidade deste romance. A atmosfera espiritual em que o narrador transita parte da suavidade de um europeu culto bem sucedido, com sua solidão confortável de suburbano egoísta interrompida de vez em quando por encontros sexuais, e avança lentamente, anestesicamente, até o ponto em que tudo é retirado de apoio a seus pés. Ele nem vê como isso acontece. Ele, que é um homem com títulos universitários, com acesso às rodas mais sofisticadas e esclarecidas de intelectuais, que tem tv paga, internet de alta velocidade, uma visão aprofundada sobre a produção mental feita em cinco séculos passados para que possa se situar no milagre contemporâneo como um beneficiário da democracia e do humanismo, ele, pois, quando derrubado pela reviravolta histórica, se sente como se tivesse aberto os olhos agora, como se nunca tivesse estado . A ingenuidade do narrador seria meramente tocante, se Houellebecq não fizesse ver que é uma característica comportamental unânime de todos os franceses. E a força do livro está no fato de que esse diagnóstico não é dado com sarcasmo ou como efeito retardatário de uma fábula moral, em que o aviso incutido é de que os franceses (os homens ocidentais, no geral) deveriam acordar o mais rápido possível e tomar as providências para que o pior não acontecesse. Suponho que a lentidão da narrativa, e seu intercurso de diálogos políticos entre os personagens, são artifícios bem manejados pelo romancista para que escoe qualquer ressonância didática, o que faz com que estejam errados os críticos que viram em Submissão um Admirável mundo novo e 1984 moderno. Ao contrário destes dois livros, Submissão não é uma distopia, mas um romance de um realismo escatológico em que o resultado, que nos outros dois livros é anunciado em um futuro tão distante que parece super-dimensional, já está sendo computado no presente. A inequívoca falta de tempo para que as coisas possam ser consertadas, no livro de Houellebcq, retiram dele qualquer valor de previsão preventiva. O homem moderno é tão auto-isolado em sua falácia cultivada de independência e desenvolvimento, que só lhe sobra duas opções diante o conquistador bárbaro: a extinção abrupta pelos atos sanitizantes do terrorismo, ou a conversão ao novo sistema. Houellebecq transverte o conceito de barbarismo e evolução, ao fazer o leitor pensar em quem é realmente o mais forte: o europeu-americano, para quem o pós-colonialismo decretou sua total falta de propósito na corrida da história, ou o oriental de arma na mão e com convicções milenaristas arraigadas para quem a violência é a forma efetiva de varrer a flacidez dos derrotados dessa nova história afim de tomar seu lugar por direito. A dicotomia desfavorece em todos os sentidos o primeiro, em seu amoralismo, em seu vício compulsivo por sexo, dinheiro, glamour, moda e tecnologia estúpida de eterno entretenimento; isso tudo o torna uma espécime sem compasso ao determinismo biológico e geográfico (uma vez que seu próprio habitat sofre as consequências de sua estupidez). Em sua pouca aptidão à sobrevivência, a burrice em não ver os sinais da derrota, mesmo envolto com tantos diplomas tolos e excesso de informações, é mais um sinal enviado pela fisiologia em favor da suplantação pelo novo homem, o homem atuante, íntegro em sua falta de pieguismo para ver a necessidade da violência e do assassinato como legitimidade espiritual. O homem houellebecquiano é um integrante de uma espécie em franco suicídio; em todos seus livros, esse é o tema principal. Mas o tema de Houellebecq não para apenas na extinção, mas na substituição. O homem oriental é quase uma nova espécie, que inicia uma nova história.

Fiquei impressionado com a frase de Houellebecq, na entrevista citada no primeiro parágrafo deste texto, de que esta é uma realidade distante do Brasil. Não sei se Houellebecq é sagaz o suficiente para ter lançado uma ironia como última frase ao programa_ penso que se trata apenas de uma frase simpática, nada mais. À medida em que eu lia Submissão, eu me identificava cada vez mais com o narrador. O Brasil passa por um período negro de imposição sem reação de uma espécie de neo-talmudismo ultra-moralista, com graves consequências. O país se tornou um cenário fértil para todo domínio de massa no campo religioso e ideológico, com tentáculos lançados na política e na mídia. Jesus Cristo é um coadjuvante que serve para finalizar uma autorização hipocritamente piedosa para uma versão do Velho Testamento que avaliza toda espécie de ganância financeira e feroz desejo de poder. Simplesmente, as partes do evangelho em que se fala de caridade e condenação à usura, foram extirpadas. Acontece no Brasil, hoje, o que Dostoiévski falou em O grande inquisidor, a monumental cena descrita por Ivan Karamazóv em Os irmãos Karamazóv: o Cristo é uma figura simbólica, sem transcendência, robótica e totêmica, um amuleto que serve para atrair ouro e resposta à toda necessidade da carne. E tanto mais frutifica esse cenário, quanto mais o país se atola na crise. Mas é engano ver qualquer semelhança entre esses homens subjugados com os novos homens assassinos de Houellebecq. Estes, na premissa da sobrevivência, seriam os primeiros a se entregarem a um novo deus, se fossem lhes dado tempo para a conversão antes do massacre.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Partículas Elementares, de Michel Houellebecq



Não se trata mais de niilismo. Um dos personagens de Houellebecq oferece mesmo um termo novo: materialismo absoluto. Partículas Elementares, o livro vitrine de Houellebecq, seria de um materialismo absoluto, se não fosse parte do diagnóstico sobre o estágio das ideias e da experiência a que o homem se encontra estancado nesse início de milênio. O livro se oferece ao leitor já com um selo de cansaço, de coisa antiga, de exercício de tautologias modísticas do pensamento já definhadas de interesse, com uma lucidez despretensiosa de saber que não provocará novo desespero, não fará que gerações de leitores jovens passem o resto de suas vidas dedicados ao lento suicídio hedonista em bares de Paris. Tudo o que Houellebecq fala nesse livro já foi há muito falado por outros de seus predecessores, com mais requinte, mais dor e sistemática acadêmica. Tudo que está ali no livrinho fácil de se ler e de narrativa ágil (à maneira do entretenimento ligeiro que se encontra como os mais vendidos das livrarias) é tão velho que, se não fosse o talento inteligente do escritor, seria risível, um riso vindo pelo humor involuntário das cenas grotescas e do desejo sexual patológico. Aliás, esse romance do francês por muito pouco deixa de ser literatura e se torna um estudo clínico de casos de neuropatologias: um romance que, em sua extenuação limítrofe quanto a tudo que não seja matéria, vai de contra a instituição da literatura no que tem de repúdio narcisista às questões clássicas do romance. Em certa altura, o leitor pode se perguntar se o único propósito de lê-lo não seria o enriquecimento do autor.

É um livro insípido como um vale da lua. Caso o leitor não tenha o suficiente preparo, no tocante a saber onde situar tal obra nas tantas seções do anedotário artístico, pode incorrer no erro de se limitar à apreensão do erotismo exacerbado da narrativa, ou, pior, aceitar passivamente aquilo como leitura do mundo, como fato incondicional da morte de toda filosofia. Tem sim uma luz fria, opressiva, que nada traria de benéfico aos anseios espirituais do leitor, se não fosse o desencadeamento das últimas três páginas. Pois, ainda que o livro seja quase um objeto cárneo, de tanta dessacralização de tudo que não seja carne, não consegue escapar de seu caráter espiritual. Não consegue escapar das velhas questiúnculas da escrita, na medida em que não escapa da raiz secular de que a escrita é uma busca espiritual. Os personagens do livro não creem em nada, não amam, não se comunicam, não são possuídos nem pela mais fagulhar impressão de calor. Cada qual é levado por um moto contínuo sem pensamento e sem emoção. A vida de Bruno, um dos personagens principais, só tem razão de ser pela fanática procura de satisfação sexual; todos seus pensamentos, de quando acorda até quando perde a consciência na maioria de suas noites etílicas, são preenchidos pela compulsão sexual. Ou antes a ânsia competitiva frustrada advinda da rejeição perene que Bruno sofre das mulheres, devido a seu pênis pequeno e ao seu começo de obesidade, e à sua carência de qualquer sex appeal. Seu meio-irmão Michel é o oposto de Bruno: indiferente ao sexo, solitário, silencioso, exilado das aparências da vida cotidiana mas absolutamente convencido de suas ideias científicas sobre a vanidade de tudo. Ambos tem uma mãe em comum, uma beldade super-inteligente que se assemelha em sua cumplicidade materna à indiferença de uma viúva negra e que os abandonou em criança. Aliás, os seres autômatos de Hoeullebecq são ultra-inteligentes, bastante franceses e modernos, bem sucedidos e distantes de qualquer tipo de indignação quanto a qualquer assunto. Numa leitura política, são os viventes perfeitos de uma França um passo antes do neoliberalismo sem a conjunção prática do estado, pois quase todos os personagens são funcionários públicos cientes de suas obsolescências, que se acham felizardos por terem entrado a tempo num emprego que lhes ofereçam um mini-apartamento alugado num bairro não de todo periférico em Paris e uma velhice solitária mas sem tribulações; estão certos de que passam por um definhamento importante e inevitável da política ocidental, que são os últimos espécimes desse arranjo, mas são conformados.

Na peça que leva o nome de Calígula, de Albert Camus, o personagem homônimo é questionado sobre sua maior qualidade, ao que ele responde ser a indiferença. Esse romance de Houellebecq professa um avatar mais avançado dessa visão predatória despida de piedade: seus personagens estão além da tragédia e do conflito. Estão por um fio de deixarem de ser humanos, não só na ausência do amor ou da mínima preocupação pela alteridade, mas também na ausência de ódio e de violência. Houellebecq vai dando os vários sinais de para onde a trama está sendo conduzida, com monólogos que estudam a sociedade burocrática a-sensorial de tarefas divididas da distopia de Aldous Huxley, com epígrafes de Auguste Comte, com a elaboração sobre as possibilidades práticas  da meiose nos trabalhos de biologia de Michel. Esses sinais surgem de forma estranha pelo texto, causando a sensação de deslocamento, assim como são insípidas as descrições sexuais, que lembram a escatologia didática do filme a que Robert De Niro leva a Cybill Shepherd para assistir, em Taxi Driver (enquanto o casal copula, a câmera mostra o fluxo de espermatozoides entrando pela cérvix na procura do óvulo). Bruno e Michel são tão imunizados do que compõe a ideia orgânica de homem, que através de suas reflexões passamos a aceitá-los como pertencentes a uma nova categoria biológica, de forma que nosso julgamento moral fica suspenso diante a inquestionabilidade de seu etnocentrismo racista, de seus egoísmos, de suas impiedades. São tão paradoxalmente profundos no que tem de certezas rasas, que o leitor começa a temer, ou a alimentar a simulação de um temor, de que talvez eles estejam certos. Suas ideias sobre o passado histórico e sobre o valor da cultura são fundamentalistas a um ponto concreto que eles decodificam os antigos esteriótipos sobre Nietzsche (segundo eles, um filósofo que privava o sacio hedonista sobre qualquer tipo de moral, e um dos pais do nazismo), sobre Proust (belo em sua obsolescência, sem função alguma para o mundo do novo milênio), e alimentam a consagração dos novos bezerros de ouro (como a concepção de Mick Jagger e demais astros do rock corporificarem uma deidade onipotente que nem na época dos faraós havia igual). Eles são os garotos de QI magníficos que a via sacra cuidadosa de fazê-los passar pelas vantagens herméticas das célebres instituições de ensino, pelas grandes faculdade, até seus lugares por direito de gestores do mundo, faz crer que são oráculos indiscutíveis da verdade, que não podem ser questionados. São o resultado de um darwinismo social que, por mais que seja moralmente injusto, é a realidade: os representantes superiores de uma raça que se deixará levar sempre, que os louvará.

Por isso, por bem pouco, os personagens desse romance não se tornam assassinos. Essa supressão de um caminho óbvio é um dos diferenciais de Houellebeqc sobre a grande tradição de niilismo povoada de heróis psicopatas das letras francesas. Houellebecq não recorre ao assassinato para concluir seu tratado sobre a psique doente do homem do novo milênio. (Brinca com isso, à maneira que faz lembrar os flashbacks dos romances com assassinos exóticos de Bolaño, com um astro de rock fracassado, um homem de beleza arrebatadora que cometia assassinatos rituais e os filmavam.) Seus heróis já não trazem o fardo da tragicidade existencialista dos filósofos assassinos de Dostoiévski e Camus, ou o niilismo vindo de um humanismo em negativo dos assassinos de Zola e Sartre, mas são pessoas lúcidas demais sobre a banalidade da existência para sequer terem anseios   de psicopatia destrutivos contra o outro. Eles simplesmente não enxergam o outro, ou o fazem apenas sobre um ótica estritamente funcional, para confeccionarem esse tipo de catarse.

A força desse romance de Houellebecq_ indiscutivelmente um grande romance_, está na escala precisa em que ele calibra sua sutil crítica ao desenvolvimento da humanidade. Por detrás de sua a-moralidade asfixiante, o autor tece uma obra que é quase um epitáfio à moralidade nunca sustentada pela espécie a que pertence. Por detrás da vida sexual hiper-atrofiada de Bruno, há um repúdio ao sexo que brinca com uma determinação punitiva que beira à expiação dos pecados do catolicismo: as duas personagens femininas principais do livro morrem em decorrência de seus pecados sexuais: mesmo a belíssima Annabelle, que pode bem ser apontada como o único ser cárneo de todo o livro que atingiu um ascetismo na maturidade que lhe configura uma graça quase tolstoiana, morre de câncer de útero, em decorrência se seus tantos parceiros sexuais e de seus três abortos. A outra mulher, única a qual Bruno concede o benefício fisiológico de ser sua companheira para prover suas necessidades da futura velhice, fica paralítica em pleno ato sexual com múltiplos parceiros, e se suicida em seguida por seu corpo não ser mais apto a dar prazer. Houellebecq, em suas intrusões na voz do romance, diagnostica que a isso chegou a liberdade sexual dos anos 60, a isso o culto esquizofrênico pela juventude, esse vazio triste da carne envelhecida e flácida, que não supre mais sua única função de ser maquinário sexual. Nisso, há alguns traços em Houellebecq que soam a Bashevis Singer. O final do livro_ que é arrebatador_, deriva para os santos sem deus de Camus, na medida que Michel é "iluminado" pelas figuras do Livro de Kells do catolicismo monástico irlandês, e cria uma teoria revolucionária que abole o sexo e purifica a nova raça humana de suas heranças deletérias, incutindo a necessidade de um amor comteano, matemático. Uma ironia auto-implosiva que dá lugar a um retrato preciso de nossa decadência feérica e sem retorno.