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| A belíssima foto de Werner Bischof que estampa a capa do livro |
Ontem o céu passou negro o dia inteiro e choveu por longas e langorosas horas. Deixei minha filha na escola _ que na quinta-feira passada teve o pátio alagado pelas chuvas incessantes, com água pelas minhas canelas_, e passei nos correios para pegar o pequeno pacote adquirido em um sebo contendo O companheiro de viagem, de Gyula Krúdy. Minha relação com os livros é absolutamente sensual e prescinde de certas fidelidades que seriam urgentes em outros casos. Estou na metade de uma releitura de Vermelho e o negro, mas, sentado em minha biblioteca, com o Gyula na mão (estava por escrever "com o Krúdy na mão", mas percebi a inconsciente cacofonia), protelei o Stendhal e me lancei com confiança infantil nesse livro recém chegado. Iniciei pelo relato final, de autoria de Sándor Márai, de uma beleza inigualável. O clima disparatado, anacronicamente sentencioso, que permite 23 dias ininterruptos de chuvas colossais e tem a previsão de seguir até o final do carnaval, foi o ambiente perfeito para essa prosa de uma cor cinza e de uma dor apaixonada e profundamente recolhedora. Que tamanhos agradecimentos tenho para dar por esse livro ter me chegado agora! Como ele me fez feliz ontem, com sua generosa sinestesia, com sua poesia de cheiros e de detalhes inapreensíveis, com seu calor humano devastador, que tem o organizado encadeamento da grandeza de Whitman, tem a poeira e a lama e a periculosidade das entidades destemidas de Knut Hamsun, que tem uma forte insinuação de imortalidade no que desencava dos pequenos movimentos ignorados sob o véu diáfano da sublimidade. O texto de Márai fez minha alma encolher, me retirou do mundo, nada me faria deixá-lo até que eu chegasse à última página: é anunciado como umas das páginas mais belas da literatura magiar, e não ouso discordar disso. Fui ler o romance do Krúdy, com a sensação de que nada seria superior ao que seu discípulo escrevera, e eis mais uma das surpresas do volume: os estilos, as visões, os espíritos dos dois são impressionantemente iguais. O companheiro de viagem propriamente dito é da mesma maneira arrebatador. Tem frases cinzeladas que abrem mundos, como essas: "Na fenda entre os joelhos, o vento e o pensamento sem dúvida passavam livres" e "Um dia as heroínas morrerão, e o cuidado com os túmulos serão o entretenimento dos vivos". Há muitas e muitas outras frases e parágrafos inteiros que eu sublinhei até que lesse todo o livro. E daí vem aquele lamento terrível, do por que um autor como Krúdy é tão desconhecido; do por que, afora esse livro e alguns contos esparsos, aqui não se tem mais nada de sua extensa obra (ele foi desses que escrevia um livro inteiro em um mês, se esgotava por horas na escrita). Fez-me lembrar de Microcosmo, em que Magri descreve como um mago de uma história infantil a grande literatura desconhecida que existe na Itália interiorana. O quanto de literaturas desconhecidas existem no interior de cada país? Emil Cioran escreve na carta a um amigo que abre História e utopia, que ele próprio não participava desse ressentimento nacional de seu país contra os húngaros, que, pelo contrário, ele sentia uma profunda inveja desses seus inimigos, porque eles tem o espírito de senhores e na confrontação da história em que são obrigados à servidão se mostram altivos aristocratas mesmo sob as condições mais ásperas. A vida e a escrita de Krúdy, e a vida e a escrita do suicida Márai (que o excessivamente acalentado pelo ar-condicionado de gabinete do Coetzee diz não prestar como romancista, com mais um de seu lamentável acento etnocêntrico cego e apequenado), é uma limpeza na alma para qualquer leitor. São desses para os quais a ideia de que deveria haver uma vida após a morte recebe o merecimento mais justo.
