Mostrando postagens com marcador Roberto Bolaño. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roberto Bolaño. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O mais triste dos tristes escritores


                                                 "A melancolia é a felicidade de se ser triste" (Victor Hugo)


Não há como não ver como uma estupidez com indigerido traço etnocêntrico o pouco caso que Coetzee faz a Mia Couto em seu livro de ensaios Mecanismos internos. Por mais que eu goste de dois ou três romances de Coetzee a ponto de usá-los como recorrentes presentes a amigos, a única frase que ele dedica a Mia Couto, de forma ostensiva e prepotente, alegando que o moçambiquense não era representativo da literatura produzida no continente africano, estraga um tanto a imagem desse prêmio Nobel que é indiscutivelmente um dos maiores autores vivos da língua inglesa, mas que esbraveja a sua carteirinha de esnobismo elitista de autor europeu (mesmo adotado), de aristocrata que tem sua importância medida e aceita sem reservas acima do senso comum mais idiota dos excêntricos e periféricos. Tal atitude, que por ser explicitamente gratuita (já que ele cita o nome de Mia Couto sem nenhum propósito além de sentencia-lo como descartável), é semelhante em sua violência segregacionista a de escritores como Kingsley Amis ao apontar José Saramago em uma reunião de escritores e dizer a um amigo alguma festiva frase sobre a mediocridade de tais pessoas como o português em se tornarem escritores. O que há por detrás de pontos de vista inerciais como estes é algo constrangedoramente simplista: o mero preconceito; o preconceito mais baixo que junta no mesmo cesto de identidade fechada de casta a proeminência financeira de uma nação sobre a outra, o valor comercial de um idioma sobre o outro, até as mesquinharias mais provincianas como aspectos de cor e raça.

O leitor que conheça o potencial de escritores que exorbitam o eixo de glamour intelectual das regiões cosmopolitas vinculadas à riqueza financeira, sabe bem que dificilmente Coetzee deva ter lido Couto. Ainda mais que um dos ensaios de Mecanismos internos fala minuciosamente sobre o pior livro de um escritor que teria tudo para ser enquadrado nas esferas de subdesenvolvimento literário que Coetzee parece atribuir a Couto: o Memórias de minhas putas tristes, do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Coetzee faz uma radiografia pedante sobre esse fraquíssimo livro, para no final dizer o que qualquer leitor menos devotado já tem por certo: é um romance descartável entre a bibliografia em três títulos prodigiosa de GGM. Gastando tanto tempo em um livro constrangedoramente menor de um cultuado autor, e relegando toda a obra com momentos imortais como Terra sonâmbula de outro com uma frase absurdamente derrisória, Coetzee mostra, apesar da sofisticação utilizada na maior parte de seus ensaios, uma visão medíocre, cerceada pelo mais atrasado selo de qualidade senhorial, pela sutileza mais gritante que remete a pensarmos o quanto o autor de uma obra como Desonra sucumbe ao clichê da pior espécie, talvez pela velhice ornamentada com seus importantes prêmios (mas não menos velhice), e sua empáfia diante o que ele pressupõe ser o extremo oposto de si mesmo (ele, um autor africano branco, que escreve uma prosa realista seca, que transita por esferas intelectuais assepsiadas de sentimentalismo, e Mia Couto, um autor africano branco, que escreve uma prosa barroca com cores sinestésica e profundamente poética). E se quisermos sair desse diagnóstico como algo precipitado, basta ver o ensaio no mesmo volume sobre Sándor Marái, em que suas palavras, agora prolixas e diretas, são assim mais pesadas em seu descarte em dizer que Sándor é um péssimo romancista (ele dedica várias páginas em destruir o romance, para já no final, como se estivesse cansado daquilo, empregar seu carimbo definitivo por sobre o autor, dessa vez segregado tanto por sua origem étnica como pelo passar do tempo, como se Coetzee estivesse a dizer que estilos assim já estão ultrapassados, que o que conta é sua linguagem dilapidada de adornos desnecessários).

Pois bem. Essa lembrança de Coetzee me veio hoje ao ler uma resenha do Luís Augusto Farinatti sobre Bolaño, que me fez passar boa parte da tarde desse domingo folheando Os detetives selvagens. Assim como eu, Farinatti teve que passar pelo desgaste que o culto a Bolaño cria em quem quer ler Bolaño, a excessiva exposição do autor chileno. Eu li quase tudo de Bolaño, e há tempos não ouço falar dele. Assim, foi com surpresa que li sobre a iniciação feliz de Farinatti, ele que adora literatura latino-americana e produz bons contos, pois me fez retornar ao Bolaño nessa hora que, percebi com certo espanto, parece que passou o fervor em torno da figura do autor de 2666. Ou eu é que, de tanto me esquecer dele, não ando acompanhando os tantos sites dedicados à sua celebração. Para mim, pois, Bolaño agora atingiu sua plenitude, pode-se_ ou posso_ voltar a ele com a virginalidade de quem o descobre por iniciativa própria, sem os ecos de tantas opiniões translativas. Reli o primeiro capítulo de Os detetives selvagens emocionado, devo confessar. Depois reli as últimas dez páginas, que a mim afiguraram como o melhor desse romance, quando o explorei há seis anos. Eu achei bastante ruim Os detetives selvagens, por uma série de razões que já expus a exaustão. Na verdade a palavra correta é que desgostei-me dele, pois aguardava um escritor extático, e encontrei o mais triste dos tristes escritores. A última página desse romance é belíssima, sublime, estranha e ambiguamente eloquente. Passei muito tempo entendendo o que ela diz, e ela diz muitas coisas de várias maneiras. Mas, como ia dizendo, o livro_ tido por uma legião de pessoas sérias como uma grande obra-prima_ me desgostou porque era triste demais, latino-americano de uma forma sem subterfúgios, pura e intranscedente. Talvez porque na época me causava desespero pertencer ao país mais latino-americano dos latino-americanos, e Bolaño pregasse o dedo em minhas feridas com sua lucidez insensata. E o fato de que o celebravam em todo o canto do mundo como o novo Garcia Marquez, isso me doía ainda mais: era a celebração de tudo que eu via em torno de mim como atraso, a celebração de sua visão já sem redenções do latino-americano. GGM criou uma mitologia própria ao latino-americano, e Bolaño, seu substituto legal, vinha acabar com tudo falando da extrema violência e primitividade, dos jovens poetas predestinados à morte precoce, dos detetives selvagens do título que traziam nessa outorga o sarcasmo de serem detetives sem a possibilidade de desvendarem nada, e selvagens porque eram frágeis demais em seus sonhos, revolucionários obsoletos, poetas de uma era em que o vocabulário não tinha mais a mínima importância. Bolaño, me parecia, era a última concessão dada à expressividade de todo nosso continente, e ele assumia saber disso em sua intenção de sepultar de vez as letras.

Devo admitir hoje, após o post do Farinatti e minhas releituras descansadas de Os detetives selvagens, que só agora eu perdi certo receio contra Bolaño, eu passo a compreendê-lo melhor. Acho que isso tem a ver com meus esforços mais concentrados em escrever um romance, uma tarefa mais madura e auto-combativa (afastando e destruindo uma série de bobeiras aprendidas também pela inércia). O mais triste de todos os tristes escritores é também de um visceralismo só tido em raros companheiros seus de profissão. Após ler o último romance de Martin Amis, por exemplo, a impressão de artificialidade artística, de bater as teclas da máquina com proficiência mas sem muito coração, é algo que vejo impossível em Bolaño. Amis é um escritor muito bem pago, e sua obrigação é vencer o enfado do conforto de viver no extremo mais rico do mundo, cavar uma experiência que ele não tem, e dar vida a essa simulação com todos seus hercúleos esforços retóricos. O mesmo ocorre com McEwan, que há muito não escreve nada que se pareça com a realidade lá de fora de seu gabinete. E Coetzee, o meu amado e festejado Coetzee, já distante de seu auge da palavra, vem construindo suas zonas mentais aprimoradas, suas fábulas complexas kafkianas, e que cansaço benéfico ao final da tarde deve tomar conta de seus olhos míopes que caem por um tempo gratificante por sobre o aveludado tapete por debaixo de seus pés. Essa percepção de cavar a verdade passou pela cabeça do Philip Roth de Entre nós, quando ele confessa a inveja que tem de escritores como Ivan Klíma, que tem todo o provimento de assuntos capitais oferecidos pelas agruras cotidianas de sua pátria política. Tentar escrever tem me dado uma piedade de visão e uma profundidade muito mais reveladora que a passiva aquisição da escrita pela leitura. Um humanismo que me faz rever conceitos imediatos que se colam com uma facilidade parasita e assustadora em minha mente. Uma nova ciência do olhar muito útil nesses nosso tempos em que se prende menores infratores em postes com trancas de bicicleta, e a primeira sensação demanda uma insensível e brutalizada comemoração. Vendo o vídeo de Mia Couto falando sobre o medo_ a sua integridade, a sua segurança, a sua calma e cordial e cavaleiresca presença, a sua seriedade e auto-confiança_, e repassando Bolaño, e lendo Saramago, e Bernardo Carvalho, e na iminência de ler tantos escritores que ficam do lado de fora dessa batalha ignóbil de etnocentrismos, eu penso, feliz, que a tristeza de Bolaño é, em contrapartida, uma alegria libertária da expressão. Isso reforça de uma maneira indizível minha fé na literatura.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Memorial dos vagões escuros


Há uma diferença de visão quanto a assassinos seriais que revela o tipo de fixação iconográfica pela cultura de morte violenta tida nos Estados Unidos e em alguns países da América Latina. Os EUA, país por natureza onde esses assassinos ganharam uma personificação elegante que os aproxima de anjos sentenciadores atrás de catarses pessoais na escolha de suas vítimas, alimenta uma indústria em torno de seus matadores seriais que parte da vedetização de rostos estampados em camisetas até o leilão de objetos periciais de cena de crimes_ o que revela a prestimosidade e corrupção das instituições do estado na séria e organizada exploração desse nicho de mercado. Tudo é feito num nível de elevada sofisticação do fetiche, numa mestria em depurar todo sinal de tragédia e sofrimento de vítimas e sobreviventes, oferecendo a assepsiada plasticidade com a mesma inofensiva beleza da logomarca, de tal forma que essa vanguarda do gosto transfundido para o campo sem culpa muito além da moral é uma das revoluções de marketing que os EUA pode vangloriar ter criado. O assassino serial é vendido com a mesma catarse com ligações imediatas com a felicidade que uma Coca-Cola; mesmo consumidores que não adquirem a reprodução direta do rosto de Charles Manson em uma caneca usufrui do produto pelas inúmeras formas de compras derivadas de jornais, dos filmes, dos livros, música e dos canais a cabo, dedicados em primeira instância a repercutir o êxtase do assassino.

Uma das cenas clássicas no imaginário americano do angelicismo do assassino serial é um homem solitário andando a pé por uma das grandes rotas continentais que cortam o país, usando jeans e cabelos compridos, óculos redondos e barba, transmitindo o anacronismo perigoso mas irresistivelmente sedutor de alguma antiga ideia morta, o hippieismo, a dissolução sexual novidadeira, as aventuras do mar de um marujo caído em desgraça expulso da corporação, a abstinência voluntária ao capitalismo. Esse homem é um desagregado social e um justiceiro cuja falta de profundidade filosófica em  seu gosto para matar é parte de sua liberdade e sua ausência de peso (ele próprio é a lei e não a hermenêutica em torno da lei), e por isso é tão imprescindível parar o carro e deixá-lo se sentar no banco do passageiro. É tentador se submeter a ele, no isolamento do deserto idílico do país onde os sonhos são creditados à predisposição histórica da miscigenação racial e de uma geografia para a qual convergem os perseguidos e os desgarrados; o povo revolucionário sob a crença redentora da democracia e do protestantismo, a terras ilimitada por onde vagabundos inominados transitam por todos os cantos antes de se tornarem executivos dirigentes de mega-empresas. Aceitar que um assassino serial entre no carro é entrar em contato físico com os poderes da história, ter a oportunidade de uma conversa com Deus, como no episódio de Star Trek em que os tripulantes da Interprise atinge os limites do universo onde Deus mora; Deus com sua pureza de intenções cuja mente inapropriada de seus interlocutores não consegue perceber nada além de uma maldade apurada e ultra-exponencial.

Essa característica divinatória do assassino serial vem tanto da sensação de plenitude anestesiada da ideia de viver-se na Jerusalém do consumo americano, em que a aproximação desarmada ao assassino nos retira do torpor, quanto do desdobramento último a que chega a progressão dessa catarse na fulgurante revelação de que ele_ o assassino_ representa a acusação de nossa falsa posição, de nossa queda em um engodo que simula plenitude mas é apenas a simples corporificação da compra e venda rotineira. A astúcia do produto não consegue ir além do esgotamento de seu conteúdo teológico supérfluo; o saciamento nunca oferecido do arrebatamento que o assassino tem a oferecer nos alivia da supressão súbita da carga de serotonina, e o pico da depressão advinda por se defrontar com a pobreza insubstancial da imagem esgotada exige que um outro prosseguimento do fetiche seja oferecido imediatamente. De nossa poltrona e do refúgio caseiro, nos agarramos a um novo pacote de aquisição que traga a sensação de pertencimento das Távolas Redondas, dos desertos inóspitos lá fora e dos cavalheiros templários de um mundo ideal e legitimo. Precisamos de recapitulações urgentes do assassino, do vagão escuro e da lâmina em riste que Manson disse quase numa abusada lírica da catarse em uma de suas entrevistas mais conhecidas.

A segunda cena clássica é a do assassino urbano, menos poético e menos independente, cujo excesso de vínculos com o material exuberante da cidade o torna atrativo por outros meios, pelo que ele consegue mostrar de animal inteligente totalmente adaptado à vida moderna. Se o primeiro é um escape para a volta da primeira utopia, o assassino urbano, em seu furgão e sua janela aberta através da qual ele alveja a vítima com um disparo acionado pela mão esquerda, é o socorro da distopia. O primeiro é uma emersão, o segundo é uma imersão. O segundo não quer fugir de lugar nenhum e não é um anjo; ninguém mais que ele está instalado com absoluto domínio e conforto em seu habitat natural. Não é um assassino esotérico como o assassino caçador das estradas, mas um assassino que tem uma similaridade com os abutres e seres decompositores do reino fúngico, através de sua função social de fazer sumir um certo padrão de lixo humano. O assassino serial urbano é o herói errático das estatísticas, o desvio padrão que na mente do consumidor é responsável por parte das cifras numéricas correspondentes a um hipotético controle populacional que não vem do câncer, dos acidentes de trânsito e dos assassinatos domésticos. Seu louvor popular calmo vem de que ele é um deus ex-machina para a solução de enredos das depravações naturais das metrópoles, para fazer abduzir prostitutas, homossexuais e cidadãos na escala mais baixa do darwinismo que sucumbem pela distração e falta de sorte. Ele é o gladiador de certa forma muito cansado, que tem algo do servidor de expediente que bate o ponto e anseia pelo sofá de casa e pela aposentadoria, que faz a tarefa de saneamento que intimamente necessita o consumidor que observa a arena de suas casas fechadas das quais nunca saem após as 18 horas. Daí que perceber a preferencia nacional por um ou outro revela em que estágio está a sociedade. Nas décadas de 40, 50 e 60, por exemplo, o assassino caçador esotérico das estradas predominava, o assassino que fez a fortuna de Truman Capote, de Cormac McCarthy futuramente, os Doors e do comércio em torno dos assassinatos Tate-LaBianca. Quando o bucolismo beatnik ficou defasado e a América entrou em sua era Reagan e seu avanço modernizador para as grandes cidades, o assassino decompositor suplantou por completo o primeiro como objeto de culto, por seu eficientismo, por seu pragmatismo contra-romântico, fazendo a fortuna de Norman Mailer, Easton Ellis, das séries televisivas metalinguísticas como Dexter, e do cinema como nunca antes visto.

Há dois casos memoráveis de assassinos serias urbanos na literatura contemporânea. O assassino que dispara do carro em Submundo, de Don Dellilo, e o assassino por detrás das centenas de mortes de mulheres na fronteira entre os Estados Unidos e o México, em 2666, de Roberto Bolaño. O assassino de Dellilo nos é mostrado de maneira muito corriqueira, muito humana, bastante longe do naturalismo opressivo e soturnamente patológico dos assassinos de A Besta Humana, de Zola. Podemos conviver com ele e compartilhar seus conflitos, na comunidade de desabafos clínicos da psicopatologia cotidiana em que todo mundo tem uma anomalia mental compartilhável. Delillo nos confronta com nossa falta de suspense quando ele faz digno de que nos espelhemos em um matador absorvido pela luminosa solidariedade da tarde. Sua compulsão por matar é regredida em importância a um nível prosaico de desconserto de perspectiva em que está submetido a artista plástica que pinta sucatas de aviões no deserto e do empresário que trabalha com a reciclagem de toneladas de lixo internacional. É o assassinato depurado de fetiche que David Fincher quis passar em Zodíaco e Spielberg em desprezar o amuleto excitável da representação do assassinato de Lincoln. Poderíamos nos identificar com um serial killer, nesse estágio de ultra-humanização motivada por nossa posição como consumidores incontroláveis para quem especulações livrescas já não conta em nada?, é a pergunta perigosa que Dellilo nos faz no excepcional Submundo, ele que pensa seus livros trancado por seis meses em quartos escuros, como disse um crítico. Já Bolaño nos oferece o assassino serial das Américas subdesenvolvidas, como nos oferece Juan José Campanella no maravilhoso O Segredo dos Seus Olhos: uma aberração de nossas moléstias do passado de aceitação política, um fantasma do sub-consciente de nossa história que se encorpora e ganha força em cada vez que os ditirambos de nosso destino traça o ato cômico de mais uma subserviência coletiva.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bolaño no livro de Javier Cercas


O começo de Soldados de Salamina, o livro baluarte de Javier Cervas, me provocou desânimo. Avancei devagar pela primeira das três partes do romance, a leitura estacava, meus olhos percorriam as estantes atrás de algum outro livro que me retirasse da obrigação daquilo. Não havia nada de novo na empreitada do autor em desvendar um evento muito secundário da história de seu país, em desencavar um escritor mediano já esquecido das hordas do passado e investi-lo de interesse pela perfídia de ter sido um misto de traidor e alguém filosoficamente consciente da inutilidade em ter escapado da morte certa para ser um mero vivente cotidiano. A narrativa de Cercas é competente nessa primeira parte, seu diálogos são precisos, suas observações mostram aqui e ali mensagens de um grande arte escondida, de um talento que ameaça desdobrar-se da linguagem jornalística e transcender da reportagem requintada para uma obra genuína, e é justamente essa suspeita que me irritava, pois a via recrudescer sempre, sem cumprir a promessa. O que atrapalhava que eu gostasse de Cercas é a enorme sombra de seu conterrâneo e homônimo, Javier Marías, e a expectativa inercial de que eu fosse obter a mesma imersão profunda dos livros de Marías nesse livro de Cercas. Mas tudo bem: enfrentemos a narrativa despretensiosa e leve, fluida tal qual um rio dos bosques espanhóis pelos quais se refugiou o personagem Rafael Sánchez Mazas. Aceitemos a grande humildade de Cercas na escrita.

Ganha-se na perseverança. A segunda parte do livro, a que se centra de vez na vida de Sánchez Mazas, oferece um Cercas excessivamente seguro de si, um Cercas apaixonado pelo tema e pela escrita, a ponto da excelência encontrada aqui formar um descompasso com aquelas 75 páginas iniciais. A segunda parte, intitulada Soldados de Salamina, é soberba, de enorme beleza e sensibilidade. Acredito que seja uma das mais satisfatórias entregas que tive nesses últimos anos. Cercas simplesmente se apresenta exultante nessas páginas. O que se poderia dizer em desfavor dele aqui seria sua desmascarada entrega à voz de Garcia Márquez: há vários períodos que emulam com abuso os cacoetes epidêmicos da leitura desprotegida do autor de Cem Anos de Solidão, chegando Cercas a copiar parte da famigerada primeira frase deste romance em alguns pontos (além de arremedos borgeanos evidentes mas não deletérios, como essa frase, encontrada na página 117: "O fato, que pode parecer estranho, não é totalmente inverossímil.") Mas Cercas, talvez involuntariamente, traz essas características (que estão longe de serem limitações) para seu lado, provocando deslumbramento no leitor quando consegue mostrar sua própria voz naquelas que são as passagens mais belas do livro. A conclusão estoica e irredimida da vida de Mazas, por exemplo, é comovente (páginas 140-1), e em nada fica a dever às melhores coisas que Márquez e Borges escreveram.

A terceira parte do livro é um deleite para os amantes da literatura latino-americana, sobretudo os leitores de Roberto Bolaño. Uma das famas de Soldados de Salamina é o fato quase errático de Roberto Bolaño ser um de seus personagens, antes de Bolaño chegar a ser o portento das letras que é hoje e antes mesmo de chegar a ser conhecido fora de um círculo restrito de literatos. Tanto que Cercas apresenta Bolaño desta forma: "Um de meus primeiros entrevistados foi Roberto Bolaño. Bolaño, que é escritor e chileno, vivia já fazia muito tempo em Blanes, um povoado litorâneo situado na fronteira entre Barcelona e Gerona; tinha 47 anos, um bom número de livros nas costas e esse ar inconfundível de camelô hippie que aflige tantos latino-americanos de sua geração exilados na Europa." E os diálogos entre Cercas e Bolaño são impagáveis. É impossível não se emocionar com Bolaño aqui (Cercas diz que as falas do chileno aparecidas no livro foram gravadas, o que sugere que são apresentadas ipsis litteris). O que imediatamente chama a atenção são as diferenças entre esses dois autores: Cercas é um escritor indissociavelmente humilde, sem nenhum pudor em reconhecer sua medianidade, tanto que se assombra ao descobrir que Bolaño leu seus dois primeiros livros obliviados (eu leio até papel caído na rua, explica Bolaño). O Bolaño de Soldados de Salamina, quando recebe o diagnóstico médico de pancreatite, diz que sonhou estar um um ringue diante um imenso lutador de sumô, e sentiu uma tristeza infinita por ver que iria morrer antes de escrever tudo que tinha na cabeça, todas as pessoas que conheceu pelo mundo e foram mortas na tentativa de externarem suas vozes jovens contra a realidade, e que não poderiam ganhar através dele a página escrita porque ele seria morto por um oponente oriental implacável. As falas de Bolaño aqui, sendo literalmente dele ou não, são obras-primas por si mesmas. Lê-se isso com lágrimas nos olhos, um aperto no coração, uma certa saudade ilógica, e um quê de felicidade incompreensível. Ouso pensar que Bolaño deve muito de seu despertar a essa sua revificação promovida por Cercas. O chileno aqui se mostra um cara simpático, acolhedor, falando de tudo com "uma estranha paixão gelada, que no começo me fascinou e depois me incomodou" (Cercas)

domingo, 18 de março de 2012

Notas Sobre Duas Leituras - Roth e Bolaño


Como Philip Roth é ostensivamente vaidoso! Não conheço nenhum outro escritor que seja tão auto-referente e mantenha uma sistemática organização em torno de sua figura icônica de literato. Já havia tido um exemplo disso em Operação Shylock e O Avesso da Vida, e de novo encontro esse meta-egocentrismo em Zuckerman Acorrentado. Se tivesse que resumir do que esse último trata, a única resposta coerente seria: de Philip Roth. Especificamente da fama e dos milhões conseguidos depois da publicação de Complexo de Portnoy. Roth/Zuckerman translada em torno do antes e do depois de sua proeminência definitiva no mundo das letras americanas com Portnoy/Carnovsky. E esses sintomas evidentes de egolatria são ainda mais didáticos quando se tem como leitura paralela o mais recente lançamento no mercado nacional de Roberto Bolaño, Chamadas Telefônicas

Roth tem um adendo fundamental que não o faz se perder na mera chatice, que é seu enorme talento e sua capacidade inigualável de dar coerência a seu universo particular. Ele desempenha essas duas qualidades num nível tão alto que é evidente que se faria um grande escritor em qualquer ambiente e sob quaisquer imposições conceituais de geografia e política. Coube-lhe nascer no país onde o Mercado mais poderoso do mundo tanto oferece pleno surtimento às artes quanto lhe impõe alguns sacrifícios matizados. Não é pouco o peso que a América sobrecarrega nas costas de seus escritores da última metade do século passado para cá. Não é à toa que esse fardo faz com que seus escritores procurem a prova de seus conteúdos reais em explorações de níveis mais espiritualmente relevantes de experiências humanas. É um capítulo à parte da literatura norte-americana a busca de seus romancistas pela legitimidade orientalista. Daí Roth ter sido, por um bom tempo, editor de autores do leste europeu, e ter escrito Shylock; daí o Bellow de Dean´s December; o Franzen da parte lituana de As Correções; o Updike de seus romances "brasileiro" e "africano". Mas dessas aventuras, mesmo Bellow perde para Roth no quesito de poder imaginativo. E mesmo Bellow fica um nível abaixo diante da profunda percuciência textual dessas cenas produzidas por Roth. Algumas das páginas mais bem escritas de Roth podem bem ser identificadas nas da descrição do julgamento de Demjanjuk, o acusado de ser Ivan, o Terrível, o carrasco das câmaras de gás de Treblinka, em Operação Shylock. E no primeiro romance do volume Zuckerman Acorrentado, intitulado O Escritor Fantasma, há um capítulo magistral sobre uma hipotética sobrevivência de Anne Frank que se enche de uma experiência nos campos de concentração que só tem um detalhe desabonador: é tudo fruto da imaginação e da escrita de Roth.

Como se lhe faltassem assuntos, Roth brinca em Zuckerman Acorrentado em inventar significâncias. Esbanja com a maior má fé um talento grandioso para a escrita, driblando a escassez de experiência relevante com imposturas acompanhadas claramente da confissão de seu isolamento em uma vida sem profundidades. Em determinada altura de Zuckerman Libertado (um dos 3 romances e 1 epílogo que compõem o volume editado pela Cia das Letras), escreve que o cotidiano insosso de Zuckerman poria qualquer leitor para dormir, com as descrições de seu alter-ego em experimentar ternos de 3 mil dólares e suas mornas aflições sentimentais_ e isso depois de ter brindado em seu texto justamente longas páginas onde a única coisa que acontece são experimentações de ternos de 3 mil dólares e mornas aflições sentimentais. Roth aqui apenas mostra seu lado departamental de escritor profissional bem organizado que escreve seis páginas diárias, haja o que houver. E seu egocentrismo_ mesmo posteriormente suavizado com a descoberta de que Zuckerman distancia do verdadeiro Roth, como o fato do pai do autor real ter sido mais longevo que o do autor fictício_ chega a ser incômodo para o leitor que não conheça os grandes livros da trilogia americana e O Teatro de Sabbath; muitas vezes se vê ali o mesmo encanto pela fama e pela fortuna que nas entrevistas com astros do rock, e nem sempre a dosagem de substância oferecida serve para maneirar a exposição exageradamente vaidosa do quanto O Complexo de Portnoy/Carnovsky fez bem para às contas bancárias de Roth. Não é um livro recomendado para iniciantes a Roth, com riscos de que jamais se abra os livros importantes que vieram depois, que nada tem desses jogos dúbios. Roth é um autor tardio, por mais que tenha se iniciado cedo nas letras. Só seus romances da maturidade tem escopo para durar. O resto_ as pequenas diatribes e diversões_ ainda que sirvam para regalar seus admiradores com sua escrita afiada e sua inteligência incansável, não sobreviveria por si mesmo.

Chamadas Telefônicas serve de completa antítese política e social ao livro de Roth. Roth mostra um mundo quase absurdo em que escritores e pensadores vivem como estrelas de cinema, perseguidos por fãs ardorosos capazes de obsessões paranóicas; escritores cuja vida social tumultuada de uma Nova York babilônica sedenta pelos seus grandes gênios espirituais, lhes oferece as mais belas mulheres (artistas de cinema que vão para a cama tanto com Fidel Castro quanto com magnatas do entretenimento), carros de luxo, viagens pelo mundo para jantares com Yves Saint Laurent e diplomatas da Birmânia. Já os heróis desse volume de contos de Bolaño, como não deveriam deixar de ser, são eternos desafortunados homens das letras, resignados com o fracasso, com o descaso, com a ausência de público, em exílio de seus países latino-americanos de origem, em defasagem até mesmo com o direito de serem bons escritores. Os escritores que aparecem nesses contos são conformados com suas faltas de talento, de forma que o único atributo que eles tem é a disposição física imorredoura para a movimentação manual da escrita. Escrevem para preencher o tempo sem sentido de suas existências efêmeras, como é o caso de um dos poucos realmente bons contos dessa coletânea, Sensini, em que o escritor homônimo é um especialista em participar de concursos literários provincianos e obscuros da Espanha, cuja vitória simultânea em vários deles lhe garante não mais que o pagamento de um mês e meio de aluguel. Temos aqui a marca d´água identificadora de Bolaño: a tristeza inerente, a falta de redenção, a derrota, a falta de sentido. Há mesmo uma terna elegia ao papel social do escritor menor, em um dos contos.

Em Chamadas Telefônicas vemos a mesma disciplina para escrever e a obsessão de workaholic de Roth, também com os mesmos resultados medianos. Há contos francamente ruins, como A Neve, mas o que parece contar a favor aqui é o esforço da escrita como propulsor à procura da imaginação, à transcendência pela disciplina rígida do exercício literário. Não se deve exercer sobre a escrita as mesmas regras do que seja entretenimento atribuídas a outras áreas da mídia. Bem acima do que sugere o frescor da grife que ronda esses dois nomes, Roth e Bolaño ainda são Roth e Bolaño.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Monsieur Pain, de Roberto Bolaño


Quando dei por terminada a leitura de mais esse Bolaño, tive que me render à possibilidade inevitável de, enfim, considerar seriamente que o autor chileno seja mesmo o grande nome das letras que a imprensa literária tanto propagandeia. Junto a essa cogitação, vem o adendo indispensável de que eu não o tenha levado tão a sério justamente pelo empenho desta mesma imprensa em iconizar Bolaño, em macdonaldizá-lo (para usar uma figura cara aos demais novos autores latino-americanos, que se empenham em fazer com que um Garcia Marquez desapareça, pois romancistas coadunados pelo sistema não tem uma segunda oportunidade sobre a Terra). Daí que só a leitura extenuante de Bolaño para quebrar a barreira da adoração e restituir a originalidade que Bolaño possui, entrando em seu universo primordial no instante anterior em que a morte lhe conferiu essa sorte aziaga de pintor neerlandês em herdar a fortuna e a fama ao seu inútil fantasma. Resgatar o Bolaño das prateleiras esvaziadas pelo roubo dos fiéis das livrarias de Portugal; dos cursos de sofisticados doutores norte-americanos que assinam ensaios críticos antológicos na New York Review of Books; dos tantos autores nacionais que tentam ser empossados em sessões de ouijas e ter as mãos dominadas pelo mesmo movimento inspirado que escreveu as mil páginas de 2666. E restituir o Bolaño imaculado de quando era um vigia noturno em Paris, ou que passava noites na companhia de out-siders em aprazíveis cavernas espanholas, ou que viajava sem rumo pelos desertos políticos de uma América Latina que jamais se transformaria na route 66 e jamais o deixaria tomar whisky impunemente na carroceria de uma caminhoneta enquanto ele se angustia poéticamente pela magnífica derrocada do espírito continental rumo aos escalões subterrâneos. Sair rapidamente, de forma a não deixar nem a poeira das sapatilhas na soleira da porta, de blogs como o de Cassionei Petry quando as vistas apanharem a faixa sacramental do culto ao maior dos romancistas; cuspir enviesado e com cara de ofensiva repulsa quando ver mais uma vez o Milton Ribeiro ou o Ronaldo Bressane esculpindo as palavras do mestre em placas de bronze. Só assim, aceitando aquém do barulho do tráfego da movimentada rodovia e se refugiando na solidão opressivamente silenciosa das páginas de romances como Monsieur Pain, é que se pode começar a ter a real dimensão desse Bolaño que, para suplício das minhas forças, devo ceder à inexorável hipótese de que seja a maior presença literária no horizonte desse lado de cá do hemisfério e nesse lado da costa do Pacífico.

Essa dedicação centrada à obra e não à etiqueta é necessária para apreender a força desse curto romance, escrito por Bolaño no início dos anos 80 e que revela uma voz incipiente quase indistinguivel do restante de sua produção. Em Monsieur Pain vemos um Bolaño extasiado com o aprendizado da escrita, testando seu talento, esforçando-se por imprimir sua voz própria nas emulações de seus escritores preferidos, brincando com a cenografia e com as disposições de luz e sombra do ambiente. Essas identificações de formação, que nas mãos de um artista mais óbvio seriam algo desmotivador para a leitura, em Bolaño ganham um interesse genuíno por dar ao leitor o atestado prazeroso de que o autor de Detetives Selvagens não se limitara apenas à experimentação, mas já encontrava sua voz própria e o que se tornaria o grande tema de seus escritos. O que é muito gratificante aqui é que o autor, com menos de 30 anos quando compôs esse romance, parece ele mesmo se surpreender do potencial que se anunciava em seu ofício, assustando diante a ebuliência de situações, pausas, personagens e diálogos que nasciam de si à medida que a história ia se constituindo diante de seus olhos. Por isso este romance é como aquelas pensões dostoievskianas cheias de quartos de sótão e corredores escuros, onde se esconde da vida tumultuada da metrópole uma insurgência de seres originais, exóticos pertencentes ao mundo paralelo dos submundos particulares, carregados do estranhismo daquela classe de conspiradores sem foco mas não de todo inofensivos que respiram um ar e falam um idioma próprio. 

Em Monsieur Pain, o personagem homônimo transita por uma Paris prototípica, uma Paris londrina de chuvas ininterruptas e becos secretos, dos quais sempre irrompem perseguidores sorrateiros usando sobretudos; uma Paris tão deslocada e anacrônica quanto a Paris de Auguste Dupin, esse detetive criado por Poe, o autor americano que inventou o romance de detetives, o mais britânico dos gêneros literários. Não à toa Bolaño já anuncia aqui seu caráter cosmopolita, sua desvinculação a origens étnicas, geográficas e temporais_ no início do romance, ele provocadoramente faz Pierre Pain dizer que não conhece nenhuma palavra em espanhol_, sendo essa a primeira de uma multidão de suas obras cujos cenários são europeus, mexicanos, africanos, e cujo registro temporal varia da segunda guerra ao gansgsterismo e à violência subliminar sofrida pelos despatriados das ditaduras latino-americanas. Bolaño desde essa obra já deixa claro o seu distanciamento aos dogmas da literatura latino-americana, já se comporta como o que transita na contramão das restrições inerentes mesmo na mais alta produção dessa categoria de criadores vinculados a suas emotividades telúricas e a seus dengos líricos de raça. 

Em sua guarita de guarda noturno, onde aproveitava o muito tempo livre para escrever sobre as andanças sem rumo de Pierre Pain, Bolaño ousava não falar sobre o Chile, não vestir a camisa do Chile, não desfilar nas fileiras das muitas coalizões partidárias que lotavam a realidade fatual dos países latino-americanos do final da década de 70 e o imaginário cobrado pelos leitores de Vargas Llosa, Garcia Márquez e Manuel Scorza, que queriam passar férias virtuais através da página agridoce nos povoados ensolarados onde dormia a siesta o macho pós-colombiano rigidamente patriarcalista. Escreveu, ao contrário, sobre as atmosferas caras a Poe, a Kafka, a Chesterton, a Robert Walser, dando-se ao luxo nada modesto de mitificar uma Paris apenas para si. Anos mais tarde ele responderia que o romance de gênero tem pouca proeminência na América Latina por sermos subdesenvolvidos, à sua maneira já registradamente bolanesca, de quem com esse destemor também anda solenemente na contramão de outra das perniciosidades das letras locais em ser excessivamente elogioso para os escritores de província que traçam a soldo os perfis do coronelismo político. 

Assim, Monsieur Pain é um romance de gênero, mas, como nos filmes dos irmãos Coen e no Zodíaco  de David Fincher, oferece voluntariamente o anti-clímax que invalida o propósito do gênero. É sem sentido falar qual o enredo de Monsieur Pain. Trata-se de uma novela policial na qual os elementos são um a um jogados para fora do tabuleiro, até que o clima de aridez resultante dá a impressão de que o conteiner de tempo criado na mente do ficcionista é regido pela mesma força do ocaso sem sentido que impera sobre a realidade corrente. É inútil sabermos que Monsieur Pain é uma espécie de prestigitador, adepto do mesmerismo, chamado para curar uma vítima de soluços, e que se vê enredado numa atmosfera de nonsense e mistério cujo único nexo resultante entre os envolvidos é serem parados, de uma ou outra maneira, pelo muro eventual da segunda guerra (a história toda se passa no ano de 1938). 

O que importa, neste que é o melhor dos romances curtos de Bolaño (ombreando com Noturno do Chile), é justamente as qualidades que vem do que uma leitura apressada poderia dizer serem os defeitos da obra: a sua ingenuidade mimética da erudição do autor sobre o universo literário, a enganosa inconclusão_ ou, melhor dizendo, a sua extrema prepotência em emoldurar tudo num conjunto de símbolos, recorrendo mesmo a um compêndio faulkneriano para mitificar o trivialismo trágico do destino dos personagens após o término da narrativa; a sua vaidade em aproveitar o rendimento de cenas isoladas, sem que essas se apeguem diretamente à história. Os diálogos deste romance são tão bons que se desculpa ao autor pelas extensões de cenas, assim como a escrita que o Bolaño jovem utiliza nesta obra é tão eivada de passagens da mais alta lucidez poética que é um prazer ver o Bolaño saindo dos cadernos de rascunhos para a vida visceral da escrita verdadeira. Bolaño, por mais que mostre seus utensílios de ofício aparecendo por debaixo da cortina, não titubeia, não artificializa, não revela nenhum par de pernas de desconsolado lactente em seus passos rumo ao horizonte ainda longuínquo de suas duas obras principais. Bolaño é aqui um romancista genuíno, com todo o conhecimento do ofício, a ponto de ter plena consciência de para quem esse demônio que retira de dentro de si é dirigido. Monsieur Pain, neste sentido, por mais que seja gratificantemente meio alienígena ao notório Bolaño das obras maiores, é uma prefiguração a todos os caros temas do chileno. A contínua asbtinência e negação de Pierre Pain no final do romance é um prenúncio a Ulisses Lima e Arturo Belano, a Benno von Archimboldi, e os quatro anos a mais que dura a vida do personagem após o fechamento das cortinas consegue produzir aquele impacto dissonante que revela uma surda premonição do destino do homem que nasce no século XX, e morre em anos posteriores derivados. Não é pouco a insinuação de que, mais uma vez, em palavras truncadas, Bolaño não fala senão da América Latina.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Sabres e Utopias, de Mario Vargas Llosa


Certo fetiche pela contradição entre as ações e opiniões do homem que está por detrás do escritor, e a obra escrita do escritor, parece fazer parte das zonas de interesse que o leitor médio nutre em relação à literatura. O leitor médio, que abrange desde o ocasional seduzido pelas listas dos mais vendidos das revistas semanais, até o professor de universidade altamente titularizado, percebe com uma passionalidade cristalina o fino limite  existente entre literatura e as colunas de fofoca. E esse último tipo de leitor médio, que ingressa nas universidades e vai obtendo todo mérito mensurável que os diplomas de  letras douradas conseguem legitimar, é o que mais serve a abranger o fetiche pelo lado das fotos em que tal escritor, às vezes barbado, às vezes de terno social sóbrio ou casaco descolado por sobre camisa de gola aberta, aparece, ao lado de ministros de estado, ditadores, papas, presidentes, altos dignatários do partido, sempre com sorriso do mais concentrado alheiamento quanto ao que os holofotes e os grandes jantares requintados podem trazer de disparidade à raiva, à revolta, e à condenação intelectual a essas situações que  fizeram artisticamente interessantes seus romances, ensaios e contos. É como se o homem por detrás do escritor detivesse, com a prática social obtida pela fama, uma percepção mais realista e adulta do que a verdade política tem a oferecer, que o escritor, afundado em sua solidão onírica e juvenil, não consegue visualizar. E é esse escritor que costuma obter o aval da perpetuidade junto à cátedra universitária estabelecida, pois o leitor médio que se elevou às alturas do doutorado se delicia na mesma medida com a propensão  que tem o homem das letras ao glamor emprestado dos jogadores de futebol e dos cantores de música pop.

Tudo o que foi dito no parágrafo acima adquire uma qualidade sui generis quando se trata da América Latina e, especificamente, do Brasil. Por aqui, o leitor médio universitário, que passaremos a chamar de agora em diante como especialista acadêmico, tem a imensa incapacidade de separar a literatura da política. De forma que mesmo a literatura política, para o especialista acadêmico, tem necessariamente que vir carimbada com o selo de garantia da ortodoxia de esquerda. E, como a esquerda latino-americana é mais uma região temporal estática do que um conjunto de posicionamentos ideológicos quanto à política e ao Capital, o escritor de valor para o especialista acadêmico é aquele que defende acirradamente a canção ouvida com o coração enfebrecido no conteiner do passado em que, facilmente, se distinguia os bons dos maus, os opressores dos oprimidos. Quando se fala romancista de esquerda latino-americano, o especialista acadêmico, que viveu naqueles anos dourados, ou é filho ou neto do portador da experiência, já vê o ícone da sagração à sua frente, uma espécie de velho soldado que retornou glorioso de uma batalha de resgate da alma patriótica e merece a aposentadoria digna da genialidade incontestável. Por isso é compreensível que nada haja de pior e mais desprezível para o especialista acadêmico do que um desses escritores resolver trair o eclesiastismo do passado, a causa e os jargões do discurso de esquerda intensamente solidificados. O escritor ou intelectual ou artista ou ativista político que, por uma ou outra razão, se diz emancipado dos baluaques da tradição esquerdista, é taxado sem piedade e sem nenhum nuance como adepto da ultra-direita, neoliberal reaganiano, cachorro do imperialismo norte-americano, inimigo dos pobres, promotor de todas as mazelas multitudinárias do subdesenvolvimento latino-americano, das crianças famélicas das favelas, às prostitutas das periferias.

O exemplo do escritor esquerdista respeitado é Gabriel Garcia Márquez, que Roberto Bolaño bem definiu a um entrevistador o que o colombiano lhe representava: alguém que gosta muito de ser visto ao lado de ditadores e padres. O exemplo do escritor que deve ser desprezado e relegado mais cedo ao esquecimento, é Mario Vargas Llosa, que, já que citamos Bolaño, era seu escritor hispano-americano preferido. Mas esqueçamos Bolaño. García Márquez há 28 anos que não escreve nada de interessante, porém, sempre que é citado pelas revistas e intelectuais de esquerda, sublinha-se as qualidades geniais da última obra em questão que esse senhor hoje octogenário manda ao prelo. Assim, quando a tradução de sua novela de menor calibre, Memórias de Minhas Putas Tristes, foi lançada por aqui, a Carta Capital, sob a pena de Miguel Sanches Neto, disse com todas as letras que esse livro, que não se sustenta nem mesmo entre a produção mediana do escritor, era "obra prima da literatura universal". Já Llosa, ao ganhar o Nobel do ano passado, recebeu uma série tão pesada de críticas depreciativas, não por uma publicação recente ou algum volume específico, mas por toda a sua obra e, acrescenta-se, por sua figura humana. Aliás, em alguns blogs, a própria humanidade do peruano foi colocada em dúvida. Os mais cordiais comentários sobre o autor de Conversa na Catedral lamentam que alguém que escreve tão bem seja um "monstro moral", que seja o "Céline das letras latino-americanas". Ernani Ssó, num texto re-publicado neste blog, relata o quanto foi penalizado pelos amigos ao ser flagrado relendo Llosa, "o que você está fazendo lendo esse lixo!", uma repreensão tão carregada de carimbo de mácula como se lhe pegassem com um álbum de fotos de pedofilia.

E isso porque Llosa, já no final da década de 1960, renegou a versão marxista-leninista-maoista praticada em diversos países da América Latina. Isso porque Llosa encabeçou uma famosa Carta a Fidel Castro, co-assinada por dezenas de intelectuais (entre eles Juan Rulfo, Jean-Paul Sartre [!!], Alberto Moravia, Jorge Semprum e Italo Calvino), que repudiava as confissões de culpa forjadas por Fidel, e assinadas sob o cano da baioneta por dissidentes do regime cubano, carta que foi o estopim para que Llosa deixasse peremptoriamente os sonhos da esquerda congelada nos cantos de glória temporal, e se tornasse um crítico incansável do quanto esses regimes ditos democráticos e derrubadores de tiranos repaginam as situações de extermínio, censura ideológica, estagnação social e atraso econômico cruentos, que eles pregam terem derrubado dos governos de direita do passado. Esse Llosa que resolveu, durante um longo período de crise ideológica, olhar a fundo e sem eufemismos a classe insurgente de patriarcas populistas dos regimes de esquerda conquistados pelas arma, nos vários países da América Central e do Sul, e ampliar essa visão no embasamento teórico de críticos do marxismo como Jean-François Revel, Isaiah Berlin e Raymond Aron. Esse é, enfim, o escritor maldito da esquerda latino-americana, o pensador taxado com a marca denigritória na testa, o anti-herói da mentalidade formada pelas camisetas do Che e pelos bonés de estrela vermelha, o boneco malhado nas salas de aula dos cursos de letras, onde os líderes do gosto e da assimilação da verdade impõem do alto da cátedra que deva ser diminuído, desprezado, combatido como uma piada de péssimo gosto e fraqueza moral.


E ninguém dessa esquerda se dispõe a ler o compêndio da reviravolta ideológica de Llosa, publicado no Brasil pela editora Objetiva, intitulado Sabres e Utopias, para colocar à prova a real perniciosidade do morto. O volume, uma compilação de ensaios políticos e literários do peruano, selecionados por Carlos Granés, traz, em didática ordem cronológica, o posicionamento de Llosa, desde de um otimismo cauteloso _ nunca exultante_ quando da célebre noite em que Fidel Castro o recebe em seu palacete em Havana,  pouco depois da revolução cubana, junto a uma turma de jornalistas e escritores, para anunciar que nenhum jornal seria fechado ou censurado em Cuba, até a sua virada para o liberalismo em que se alavanca a acusador das ditaduras repressivas de Cuba, Haiti, Peru e Venezuela. Ler Sabres e Utopias é se submeter ao risco de ter que abrir mão do rótulo que anula o problema, e se prestar a entender a história da América Latina por um ângulo em que não se antepõe o filtro ótico da utopia política da esquerda, se vulnerabilizando a descobrir que o Llosa demonizado é, talvez, o pensador mais equilibrado e lúcido da América Latina, o único que se ombreia às formas de reflexão desatreladas dos moldes ideológicos impostos pela correção acadêmica e  vínculo partidário, com outros intelectuais que "dizem a verdade" ao poder (na frase cunhada por Edward Said), em qualquer extremo do prisma político, como Coetzee, Naipaul, Ohram Pamuk (que lhe escreveu um belo ensaio em Outras Cores), Chomsky. Como bem diz Carlos Granés, no prefácio do livro, a sucessão de declarações de Llosa revela o quanto seu interesse é "a luta instintiva pela liberdade", e nenhuma palavra cabe tão bem aqui que "instintiva", pois Llosa mostra nessas 400 páginas o quanto foi guiado por uma observação decantada de veneração dos homens que estavam ou estão à frente das nações latino-americanas.


Cada um desses ensaios tem uma riqueza própria, uma pedra de toque que reafirma o talento de prosador e analista humano de Llosa. No ensaio que abre o volume, O País das Mil Faces, publicado em 1983, Llosa traça um panorama sentimental do Peru, desde Arequipa, sua cidade natal _ confrontando os alicerces mentais do litoral com o centro/periferia_ até Cuzco, dizendo o quanto essa capital do império inca lhe parecia horrivel, e o quanto "já tenha odiado o Peru, esse ódio, como no verso de César Vallejo, foi sempre impregnado de ternura". Llosa utiliza sua memorialística subjetiva da infância para tornar esse ódio terno uma oposição sensível à mazelas morais e políticas do país, indo contra a tradição do subdesenvolvimento de as investir de um caráter sagrado e patriótico. Nega-se a adotar o vínculo espiritual à terra, e assim se anular intelectualmente, e a condena em tudo aquilo que o eco do enquadramento da dominação ideológica afirma ser o dever do amor à bandeira e à co-sanguinidade nacional. Consegue um nível de acidez quase tão apurada nesse ódio quanto Thomas Bernhard em relação à Àustria, e Roberto Bolaño em relação à toda América Latina.


Em um ensaio sobre Omar Torrijos, reconhece o empenho sério desse general carismático em converter o prêmio do canal em benefício da diminuição da desigualdade social do Panamá,  nessa que é a última entrevista dada por Torrijos antes que a sua determinada oposição à dominação norte-americana o levasse à morte. Não era seu tipo de político, Llosa diz, mas o apartidarismo de Torrijos, sua facilidade despreconceituosa de fazer amigos, o permitia angariar o melhor a seu projeto tanto de "Fidel Castro, o Xá, Carlos Andrés Pérez, Jimmy Carter, os sandinistas e Nelson Rockfeller (que o presenteou com dois helicópteros no dia em que o conheceu)".


 Mas a parte mais esclarecedora de Sabres e Utopias, se compõe dos nove ensaios do capítulo 4, intitulado Em Defesa da Democracia e do Liberalismo. Só o ensaio Confissões de um Liberal, já serviria a propôr um diálogo construtivo com quem se opõe às ideias de Llosa. Só esse ensaio já vale o preço do livro _ e olha que a carga de atenção política na verdade esconde os textos deliciosos sobre literatura que o organizador reserva para o capítulo final_, mostrando o quanto a maior parte dos especialistas acadêmicos está despreparada para um eventual debate sério com o autor. Aqui, Llosa expõe com todas as palavras que liberal é um conceito impossível de ser entendido independentemente das tensões geográficas e históricas de cada ponto do conflito político.

"Aqui, nos Estados Unidos", ele escreve, "e em geral no mundo anglo-saxão, a palavra liberal tem conotações de esquerda e se identifica, às vezes, com socialista e radical. Em compensação, na América Latina e na Espanha, onde a palavra liberal nasceu, no século XIX, para designar os rebeldes que lutavam contra as tropas de ocupação napoleônicas, chamam-me de liberal _ ou, o que é mais grave, de neoliberal_ para me demonizar ou para me desqualificar, pois a perversão política de nossa semântica transformou o significado original do vocábulo _ amante da liberdade, pessoa que se levanta contra a opressão_, substituindo-o por conservador e reacionário, ou seja, algo que, na boca de um progressista, significa cúmplice de toda a exploração e das injustiças de que são vítimas os pobres do mundo."


Nas próximas páginas desse ensaio, Llosa desconstrói os aguilhões conceituais que matam a discussão sobre o liberalismo, mostrando-o não só como a opção mais válida para os problemas da democracia de faxada da América Latina, em que restringe a possibilidade da demência dos governos ditatorias, como mostrando também que os países por aqui que estão tendo um verdadeiro progresso político e econômico são os que se desvincularam da praxe dos dogmas da esquerda e abraçaram uma posição francamente reformista e alinhada à política mundial (o que se entende imediatamente como globalização). E o duro é que, mesmo tendo-se várias reservas a se antepôr a Llosa, o que seria a promoção do debate, há pouquíssimos caminhos de argumentação contrária. "Embora a palavra liberal seja um termo negativo que todo latino-americano politicamente correto tem a obrigação de abominar, o fato é que, de algum tempo para cá, ideias e atitudes basicamente liberais começaram também a contaminar tanto à direita quanto à esquerda nesse continente das ilusões perdidas", ele escreve. Mais à frente, lemos:  "Mas esses dois casos (Chaves e Castro) são exceções em um continente no qual, vale a pena destacar, nunca no passado houve tantos governos civis, surgidos de eleições mais ou menos livres, como agora. E há casos interessantes e alentadores, como o de Lula, no Brasil, que, antes de ser eleito presidente, apregoava uma doutrina populista, o nacionalismo econômico e a tradicional hostilidade da esquerda em relação ao mercado, e agora é um aplicador da disciplina fiscal, promotor de investimentos externos, da empresa privada e da globalização". Alguma dessas palavras não se encaixa no retrato da verdade?


Pode-se não concordar com diversas partes do discurso de Llosa, como o autor deste post não concorda _ salientando que nenhum escritor almeja a concordância absoluta_, mas é uma ignorância extrema subjugá-lo por ordens que vem das sumidades ditas sofisticadamente cerebrais da opinião acadêmica especialista. É uma perda que só se volta contra a classe pensante não ouvir o que o Mario Vargas Llosa escreve, e não o que dizem que ele escreve, pois Llosa, apesar de não definir bem a importância da revolta social, envolvendo-a de certa ambiguidade desqualificadora, apesar de não mostrar os possíveis freios de uma democracia futuramente equilibrada na liberdade do liberalismo, ao avanço do império global (seja dos EUA ou de que país da hora fôr), é o intelectual desse continente mais coerente, sagaz, independente e corajoso, o mais abnegado politicamente, sem vínculos partidários ou de outros corpos de ofício. Ao contrário de Garcia Márquez, que se tornou peça de adorno de Fidel Castro (o mesmo Garcia Márquez que escreveu uma das radiografias mais certeiras da ditadura latino-americana, em O Outono do Patriarca), Llosa mantêm a solidão requerida para que o escritor crie, longe dos holofotes que tanto agrada aos especialistas acadêmicos. E foi uma das únicas vozes que antecipou o terror que seu oponente vitorioso, Alberto Fujimori, iria causar ao fechar o congresso e destruir o legislativo, impondo no Peru mais um passo repaginado do caminho lógico que adoça a boca da esquerda diante ditadores sacramentados. Na tradição de conivência e omissão que as letras desse continente possui, só isso já é muito mais que fez Pablo Neruda ao afirmar que não poderia criticar os assassinatos cometidos na União Soviética revelada, por ter amigos no sistema, e Garcia Márquez, ao fazer que não viu o paredón de execução de Fidel Castro aos poetas e escritores que o criticavam.

sábado, 27 de novembro de 2010

Estrela Distante, de Roberto Bolãno

Por Charlles Campos


 O que poderia haver de errado, nesse começo de século pouco promissor para a literatura — no qual Norman Mailer lamentou que tudo pelo qual sua geração de intelectuais lutara tenha fracassado, e onde as mesmas formas eternamente combatidas de dominação tenham obtido uma vitória incontestável sobre qualquer resistência contrária — , com o fato de Roberto Bolaño ter sido escolhido como objeto de acirrada adoração pela mídia cultural mundial? Nessa época desencantada dos ilimitados milagres da eletrônica, onde Philip Roth vaticinou que a próxima geração a surgir trará incutida no gene o fim do interesse pela leitura, não é espantoso que o romance de mil páginas “2666” já tenha vendido mais de 23.000 exemplares em Portugal? E que “Detetives Selvagens” tenha movimentado o competidíssimo mercado editorial norte-americano; e que os outros livros de Bolaño já sejam por lá tidos como potenciais clássicos de um escritor genial? E o que poderia ser mais esperançoso do que vermos Bolaño ocupando o centro de vários debates culturais pelo mundo, seus livros aparecendo mesmo em locais exórdinos como na mala de viagem do apresentador da Globo Zéca Camargo ( que levou “A Pista de Gelo” para o acompanhar nas filmagens pela Tailândia, demonstrando os critérios práticos da simplificação de sua escolha)?

Mas essa iconização, por outro lado, é o reflexo de outros aspectos não tão festivos do atual momento cultural por que passa a América Latina. À exceção de Bolaño, de qual outro escritor latinoamericano se ouve falar com a mesma persistência? O cenário mostra-se desconcertantemente desértico, ainda mais em comparação à profusão de nomes de valor que existiam há cinquenta ou quarenta anos. A acreditarmos na tendência — o emprego de tal palavra talvez seja o mais maneirista dos eufemismos — do definhamento da escrita, essa espera pelo desaparecimento dos últimos grandes escritores sem que se veja o natural surgimento de uma geração que os substitua, é uma realidade não só das Américas, mas universal. Não que os escritores apareçam obedecendo a u ma determinada sistemática providencial, ou são produzidos em série para, no momento devido, virem com a resolução para os conflitos da pobre humanidade desgovernada. Mas o que ocorre é que o prognóstico lançado por Mailer, Roth, Vargas Llosa e uma dezena de outros escritores, sobre o futuro inglório que eles não verão , parece se encaixar com perfeição nos estágios velozes da técnica que já nos pegam pela frente, onde a escrita se torna irrelevante e descartada, e, com isso, o pensamento crítico, as nuances lingüísticas, a contestação às doutrinas dominantes, o reconhecimento de uma dimensão mental independente, a lentidão necessária para inteirar-se da constituição espiritual morta por fora pela extenuante falta de tempo da escravidão dedicada às empresas, ao Estado e ao modus operandi de consumidores infinitos.

Se a efervescência intelectual é expressão produzida pela intolerância alcançada aos conflitos históricos, como vemos os poderosos escritores surgidos na Rússia czarista, nos memorialistas do extermínio da Segunda Guerra mundial, nos inconformados contrários ao bezerro de ouro do capitalismo norte-americano, nos refugiados hispano-americanos que acusam as ditaduras assassinas em seus países, não há momento mais legítimo para a imposição da voz do que o que vivemos hoje. Se a desgraça crônica explode no desenvolvimento de pessoas comuns em contestadores que escrevem grandes livros, o estágio atual de desgraças seria mais que justificável para a descavernização desses anônimos, a fim de instigarem aos demais míopes silenciados as possibilid ades de um mundo lá fora.

E é aqui que a carga relegada a Bolaño demonstra-se demasiado pesada. Bolaño, em decorrência da degradação de sua saúde e da conseqüente falta de tempo para amadurecer sua escrita, aceitou resignadamente o trabalho que tinha e, como o albatroz com as asas quebradas, desmoronou-se em desistência para o interior de sua imensa depressão. E ficou com toda a soberba constituição de pássaro majestoso, mas incapaz de disfarçar para si mesmo o pouco tempo que lhe restava, e o quanto isto lhe destruiu a capacidade de ver com abrangência. Não venham me dizer que a proximidade da morte cause essas coisas; quase pela mesma época, Edward Said compunha sua biografia e um volume de ensaios onde se negava a afastar uma revificação solar de todas as idéias humanistas de seus outros livros, ele que também via o fim irrevogável se aproximando.


Bolaño não estava apto a continuar a resistência contra os antigos poderes de dominação vigentes e mais poderosos do que nunca na América Latina: a política patriarcal, a mídia a serviço desses poderosos, a grande alienação e o expansivo silêncio. (Não se mostrou apto a incorporar o intelectual que fala a verdade ao poder, na definição ativista de Said.) Resistência que se fazia com uma militância romântica (hoje tão anacrônica em suas singelas tentativas, que de imediato é taxada de ingênua e demagoga) pelos escritores do assim chamado boom da literatura hispano-americana: Miguel Àngel Astúrias, Juan Rulfo, Mário Vargas Llosa, Rômulo Galegos, Júlio Cortázar, Manuel Scorza, o jovem García Márquez.

Com seu nome valorizado nos mais altos índices de graduação pela crítica estrangeira como representante da atual intelectualidade latino americana, o seu quietismo raivoso, a sua falta de fé, o seu queixume derrotado, alinha-se ao pesado silêncio que mais uma vez assola nosso continente. E Bolaño é tanto mais decepcionante por sua desistência por não se poder dizer que os escritores atuantes em outras regiões do planeta perfaçam a mesma entrega de pontos e pacificação resignada; é só ver Ismail Kadaré, Amós Óz, Ohran Pamuk, Mia Couto, entre outros. J. M. Coetzee, por exemplo, continua insurgindo com uma revisão desafiadora contra o instituído ponto comum e politicamente correto em que coube calar a questão da guetização do negro e da miséria ainda reinante sob a edulcorada versão oficial de uma África redimida e liberta pós Nelson Mandela (como no magnífico romance-palestra “Margareth Costello”).

A crítica que cabe a Bolaño é a mesma que em outra época e sob óticas diferentes, D. H. Lawrence fez a Joseph Conrad, não perdoando por este ser um escritor tão inexoravelmente triste. Com todo esse potencial para o fantástico, e cedendo na primeira investida às formas aterrorizantes da falta de perspectivas do mundo real, era o que estava dizendo Lawrence, lamentando que a música bombástica da prosa exuberante de Conrad o engolisse antes que o arrebatasse para fora da cadeira. O que pode alimentar a interpretação de que os trópicos seja um cinturão global cujos atributos coincidentes são o desespero, a apequenização e o silêncio.


Bolaño, com seu estilo que parece ser independente de qualquer influência, sua profusão de histórias, seu talento em revirar a trama inúmeras vezes, seu humor surpreendente, suas frases que aparecem aqui e ali no relevo do coloquialismo como sentenças borgeanas, o que vemos é seu receio em mitificar, em ir além. Suas narrativas são todas sobre exilados que, mesmo professando a mais difícil e anti-moderna das artes — a poesia — , ainda assim são imediatamente descartados como poetas medíocres, mais uns versejadores outsiders que vão se silenciando e rendendo ao suicídio, à doença ou aos aspectos comezinhos da vida cotidiana. Em determinado momento de “Estrela Distante”, o narrador declara que o Chile ainda não está pronto para a poesia.

Os intelectuais que erram pelas páginas de seus livros não estão motivados a transformarem céu e terra, a bradarem seu canto selvagem sobre os telhados do mundo — mesmo que sempre quebrando a cara no final — , como os personagens de Saul Bellow; também não visam o sublime, como os desesperados que se apartam da mesquinharia mundana para seus territórios artísticos pessoais, como o dos livros de Thomas Bernhard. Seus personagens não tem o firme estoicismo intelectual dos de Philip Roth; ou o prosaísmo quixotesco dos de García Márquez; ou o provincianismo que conlui o submundo bairrista da infância com a experiência do militarismo regimentar dos livros de Vargas Llosa. Os seres de Bolaño não se encaixam nem ao mais niilista dos existencialismos; vivem apenas uma pobre e levianamente documentada aventura de passantes. Não existem dois personagens mais anêmicos e inexpressivos que Arturo Belano e Ulisses Lima.

Eu não perdoo que Bolaño seja tão triste. Quem lê “Putas Assassinas”, sai com a certeza de uns três ou quatro contos realmente muito bons, mas com uma sombra na alma que leva dias para desaparecer. Poderão me dizer que mexer com um material tão emocionalmente radioativo como a literatura é tarefa para quem tenha estoicismo suficiente para suportar doses cavalares de desencanto. Mas eu saio revitalizado depois de ler Bernhard, Beckett e Céline (para citar três escritores do desencanto). Ler “Extinção”, “Origem” e “Viagem ao Fim da Noite”, é percorrer uma indignação festiva, uma repugnância que recorda sempre a força de contestação juvenil, a desconstrução de toda certeza e gratidão imposta pela farsa da sociedade equânime; é literatura adrenérgica e viril, que, dependendo da época, deve ser naturalmente reprimida pelo sistema que estiver vigorando.


Já o Chile, Pinochet, as andanças sem rumo pelo México e pela Europa — até as cenas espetaculares numa guerrilha africana que aparece em “Detetives Selvagens” — , são incapazes de romper o isolamento de Bolaño; essa violência mundana não consegue suscitar nele nada mais que o aproveitamento, sob a devida distância, de matéria para sua prosa documental. Um conto de três páginas de Cortazar, “Grafite”, faz mais pela indignação, a denúncia e reação, do que “Amuleto” e aquelas últimas páginas de “Detetives Selvagens”. “Estrela Distante” vai mostrar mais uma vez isso, com um número inédito de aberrações e corpos mutilados, de que Bolaño renunciara à política, à filosofia e à poesia, e o resultado é um livro competentemente limpo de qualquer transcendência em qualquer sentido. O único símbolo sutil perceptivo é deixado à deriva, como se Bolaño, com seu cigarrinho entre os dedos, mandasse às favas o trabalho que daria dar escopo ao inteligente esquema do personagem central ser um serial killer. Como em Detetives, em que ele não consegue mitificar a procura por 600 páginas pela Cesária Tinajero, ele também não passa ao leitor aquela indagação após fechar o livro de “o que diabos ele quis dizer com aquilo?” O poeta fascista assassino Carlos Wieder representa o que? Bolaño não constrói vínculos inteligíveis em que se possa dizer: “Ah! É a desumanização que a rendição à ditadura causa!”, ou “Ah! Cesária Tinajero é o símbolo da liberdade perdida!” A prosa de Bolaño é indevidamente rarefeita numa época em que a literatura precisa de mais para prosseguir.

Mas vale lê-lo? Vale! Cada centavo empregado! Não sei se Bolaño é um grande escritor. Estou propenso a pensar o contrário, o que seria uma contribuição à mesma mitificação que favorece ao setor das compras antes do deleite da leitura. Um dos melhores livros que li foi escrito por um autor menor, “Pergunte ao Pó”, do John Fante, e pouca coisa há de mais singela que Arturo Bandini (que coincidência!) atirando seu livro publicado em direção às areias do deserto da Califórnia. Não estou dizendo que Bolaño seja medíocre. Mas contra a comercialização desarroada de sua imagem (que só imponho reação quanto às possibilidades críticas, e não contra o quanto se consiga vender de seus livros — é um aspecto de raríssimo otimismo ver Bolaño ocupar algumas listas de mais vendidos), eu creio que o Bolaño verdadeiro é aquele da foto e m que aparece sentado atrás de uma mesa atulhada de papéis, com o olhar perdido para dentro de si mesmo, frágil, solitário, equilibrado com seu cigarrinho eterno na fina linha de sua vida, com a cabeça cheia da música mais angustiante.

(Publicado originalmente no blog do Milton Ribeiro. Seleção de imagens: Milton Ribeiro)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Algo Próximo a Intimidade


Tony Judt

Eu estava na livraria Cultura quando me veio a notícia da sua morte. De imediato não reconheci a figura da foto que indicava o morto, seu crânio liso completamente calvo, seu olhar que me parecia guardar ainda segredos de sedução cuja imagem de misantropia que lhe impigiram a imprensa mundial tornava improvável qualquer outro traço de personalidade que não fosse a do contestador supercerebral, o revisionista implacável. Por debaixo do terno fino, porém, fazia-se perceber a firmeza muscular de um lutador de jiu-jitso, que não sei se realmente o fora, mas que suas declarações de saúde, as longas caminhadas e a esnobe força taurina, dava a impressão que sairia bem com um dos da família Gracie no tatame. Quando li na Carta Capital, então, as várias linhas dedicadas ao elogio de suas conquistas intelectuais e de até onde alcançara a antipatia de sua pouca importância à opinião massificada, minha memória antecipara a averiguação de quem era o senhor da foto. No meio do círculo miúdo de leitores na revistaria da loja, eu disse em voz alta: porra, morreu o Tony Judt! No meu histórico de escritores mortos, nunca me acontecera até então perder o escritor durante a leitura. Estou em menos da metade de sua grande obra, "Pós-Guerra", e não deixa de ser uma espécie de orfandade saber que as próximas quinhentas páginas já não contam com a possibilidade da interferência interativa do autor, que mudaria alguma ideia ou opinião circunstancial nas futuras edições da obra. Acabara a latência por detrás das palavras e tudo agora se solidificara numa proeza pela qual seus inúmeros detratores esperarão desgastar o verniz da morte para criticar acirradamente o que ele escrevera em definitivo.

Não havia lugar mais sintomático da tristeza que me causara a notícia da morte de Judt do que um shopping center. Não há um lugar mais apropriado para se achar que é um mero exagero, e um isolamento esnobe, lamentar sinceramente que tenha morrido alguém que só existira num tipo de vivência interna, alguém que adotara, no máximo, uma intimidade cuja vida dependia apenas da voz que meu cérebro conferira às suas palavras. Era como se entristecer com a morte de Homer Simpson. Ou como as lágrimas não de todo poupadas do constrangimento quando aquelas pétalas caídas sobre Macondo decretara o luto a José Arcádio Buendia. E era tanto maior essa auto-averiguação de uma tendente falsidade quando, na fila do caixa, não parecia que minha dor (dor??) era mais genuína e tinha maior direito à legitimidade do que os velhos costumes exibicionistas que se vê em uma livraria, num domingo lotado em que do lado de fora daquela babel do consumo haviam tendas gigantescas, com palco e carros de som alimentando uma quantidade multicolorida de pessoas vestidas com abadás. Os semblantes impávidos diante os manuais de direito; as conversas em voz alta não de todo indiferentes aos demais passantes sobre o melhor livro especializado em câncer; uma distinta senhora que falava com um português impecável à vendedora, anunciando ter lido de tudo de Orhan Pamuk. Eu sou vigilante demais para cair nessas imposturas, mesmo que perfeitamente inocentes, para ter me deixado ao livre balanço do choque que a morte de Judt me causara. Levo a sério aquela prédiga denunciadora do faresismo para ficar orando em praça pública, mostrando minha penitência a todos os donatários da velha colônia. O "Crime e Castigo", da editora 34, que segurava na fila, tinha a capa voltada para mim. Ter a tradução do Raskolnikov do Paulo Bezerra nas mãos envolvia a mesma fidelidade romântica de sair com a garota mais bonita do colégio não para confirmar a súbita ascendência social que essa sorte estupenda trás, mas para dar o livre curso da possibilidade de um amor sincero a tudo de delicadamente autêntico e secreto que há por debaixo daqueles exorbitantes atributos corporais.

Só conheço Judt há três meses, quando li "Reflexões sobre um Século Esquecido". A sua aparência de judeu férreo, trabalhador invergável, transparece em cada frase desse livro. Amós Óz certa vez fez um paralelo elucidativo entre o leitor atento e o leitor leviano. O leitor leviano vê em Nabokov o pedófilo enrustido, em Philip Roth o masturbador edipiano, em Anthony Burguess o homossexual lascivo; procura apenas os detalhes que ele possa tornar visivelmente retumbantes em uma obra complexa que oferece muito mais. De uma manifestação espiritual, o leitor leviano aproveita à sua maneira apenas os miasmas que possam divertir a carne mimadamente ofendida. O leitor atento, claro, é o oposto. Tony Judt tem uma série de apreciadores, mas também circundam em torno dele profissionais acadêmicos, políticos e da imprensa, comprometidos com várias causas particulares e cargos de ofício para serem seus infamadores incansáveis. Insistem , mal intencionados, em verem nele um detrator inconsequente.

 Em "Reflexões", realmente, Judt deixa pouquíssimas instituções e entidades em pé. Alguns são óbvios candidatos perenes à reavalição de suas importâncias históricas, como Kissinger, Nixon, Toni Blair, Margaret Thatcher, Kennedy. Outros, contudo, ainda são baluartes com elevada segurança para que alguém se aproxime sem fazer soar um alarme. E são estes que a proposital má interpretação de apanagiados de diversas vertentes do poder quer confeccionar uma imagem de irascividade iconoclasta em Judt. Pois dizer que Hobsbawm, apesar de confirmadamente ser um grande escritor e o maior historiador do século, é levianamente omisso em seu trabalho historiográfico sobre os crimes dos regimes de esquerda, não é descartar a importância de um intelectual do gabarito do alexandrino. Afirmar que Hannah Arendt não é uma filósofa, na acepção consistente e tradicional do termo, não só condiz com o que a própria Arendt dizia, como também, em desenvolvimento analítico, reafirma a vocação dessa pensadora em ser desatreladamente independente. Em contraposição, Judt recupera a afeição global de um Albert Camus injustamente enroldado à figura de Sartre, para dar-lhe por direito seu lugar entre os maiores narradores do século XX.

Mas são os fortes textos políticos que revelam o temor gargulesco que as visões instituídas sentem por Judt. Sobre Israel, ele desmascara o golpe de astúcia que esse estado cometeu na guerra dos seis dias, um tiro de aposta na apiedante visão de vítimas eternas da Shoá que saiu pela culatra e trouxe o decadentismo de uma nova imagem de assassinos sem restrições aos líderes israelitas. Sobre a auto-imagem alienante que os EUA fazem de si mesmos, Judt mostra o quanto a historiografia norte-americana sobre a guerra fria é ufanista e cheia dos ressábios imperialistas, desconsiderando a verdade e os demais países envolvidos. Judt faz, tanto no prólogo quanto no último capítulo, uma síntese da dominação neoliberal, do emburrecimento progressivo da espécie humana, da falta de oposição consistente ao fim do estado previdênciário e às garantias contra uma realidade cada vez mais presente em que as empresas acabrestam o cotidiano dos homens e mulheres. Nisso a explicação do título de século esquecido, na repetição criminosamente  "inocente" dos erros do passado recente.

Na fila do shopping, lembrei-me de uma crença cósmica de um amigo que acredita em um universo espiritual inapreensível, chamado Dragões e liderado pelo espírito pérfido de um Savonarola desencarnado, cujo único propósito é a conspiração contra o desenvolvimento da espécie humana.  Talvez seja a imponência novamente esguia do padre dominicano que tenha determinado aos nossos algozes invisíveis que em dez anos tenha morrido Edward Said, Bolaño, Sebald e Tony Judt. Talvez esse número esporádico e cada vez mais reduzido de representantes capazes de nos retirar da bestialidade, enviados por uma contra-força cansada, seja realmente preocupante para toda uma galáxia de funcionários treinados para a manutenção de nosso atraso. Mas interrompi essa elogiosa divagação para atender ao pedido de uma elegante mulher de lhe passar a Playboy com a filha do Fábio Júnior na capa.