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domingo, 8 de dezembro de 2024

Abrigo

Dos 17 até os trinta eu tinha só dois livros. Lord Jim, do Joseph Conrad, e O jogo da amarelinha, do Júlio Cortázar. Claro que eu lia como um louco, mas eu comprava, trocava, ou simplesmente me desfazia dos livros sem a menor consideração. Meu primeiro emprego era de veterinário em uma cooperativa, que eu exerci por cinco anos. Eu chegava exausto do campo à minúscula pensão na minúscula e esquecida cidade onde eu morava, tomava um banho, jantava, e me lançava à releitura infinita dos meus dois livros. Eu ainda hoje sei um capítulo de cor de Amarelinha, e trechos inteiros do Lord Jim. Tirei deste último o título da minha monografia de história, "As encarnações imprevistas". Daí conheci a Dani, e ela me deu os dois primeiros livros que eu iria guardar pra sempre, além das eternidades condensadas pelo outro argentino e pelo polaco que eu levava no alforje, os volumes três e quatro da obra completa de Borges. Nesse astucioso presente, veio decretado meu duplo destino, que era o de ter propósito para constituir um lar e formar uma biblioteca. (Lembro do espanto absoluto na cara da senhora minha vizinha, quando viu aquela moça e o bebê de colo_ a Dani e a Júlia_ entrando pela primeira vez na casa onde ela julgava morar apenas o triste psicopata solitário e inofensivo com o seu cão.) Daí a Dani me disse, quando eu lia a dedicatória em completo maravilhamento que ela escreveu naquele presente perfeito que em trinta anos ninguém jamais havia tido a sensibilidade ou o interesse em me dar: "Nós podemos reservar um dos quartos da casa e começarmos a montar uma biblioteca, o que você acha?". E hoje aqui estão, os meus primeiros livros de homem assentado, enquanto as crianças correm pela casa, elas mesmas se regalando por horas com a biblioteca. E a Dani, como sempre, com sua humildade política, por detrás de tudo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Futebolândia, tão violentamente doce

A respeito do comercial norueguês das Olimpíadas no Rio de Janeiro.



Um dos contos mais impactantes do Julio Cortázar, que nem chega a ser um conto mas uma diatribe narrativa, é o que começa o livro Nicarágua, tão violentamente doce. Nele, Cortázar sai pela terra do título tirando fotografias das crianças sorridentes, dos prontificados policiais fardados, das barracas vistosas das feiras, das nicaraguenses jovens com véus coloridos, das mães nicaraguenses com seus filhos de colo, das estátuas ufanistas das praças, reativamente prontificado a se fazer de adido cultural para quem os oficiais da pátria mostram o que tem que ser mostrado no cartão postal pelo estrangeiro. Quando Cortázar volta a seu quarto de hotel, com o cansaço agradecido do viajante, esperando que entre pela porta sua namorada ou mulher francesa, não me lembro, só me lembro da frase “que me oferecerá o doce sal dos seus seios”, ele bebe um scotch para relaxar e se senta para conferir o que sua polaroid flagrou. Em vez de tudo o que julgou ter apreendido pelo obturador da câmera, ele vê emplastrado na celuloide fotos de crianças mortas assassinadas, o grito de pânico congelado nos rostos, os coturnos dos policiais enfiados na goela de pobres camponeses de caras desfiguradas, praças em que a presença humana foi excisada e sobraram barracas destruídas pela violenta evasão, rostos de desespero das mães de quem foram arrancados os filhos para nunca mais. Quando a mulher por quem espera o escritor chega, encontra um Cortázar encolhido no chão e com o rosto transfigurado pelo choro.

Esse comercial me lembrou esse conto genial, que pode parecer pedante nas minhas insuficientes palavras, mas é um soco no estômago e uma das melhores páginas do argentino. Um menino branco, diga-se por sinal; policiais halterofilistas modelos (que colar de dentes magnífico o policial negro tem, ao sorrir desarmado pela sacralidade em slow motion ao reconhecer o jogador!); uma favela eufemizada que lembra uma vila grega, em que a ascensão social é tão fácil e aprazível quanto uma queda de asa delta para a qual até o mar se mostra protetor; e a praia e as mulheres hospitaleiras; uma obra, afinal de contas, legitimamente autoral, disso não podemos negar, visto que noruegueses são seus autores e norueguês ficou o Rio de Janeiro, sem mais morticínios, sem mais a gritante disparidade social e a alienação sustentada a ódio da guerra civil iminente, sem praias depredadas pelas indústrias poluentes de um país em que a lei é ditada pelos abutres, e para eles faz acontecer beneficamente, assegurando que o mar não é cancerígeno e não oferece sequer as mínimas desfigurantes doenças de pele para os atletas, que não há epidemias microcefalizantes, de tal modo que ninguém ousaria abdicar do mérito da competição; um país que a polícia sairia em uma perseguição cinematográfica conciliadoramente desarmada despendendo um número tão grande de efetivos, sendo que a verdade vociferada diariamente diz que um tiro só bastaria, ou dois na simulação posterior de que havia uma arma nas mãos do garoto morto. E a salvação, ah, a salvação, sempre vinda do milionário iletrado com ficha na polícia por isenção de cidadania que usa a bola como graal hipnótico para a qual se dirigem os olhares de todos os abandonados: o Ronaldinho Gaúcho, ganhador da medalha Machado de Assis.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Julio



"Um pouco antes de morrer, Cortázar estava em Barcelona, andando à noite pelo Bairro Gótico. Havia uma garota, americana, bonita, que tocava violão e cantava meio como Joan Baez. Um grupo de jovens estava ao redor, ouvindo. Cortázar parou, meio afastado, nas sombras. Dali a pouco, um jovem de uns vinte anos se aproximou dele com um bolo na mão e disse: “Julio, pegue um pedaço”. Ele pegou, comeu e disse: “Muito obrigado por ter vindo e me dado o bolo”. O rapaz: “Olhe, eu lhe dei tão pouco comparado com o que você me deu”. Cortázar: “Não diga isso, não diga isso”. Então se abraçaram e o rapaz foi embora." (De um texto de Ernani Ssó, tirado daqui.)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Discurso do Urso - Julio Cortázar e Emílio Urberuaga


Fui surpreendido pelo carinhoso presente dado pelo grande amigo Emerson a meus filhos. Eu não sabia da existência desse belo livro feito sobre um dos micro-capítulos de História de Cronópios e Famas, intitulado Discurso do Urso. Tem desenhos primorosos de Emílio Urberuaga, que se casam muito bem com o singelo texto de Cortázar. Um desses livros infantis com delicadeza, deslumbre e estranhamento que tem tudo para ser lembrado por toda a vida

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A Lucidez Excessiva

Nada me assustou mais no campo literário dos últimos anos que o suicídio de David Foster Wallace. Sobreveio-me o mix de emoções e concepções incertas que faz parte dos sentimentos despertados pelo suicídio e que são cansativos clichês: o susto, o vazio, a busca pelos sinais pregressos que justificassem o ato, e... a certeza de que se é impossível entender. Todo suicida está além das forças da eufemização. Daí que mesmo os mais torpes e infames suicídios_ e a história está cheia deles_ deixa o suicida no equilíbrio inalcançável daquele sobre o qual não se pode cair a condenação; está além do bem e do mal. Li há pouco num romance de Sebald, a história de como Assia Wevill_  a belíssima judia morena, que foi a segunda mulher de Ted Hughes_ repetiu milimétricamente os passos da morte de Silvia Plath, acendendo o gás, fechando as portas e as janelas da casa, deitando-se na cama, até que deixasse a marca severa no espírito de Hughes de que a sina de uma esposa suicida era um dos círculos que o cosmos iria repetir infinitamente para aprisioná-lo em seu inferno particular. A extrema maldade de Assia Wevill, seu toque de originalidade calculado para diferenciá-la de Silvia, foi que fez com que permanecesse junto a ela a filhinha de 4 anos que teve com o poeta. Conceber esses gestos de egolatrismo assassino é algo insuficientemente possível quando as causas pendem para a paixão extrema. Mas um caso como o de Foster Wallace oferece o paradoxo da falta de simetria entre o martírio auto-imposto e a sua profunda personalidade artística, mostrada em livros que não oferecem um indicativo de sua derradeira ação, e o de sua estampa consumível de garotão ultra-culto de cabelos compridos que era uma das promessas das letras estadunidenses.

Li apenas um volume de contos e insights humorados publicado pela Cia das Letras, de Wallace. Fiquei entusiasmado diante a visão de um filósofo com amplos domínios da escrita ficcional, sentado no centro de sua lucidez controladamente demencial, e que prometia que estava para sair da auto-indulgência para mostrar sua efetiva força criadora. Todos os prognósticos apontavam para um novo Pynchon. As lentes ultra-realistas, que beiravam o lisérgico, jamais poderiam diagnosticar uma desistência futura_ afinal, Cortázar mostrou-se assim, e mais uma cambada de outros escritores. Porém, o que mais me impressionou foi um ensaio, que me chegou às mãos após a morte de Wallace, em que ele fala de uma maneira positiva, solar, radiante mesmo, sobre as efluências da alma. Tal ensaio falava sobre a televisão, internet, a fragilidade de se observar o ser-humano em supermercados (e detectar que, por debaixo da flâmula de ódio impessoal que havia por detrás dos rostos, podia-se amá-lo). Era uma palestra para estudantes de não sei qual curso, e Wallace estava alí em toda sua portentosa juventude, exsudando carisma. Parecia Bernard Shaw falando aos segundoanistas irlandeses, mas havia também algo de Churchill convocando para a batalha, e algo de uma versão metropolitana de Whitman. Como me acontece com as grandes páginas que leio pela internet, perdi-a em definitivo, esqueci de sua fonte e de suas circunstâncias principais_ apeguei-me apenas ao que interessa nessa forma filtrante de mídia: a sua energia, a sua música arcangélica, o seu eco. Afinal, o texto, em seu âmbito mais profundo, que só poderia ser entendido depois que o suicídio de Wallace lhe limpava de todas as demais interpretações equivocadas, maldizia a distração perpétua da televisão e da internet.

Se tivesse lido tal ensaio enquanto Wallace estivesse vivo, tal iluminismo de contramão não teria me indicado nem distantemente a morte do autor; mas sua leitura póstuma só confirmava a certeza inexorável de que ele não aguentava mais. No momento em que depositava o último ponto final no texto, Wallace já sabia o que tinha que fazer. Na certa ele tinha tudo muito terapeuticamente controlado, a depressão, a fé de que, afinal, o caminho geral para a destruição por qual anda a espécie não é uma certeza; acima de seu subconsciente que havia decretado em segredo a sentença incontornável, boiava todos os singelos brinquedinhos da resistência que simulavam ter vencido.

Wallace não foi um artista qualquer. Seu romance de mil páginas está programado para ser lançado no Brasil ano que vem. Não há histórico de drogas, como o que levou ao suicídio um outro ícone norte-americano como Kurt Cobain. Não há a possibilidade de um erro de dosagens de antidepressivos, como o que levou à morte o magnífico Nick Drake. Sofria de depressão desde muito cedo, e, ao que tudo indica, tal depressão foi levado a graus exacerbados pelo seu primor cerebral. Lacan dizia que devemos evitar o excesso de informações. Penso aqui com meus botões que foi o excesso de informações que levou alguém brilhante como Wallace ao suicídio. Se eu sofresse de depressão, jamais procuraria auxílio nos livros. Também não procuraria refúgio no dinheiro_ um irmão de uma antiga namorada se matou quando sumiu de suas contas o último centavo. Viveria sob o conforto de um amor envelhecido, que dispusesse a ver meus desabafos sobre dores articulares como homilias religiosas, e me cobrisse gentilmente os pés quando fosse se deitar na cama ao meu lado. Nada mais instrutivo contra o suicídio que os filmes dos irmãos Coen. Excesso de lucidez não significa profecia. Maiacovski se matou por excesso de lucidez; Benjamin idem; e, ironia das ironias, a História iminente provou que ambos estavam constrangedoramente errados. Se tivessem persistidos um dia (Benjamin), ou anos (Maiacóvski), veriam que a aleatoriedade dos acontecimentos serve muito mais para manter a homeostase da existência do que para destruí-la, e que o horror é uma enganosa e ingênua miopia quanto às demais prerrogativas. Do alto da erudição e conhecimento, o melhor para a sobrevivência é deixar de lado as Grandes Verdades e dar ouvidos à vox populi mais banal: nada melhor que um dia após o outro. 

Penso que Wallace sucumbiu às distorções alucinadas da exuberante vida americana, como precaviu Bellow, e não foi forte o suficiente para perceber que tudo não passava de alucinações. Posso estar sendo injusto, mas essa é a forma de otimismo mais acentuado a que eu posso chegar. Isso pode estar sendo provocado pela leitura de Tolstoi, pela indignação que vejo crescendo pelo mundo... Talvez haja um derivado da hipótese de Gaia para a antropologia e estejamos destinados à salvação através daquilo em que menos apostávamos que ela veria: o acaso indiferente.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Comentários com Os Pés na Mesa

Que diabo! Mais um vez vou usar um comentário meu no blog do Milton Ribeiro como post aqui no blog.



Já disse antes que gosto muito de Calvino, mas ele não chega a ser um dos meus preferidos. Dos italianos: Svevo e Pirandelo.

Borges é um dilema. Já vejo professores se decepcionarem ao tentarem adotar seus contos mas os alunos reagindo negativamente. Que coisa cacete! Borges se tornará “cacete” para a futura geração Kindle. E isso é curioso, pois a versatilidade da obra do argentino, num primeiro momento, parece se prestar ao mundo portátil. Seus contos são curtos (muitos, aliás, não vão além de três páginas), e são movimentados como um romance de Dumas Pai; e falam de magia, de absurdos (não à toa a capacidade mercadológica inconsciente dos temas de Borges tornou a disparar as vendas do Paulo Coelho nos EUA, o seu romance do Aleph).

Mas… aí vem o x da questão, na qual divirjo (essa palavra tá certa?) de você e do Luiz Ribeiro e do Idelber: o ponto em que trata da influência de Macedôneo sobre a escrita de Borges. Vocês veem como uma influência de fato, estilística e temática. Eu já penso que Macedôneo exerce um poder notável no humor borgeano. Macedôneo e a geração de escritores argentinos da qual fez parte Borges, praticamente criaram um “humor argentino”. Assim como se identifica os méritos do humor inglês na sutileza e na auto-crítica firmada no absurdo e no non-sense do esnobismo britânico, e a auto-depreciação do humor judáico, o humor argentino nascido com Macedôneo bebe das fontes inglesas e se adentra numa revelação do absurdo do prosaísmo cotidiano, e o texto argentino, daí para frente, se tornou cuidadosamente metaliterário, mais cheio de mensagens subliminares do que as capas dos discos dos Beatles e a cabala_ a maior parte, só entendida pelo grupo de escritores argentinos. O humor de Macedôneo perfila a obra de Borges e se expande em Cortázar. Macedôneo criou o Monty Python da Argentina, e só nisso (o que já é uma contribuição gigantesca) é que ele é transparente na obra de Borges. Borges mesmo, num texto sobre Macedôneo, diz que era a antítese de Macedôneo em todos os sentidos da criação literária: Macedôneo era desregrado, pouco se importando com a beleza da escrita, e Borges um estilista rigoroso.

Então… as sutilezas da escrita de Borges é que são indigeríveis para a geração Kindle. Borges disse que conheceu a obra de Whitman em alemão (olha só o montypythianismo de Borges mesmo aqui), e só depois de lê-lo em inglês que viu o quanto era absurdo ler O Canto da Estrada Aberta na lingua de Schopenhauer. É da mesma forma absurda ler Borges no Kindle, e os leitores do Kiindle já nascem predestinados à incapacidade de ler Borges. Mas isso é outro assunto, que nos remete ao mimeógrafo adorniano (Adorno profetizou que as únicas obras relevantes desse nosso século seriam as mimeografadas): e Borges é o legítimo mimeógrafo.

Particularmente gosto mais da seleção de contos do Aleph. E adoro os ensaios, e adoro os prólogos (releio-os todos os dias na privada). Borges é um dilema por ter sido um grande escritor que se articulava dentro de um espaço limitado. A escrita de Borges revela que por pouco ele não se tornara um autor fracassado. Ele não era exuberante (Calvino era). Nota-se que o único meio de Borges era desenvolver esse estilo conciso ao extremo. Daí que tal coisa tem seus efeitos colaterais: Ficções e O Aleph são maravilhosos, revolucionários, bombásticos, imortais; já os contos tardios, como os de A Memória de Shakespeare, a mim soam cansados, repetitivos, sem talento, já sendo o mecanicismo da criação agindo por si mesmo com pouco espírito. Garcia Márquez já havia anunciado isso antes_ logo quem, que se tornou o macaco do realejo da emulação da própria técnica_, de que Borges se afundou no desgaste da incapacidade de ir além de seu estilo.

São muitos os “filhos” de Borges. Claudio Magris é um dos maiores deles ainda vivos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O Inclassificável Cortázar


Cortázar é uma presença tão peculiar no cenário da literatura latino-americana que faz com que sobre ele recaia uma série de interpretações equivocadas. Assim como os que olham bem apressadamente Borges_ esse conterrâneo tão diametralmente oposto_ tendem a pensar que sua obra se circunscreve aos dois volumes de contos fabulosos, O Aleph e Ficções, a esses parece que Cortázar não escapa a um exame mais sério além das duas coleções de narrativas que o tornaram relevante: As Armas Secretas e Bestiário. Pois quem se preza a conhecer mais do que o canonizadamente convencional, sabe da ensaística indispensável e da capacidade que beira o milagre de Borges em compor resenhas de vinte linhas que vão além da saturação que o próprio livro analisado oferece; e os outros tantos contos encantadores que Cortázar escreveu que estão à margem de sua produção estabelecida, confortavelmente lidos, relidos e amados pelos seus leitores fiéis, assim como essa peça inclassificável de humor filosófico-surrealista que é História de Cronópios e Famas (uma antecipação de dez anos ao humor anárquico de Monty Python), e esse romance que não se repetiu nem pelas mãos de Cortázar nem por quaisquer outras que se seguiram, O Jogo da Amarelinha.

Cortázar tem essa característica de não se render a classificações. Não se limitou a ser um simples escritor, mas todos os seus experimentos em outras áreas de expressão convergiam inadvertidamente para a escrita.  A fotografia (como em Prosa do Observatório), a narrativa oral (como nas tantas horas de gravações  a que submeteu vários excertos e textos inéditos ao som de sua própria voz), a colagem de citações (como nos capítulos fragmentários de Jogo da Amarelinha), a editoração gráfica (como em O Livro de Manuel), e essa espontânea prefiguração de uma escrita virtual que nos diz que ele teria se dado bem com as mídias da internet, antecipando o blog em Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round. Ele foi um desses autores para os quais o talento era tão fluído, sinérgico e ilimitado, a ponto que o caminho lógico era o de ir-se contra a literatura até destruir qualquer traço dela através de uma saturação implosiva. Mas, ao contrário de Joyce (ou, num campo menor, mas usado aqui para maior elucidamento, Salinger), Cortázar não optou pela aporia do sarcoma verbal ou pelo silêncio, mas pelo que ele descreveu em sua fase tardia como escrever cada vez pior. Sua prosa ficou cada vez mais intimista e desnorteada, de forma que, enquanto seus parceiros intelectuais passavam pela radiografia distintiva de remeterem-se às influências dos antepassados imediatos ou distantes, Cortázar já não assegurava nenhum porto seguro para que a crítica identificasse se ele deslindava o labirinto da escrita pelos fios de Faulkner ou Sartre, de Joyce ou Borges, de Dos Passos ou Camus. Em vez de oferecer esses marcos de estudo facilitadores e reconhecíveis no ambiente comum das letras, havia a exigência de uma cultura mais ampla e multitudinária para apreender quais as novas órbitas pelas quais Cortázar passava. Só assim, com a mente disposta a aceitar o confronto em zonas desconhecidas, muitas das quais não acatadas como ambientes psíquicos de refinamento aceitável, se podia ver que Cortázar escrevia tendo em mente (ou, como) Louis Armstrong, Charlie Parker, ou algum afluente disparatado de alguma escola minúscula e desconhecida de fotógrafos franceses, ou como Kandinsky, Miró ou M.C. Escher. Nesse sentido, nenhum outro escritor latino-americano se aproxima de Cortázar no que ele teve de inovador, desbravador e ampliadar das fronteiras para a escrita desse continente. Através de Cortázar, a literatura latino-americana se alçou ao nível de grandeza especular da literatura produzida nos Estados Unidos no século passado, tendo a ressaltar que Cortázar escreveu O Jogo da Amarelinha  antes  que o Pynchon de O Arco-Íris da Gravidade surgisse, antes de Don Delillo e Foster Wallace. Assim como os grandes escritores ajuntados no rótulo da contra-cultura norte-americana, Cortázar seria o autor contracultural por excelência da América Latina, no que teve de repúdio à cultura estabelecida,  de negação ao apego à eufonia da linha reta das academias, das limitações impostas pela natureza a que o criador seja escravo de sua estética pessoal (como é o caso de Borges nunca ter conseguido ir além ao borgismo, e García Márquez ter sucumbido em vida à mumificação da eterna repetição de si mesmo).

Como Mário Vargas Llosa diz num ensaio sobre Cortázar, ele foi o escritor mais culto e com o legitimo conhecimento enciclopédico apontado em alguns raros autores europeus. Sua cultura era mais vasta que a de seu patrono Borges, pois enquanto o autor de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius tinha como fé inamovível desprezar grande parte da literatura moderna, Cortázar se empenhava em cercar as inovações do pensamento em todas suas vertentes. Em seu grande romance O Jogo da Amarelinha, ele destina parte da composição em  emular a técnica de colagens de Walter Benjamin empregada em Passagens. E esse romance é o que temos de mais próximo ao romance ensaio, gênero para poucos autores, como Thomas Mann, Musil e, recentemente, Cees Nooteboom. Além da sutileza jungiana em contos que extrapolam os limites da percepção extra sensorial (como em Cartas de Mamãe), e dos contos que tratam o tempo como elemento coligativo endossado pelo relativismo da História e do mero cotidiano (como no magistral Todos os Fogos o Fogo). Essa erudição põe à prova o conhecimento de uma série de doutores de literatura que, vítimas das próprias insuficiências, enxergam no primorismo de Cortázar apenas o que demanda o limite de suas interpretações restritas, por isso não é de se estranhar que alguns apontem Cortázar como "escritor para adolescentes", da mesma forma que alguns acham intratável escritores como Pynchon, pelo que colhem na superfície de pornografia grotesca e escrita sobre o efeito narcoléptico. Cortázar não fez outra coisa, mesmo em seus anos de piora deliberada, do que produzir literatura genuína, de altíssima qualidade, que, aceite-se, às vezes acontece da própria peça sucumbir à voz do autor; às vezes saber que se está lendo Cortázar sobressai à unicidade do texto, e o mais importante passa a ser as impressões digitais do criador, seu humor, sua inteligência, sua muitas vezes tocante sensibilidade (quem não chorou lendo Final de Jogo ou  A Saúde dos Doentes), e nisso parece que a fama está agindo e não o conteúdo.

E outra coisa dever ser dita: Cortázar nunca se rendeu a sua própria erudição e perdeu o coração terno. Poucos escritores mostraram-se tão humanos e delicados, e nisso também está a sua força.

sábado, 27 de novembro de 2010

Estrela Distante, de Roberto Bolãno

Por Charlles Campos


 O que poderia haver de errado, nesse começo de século pouco promissor para a literatura — no qual Norman Mailer lamentou que tudo pelo qual sua geração de intelectuais lutara tenha fracassado, e onde as mesmas formas eternamente combatidas de dominação tenham obtido uma vitória incontestável sobre qualquer resistência contrária — , com o fato de Roberto Bolaño ter sido escolhido como objeto de acirrada adoração pela mídia cultural mundial? Nessa época desencantada dos ilimitados milagres da eletrônica, onde Philip Roth vaticinou que a próxima geração a surgir trará incutida no gene o fim do interesse pela leitura, não é espantoso que o romance de mil páginas “2666” já tenha vendido mais de 23.000 exemplares em Portugal? E que “Detetives Selvagens” tenha movimentado o competidíssimo mercado editorial norte-americano; e que os outros livros de Bolaño já sejam por lá tidos como potenciais clássicos de um escritor genial? E o que poderia ser mais esperançoso do que vermos Bolaño ocupando o centro de vários debates culturais pelo mundo, seus livros aparecendo mesmo em locais exórdinos como na mala de viagem do apresentador da Globo Zéca Camargo ( que levou “A Pista de Gelo” para o acompanhar nas filmagens pela Tailândia, demonstrando os critérios práticos da simplificação de sua escolha)?

Mas essa iconização, por outro lado, é o reflexo de outros aspectos não tão festivos do atual momento cultural por que passa a América Latina. À exceção de Bolaño, de qual outro escritor latinoamericano se ouve falar com a mesma persistência? O cenário mostra-se desconcertantemente desértico, ainda mais em comparação à profusão de nomes de valor que existiam há cinquenta ou quarenta anos. A acreditarmos na tendência — o emprego de tal palavra talvez seja o mais maneirista dos eufemismos — do definhamento da escrita, essa espera pelo desaparecimento dos últimos grandes escritores sem que se veja o natural surgimento de uma geração que os substitua, é uma realidade não só das Américas, mas universal. Não que os escritores apareçam obedecendo a u ma determinada sistemática providencial, ou são produzidos em série para, no momento devido, virem com a resolução para os conflitos da pobre humanidade desgovernada. Mas o que ocorre é que o prognóstico lançado por Mailer, Roth, Vargas Llosa e uma dezena de outros escritores, sobre o futuro inglório que eles não verão , parece se encaixar com perfeição nos estágios velozes da técnica que já nos pegam pela frente, onde a escrita se torna irrelevante e descartada, e, com isso, o pensamento crítico, as nuances lingüísticas, a contestação às doutrinas dominantes, o reconhecimento de uma dimensão mental independente, a lentidão necessária para inteirar-se da constituição espiritual morta por fora pela extenuante falta de tempo da escravidão dedicada às empresas, ao Estado e ao modus operandi de consumidores infinitos.

Se a efervescência intelectual é expressão produzida pela intolerância alcançada aos conflitos históricos, como vemos os poderosos escritores surgidos na Rússia czarista, nos memorialistas do extermínio da Segunda Guerra mundial, nos inconformados contrários ao bezerro de ouro do capitalismo norte-americano, nos refugiados hispano-americanos que acusam as ditaduras assassinas em seus países, não há momento mais legítimo para a imposição da voz do que o que vivemos hoje. Se a desgraça crônica explode no desenvolvimento de pessoas comuns em contestadores que escrevem grandes livros, o estágio atual de desgraças seria mais que justificável para a descavernização desses anônimos, a fim de instigarem aos demais míopes silenciados as possibilid ades de um mundo lá fora.

E é aqui que a carga relegada a Bolaño demonstra-se demasiado pesada. Bolaño, em decorrência da degradação de sua saúde e da conseqüente falta de tempo para amadurecer sua escrita, aceitou resignadamente o trabalho que tinha e, como o albatroz com as asas quebradas, desmoronou-se em desistência para o interior de sua imensa depressão. E ficou com toda a soberba constituição de pássaro majestoso, mas incapaz de disfarçar para si mesmo o pouco tempo que lhe restava, e o quanto isto lhe destruiu a capacidade de ver com abrangência. Não venham me dizer que a proximidade da morte cause essas coisas; quase pela mesma época, Edward Said compunha sua biografia e um volume de ensaios onde se negava a afastar uma revificação solar de todas as idéias humanistas de seus outros livros, ele que também via o fim irrevogável se aproximando.


Bolaño não estava apto a continuar a resistência contra os antigos poderes de dominação vigentes e mais poderosos do que nunca na América Latina: a política patriarcal, a mídia a serviço desses poderosos, a grande alienação e o expansivo silêncio. (Não se mostrou apto a incorporar o intelectual que fala a verdade ao poder, na definição ativista de Said.) Resistência que se fazia com uma militância romântica (hoje tão anacrônica em suas singelas tentativas, que de imediato é taxada de ingênua e demagoga) pelos escritores do assim chamado boom da literatura hispano-americana: Miguel Àngel Astúrias, Juan Rulfo, Mário Vargas Llosa, Rômulo Galegos, Júlio Cortázar, Manuel Scorza, o jovem García Márquez.

Com seu nome valorizado nos mais altos índices de graduação pela crítica estrangeira como representante da atual intelectualidade latino americana, o seu quietismo raivoso, a sua falta de fé, o seu queixume derrotado, alinha-se ao pesado silêncio que mais uma vez assola nosso continente. E Bolaño é tanto mais decepcionante por sua desistência por não se poder dizer que os escritores atuantes em outras regiões do planeta perfaçam a mesma entrega de pontos e pacificação resignada; é só ver Ismail Kadaré, Amós Óz, Ohran Pamuk, Mia Couto, entre outros. J. M. Coetzee, por exemplo, continua insurgindo com uma revisão desafiadora contra o instituído ponto comum e politicamente correto em que coube calar a questão da guetização do negro e da miséria ainda reinante sob a edulcorada versão oficial de uma África redimida e liberta pós Nelson Mandela (como no magnífico romance-palestra “Margareth Costello”).

A crítica que cabe a Bolaño é a mesma que em outra época e sob óticas diferentes, D. H. Lawrence fez a Joseph Conrad, não perdoando por este ser um escritor tão inexoravelmente triste. Com todo esse potencial para o fantástico, e cedendo na primeira investida às formas aterrorizantes da falta de perspectivas do mundo real, era o que estava dizendo Lawrence, lamentando que a música bombástica da prosa exuberante de Conrad o engolisse antes que o arrebatasse para fora da cadeira. O que pode alimentar a interpretação de que os trópicos seja um cinturão global cujos atributos coincidentes são o desespero, a apequenização e o silêncio.


Bolaño, com seu estilo que parece ser independente de qualquer influência, sua profusão de histórias, seu talento em revirar a trama inúmeras vezes, seu humor surpreendente, suas frases que aparecem aqui e ali no relevo do coloquialismo como sentenças borgeanas, o que vemos é seu receio em mitificar, em ir além. Suas narrativas são todas sobre exilados que, mesmo professando a mais difícil e anti-moderna das artes — a poesia — , ainda assim são imediatamente descartados como poetas medíocres, mais uns versejadores outsiders que vão se silenciando e rendendo ao suicídio, à doença ou aos aspectos comezinhos da vida cotidiana. Em determinado momento de “Estrela Distante”, o narrador declara que o Chile ainda não está pronto para a poesia.

Os intelectuais que erram pelas páginas de seus livros não estão motivados a transformarem céu e terra, a bradarem seu canto selvagem sobre os telhados do mundo — mesmo que sempre quebrando a cara no final — , como os personagens de Saul Bellow; também não visam o sublime, como os desesperados que se apartam da mesquinharia mundana para seus territórios artísticos pessoais, como o dos livros de Thomas Bernhard. Seus personagens não tem o firme estoicismo intelectual dos de Philip Roth; ou o prosaísmo quixotesco dos de García Márquez; ou o provincianismo que conlui o submundo bairrista da infância com a experiência do militarismo regimentar dos livros de Vargas Llosa. Os seres de Bolaño não se encaixam nem ao mais niilista dos existencialismos; vivem apenas uma pobre e levianamente documentada aventura de passantes. Não existem dois personagens mais anêmicos e inexpressivos que Arturo Belano e Ulisses Lima.

Eu não perdoo que Bolaño seja tão triste. Quem lê “Putas Assassinas”, sai com a certeza de uns três ou quatro contos realmente muito bons, mas com uma sombra na alma que leva dias para desaparecer. Poderão me dizer que mexer com um material tão emocionalmente radioativo como a literatura é tarefa para quem tenha estoicismo suficiente para suportar doses cavalares de desencanto. Mas eu saio revitalizado depois de ler Bernhard, Beckett e Céline (para citar três escritores do desencanto). Ler “Extinção”, “Origem” e “Viagem ao Fim da Noite”, é percorrer uma indignação festiva, uma repugnância que recorda sempre a força de contestação juvenil, a desconstrução de toda certeza e gratidão imposta pela farsa da sociedade equânime; é literatura adrenérgica e viril, que, dependendo da época, deve ser naturalmente reprimida pelo sistema que estiver vigorando.


Já o Chile, Pinochet, as andanças sem rumo pelo México e pela Europa — até as cenas espetaculares numa guerrilha africana que aparece em “Detetives Selvagens” — , são incapazes de romper o isolamento de Bolaño; essa violência mundana não consegue suscitar nele nada mais que o aproveitamento, sob a devida distância, de matéria para sua prosa documental. Um conto de três páginas de Cortazar, “Grafite”, faz mais pela indignação, a denúncia e reação, do que “Amuleto” e aquelas últimas páginas de “Detetives Selvagens”. “Estrela Distante” vai mostrar mais uma vez isso, com um número inédito de aberrações e corpos mutilados, de que Bolaño renunciara à política, à filosofia e à poesia, e o resultado é um livro competentemente limpo de qualquer transcendência em qualquer sentido. O único símbolo sutil perceptivo é deixado à deriva, como se Bolaño, com seu cigarrinho entre os dedos, mandasse às favas o trabalho que daria dar escopo ao inteligente esquema do personagem central ser um serial killer. Como em Detetives, em que ele não consegue mitificar a procura por 600 páginas pela Cesária Tinajero, ele também não passa ao leitor aquela indagação após fechar o livro de “o que diabos ele quis dizer com aquilo?” O poeta fascista assassino Carlos Wieder representa o que? Bolaño não constrói vínculos inteligíveis em que se possa dizer: “Ah! É a desumanização que a rendição à ditadura causa!”, ou “Ah! Cesária Tinajero é o símbolo da liberdade perdida!” A prosa de Bolaño é indevidamente rarefeita numa época em que a literatura precisa de mais para prosseguir.

Mas vale lê-lo? Vale! Cada centavo empregado! Não sei se Bolaño é um grande escritor. Estou propenso a pensar o contrário, o que seria uma contribuição à mesma mitificação que favorece ao setor das compras antes do deleite da leitura. Um dos melhores livros que li foi escrito por um autor menor, “Pergunte ao Pó”, do John Fante, e pouca coisa há de mais singela que Arturo Bandini (que coincidência!) atirando seu livro publicado em direção às areias do deserto da Califórnia. Não estou dizendo que Bolaño seja medíocre. Mas contra a comercialização desarroada de sua imagem (que só imponho reação quanto às possibilidades críticas, e não contra o quanto se consiga vender de seus livros — é um aspecto de raríssimo otimismo ver Bolaño ocupar algumas listas de mais vendidos), eu creio que o Bolaño verdadeiro é aquele da foto e m que aparece sentado atrás de uma mesa atulhada de papéis, com o olhar perdido para dentro de si mesmo, frágil, solitário, equilibrado com seu cigarrinho eterno na fina linha de sua vida, com a cabeça cheia da música mais angustiante.

(Publicado originalmente no blog do Milton Ribeiro. Seleção de imagens: Milton Ribeiro)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Do Porque Vou Ocupar Minhas Noites de Insônia com Outras Coisas que Não Sejam Blogs, ou A Internet Emburrece, ou Cortázar um Escritor para Adolescentes



Desde quando eu era um simples caipira que não sabia ligar o computador na tomada eu já tinha a presciência de que essa mídia ardilosa dos blogs tem algumas regrinhas de aproveitamento que devem ser rigorosamente seguidas. Agora que eu não só já sei apertar o botãozinho do conversor de energia (que na certa não tem esse nome lúdico) antes de ligar o micro, como também o suficiente para cometer (aiaiai!, lamenta meus princípios) um blog próprio com meu nome, essas regrinhas se firmaram em uma única descoberta fundamental: um blog perde a seja lá qual for sua função pretendida de ferramenta literária, informativa ou simplesmente masturbatória de relativa qualidade quando é invadida por um número excessivo de frequentadores. Ou seja: quanto mais sucesso tiver um blog, mais ele esculhamba irresistivelmente para a boçalidade, mais o blogueiro, um ser até então indefeso e meramente participativo em alguns assuntos de interesses comuns a certos grupos distintos, sucumbe a botar para fora o seu lado Mick Jagger de rebolar diante as câmeras ou, numa comparação específica, diante o cronômetro do seu Google Analytics em franca rotação. Em outras palavras ainda, não estou dizendo nada além do já trivial e alegremente aceito chavão da direita contrária aos prazeres da virtuália desvairada: "a internet emburrece".

Somando-se a essa verdade estupenda que generosamente divido com meus leitores (olhem só que sintomático: não tenho realmente nenhum leitor além de uma turma esporádica de frequentadores que só lêem os cabeçalhos a título de piedosa consideração e logo partem para o cumprimento de seus zelos cotidianos; mas, se, inesperadamente e contra toda a lógica, essas portas aqui fossem arrombadas por dezenas ou centenas de leitores, minha tão acintosa modéstia e brio espiritual ficariam provocados a tentar dar aquele jogo da perna direita por sobre a perna esquerda, com um biquinho de velho safado apontando sequioso para a platéia que o líder dos Stones é prodígio em fazer, e tudo estaria perdido), como ia dizendo, (releiam a primeira frase antes da digressão engraçadinha, p. favor), a proliferação da burrice pela net faz com que qualquer intenção genuína por parte do blogueiro se contamine. Vou explicar. Se eu tive a intenção de escrever algumas resenhas literárias aqui, e alguma ou outra gracinha sobre peculiaridades sobre minha vida, a imersão da burrice internáuitica portas a dentro me impulsionaria a querer ir além numa velocidade estonteante. Se eu tenho agum talento para explicitar uma compreensão um pouco original sobre 2666, p. ex., e cem pessoas aparecem do nada como uma turma de assombrações em volta da cama de um médium recém revelado no mostrador de frequência de meu blog, a tendência é eu passar a me achar um Harold Bloom ou um Edmund Wilson das letras, ou, num grau mais doméstico, um Carpeaux ou uma Isabela Boscov. A internet tem disso, mas não é a primeira. Como todo mundo sabe, o cinema fazia as pessoas vazarem das salas achando que a locomotiva da tela lhes passaria por cima, o rádio fez a pobre Sra. Curie reavaliar drasticamente a natureza letal da luminescência que afluía de seu corpo quando se preparava para dormir à noite, e eu já vi um chefe distraído ordenar que as peças para o conserto do carro institucional fossem enviados por e-mail.

O sucesso do blog tem como primeiro sinal o repúdio arrogante contra as outras formas mais longevamente consolidadas de mídia. Quando o blogueiro está contaminado, o passo lógico da doença é falar mal dos jornais e revistas. A Folha é uma merda. O Estadão é uma merda. A Veja é uma merda. O informativo comercial distribuído nos sinaleiros, apesar da promoção da câmera Sony pela metade do preço, porra, é uma merda. Não entro no mérito da qualidade dessas revistas e quero logo sair desse parágrafo porque tô com sono. A merdologia é o que interessa, essa vocação fantástica a dar força às reticências com um descongestionante e aráutico escatologismo. Todo mundo sabe o quanto desobstrui as vias respiratórias da alma quando apomos um "merda" como argumento definitivo e alvissareiro para encerrar o discurso.  Nada pode sobreviver diante ao impacto acachapante de um "merda" bem dito em um blog.

Então, para concluir essa divagação madrugadina, decidi que de amanhã em diante, quando na minha costumeira insônia, não vou mais ligar o computador. Hoje refiz minha via sacra pelos blogs em que pesco algo aqui e ali, e me deparei com o segunte comentário: "Cortázar é um autor para adolescentes". O distinto blogueiro tem o direito de pensar o que quiser e exprimí-lo com a mesma capacidade inconsequente, mas o ar com que o fez é que me deixou puto. Em seu universo patológico, outro sintoma mais perfunctório pode ser apreendido: a noção de que ele divide um patamar de importância de formador de opinião com um outro blogueiro, pelas características valiosas de serem do mesmo partido político e terem diplomas de faculdades estrangeiras. Deve-se abrir um parêntese de justiça quanto a esses dois detalhes: serem professores já traz a frequência quase compulsória de alunos com propósitos acadêmicos suficientes para escreverem os habituais comentários "que texto genial nobre professor", e os afiliados partidários aparecem com aquela espécie normal de complementação ao já muito propalado. Daí que ele dizer que Cortázar é um autor adolescente, acrescentado o pejorativismo inerente à afirmação, é algo que passa quase despercebido, algo como alguém falar numa partida de futebol que a Conjectura de Poincaré já foi resolvida com mérito.

Esse blogueiro cometeu dois outros sinais patológicos da síndrome do Jagger. O primeiro foi se atribuir a originalidade de ter sido o primeiro a divulgar esse truísmo pela net, o de que Cortázar etc. A questão é que tal falácia é um plágio de algo literalmente semelhante dito por Nabokov em relação a Hemingway. O segundo sintoma foi ter ido levianamente na contramão de uma racionalização eficaz apenas para dar uma de sabe-tudo erudito, que pode se cansar de um autor que é um dos alicerces de admiração e respeito de nomes que não fingem ser no campo literário, mas o são, como Bolaño, Garcia Márquez, H. Bloom, entre outros díspares mas não menos importantes como Tarantino, que teem Cortázar na medida de valor que o argentino representa.

Agora vou dormir. Cortázar não precisa de minha defesa. Lembro do que Cortázar disse sobre a Mafalda: "Não importa o que eu penso dela, mas o que ela pensa de mim." Isso já possibilitaria um prognóstico favorável a quem desejasse se curar da burrice da net.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.