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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Num estado livre, de V. S. Naipaul



Talvez nossa época seja a mais rica em escritores velhos que anunciam sua aposentadoria em toda a história da literatura. Poderíamos usar um truísmo fácil e não estaríamos incorrendo tanto assim no erro se disséssemos que nunca houve tantos escritores octogenários como hoje. Há algumas semanas, foi o octogenário Gunter Grass que anunciou sua aposentadoria, após ter feito o mesmo a Alice Munro, o Philip Roth, o Imre Kertész e o Garcia Marquez (este compulsoriamente). Herman Hesse, em seu O lobo da estepe, já escrevia, de frente ao busto de Goethe, que há algo de francamente obsceno em um escritor que chega aos oitenta anos. Thomas Bernhard, por sua vez, afirmava que chegar mesmo aos 50 era um ato de incompreensível rendição à bestialidade do mundo. Afora esse relativismo em um ou outro grau quanto à tendência da faixa etária andar de mãos dadas com o misantropismo ou com a malemolência ideológica, é notório que a idade avançada oferece uma mudança de perspectivas para a maior parte dos escritores, em que eles se confrontam com uma necessidade de readaptação ainda mais desmotivante por requerer uma nova originalidade que os afaste das armadilhas da auto-repetição ou da escrita mecânica. V. S. Naipaul, também octogenário e também aposentado, segue por um isolamento que em muito tem de semelhante com o de seus parceiros de profissão, no amargor e na desilusão com o mundo moderno, mas com uma forma de repúdio nova no que tem em seus ataques à instituição das letras inglesas e na auto-imolação de seus pecados.

Na polêmica biografia de Naipaul, escrita por Patrick French_ uma biografia dita "autorizada", e que o próprio Naipaul antes de virar as costas para ela admitia isso_, há um retrato desalentador do homem por detrás do escritor. Um Naipaul martirizante que não dispensava da violência no trato com suas ex-esposas, e com tanta negrura sobressalente em seu caráter cotidiano que assinalava que ele, obedecendo a ciclicidade que recria em desmascaramento escritores antes tidos como modelos de honra, era o novo Céline, o novo Mann, o novo Sartre da vez (todos esses, por diversos motivos, caídos na fogueira de seus próprios passados). A diferença é que Naipaul não gastou um segundo sequer de seu tempo em desmentir o que havia em sua biografia; pelo contrário, aquilo serviu para que ele abrisse as comportas e deixasse sair uma negrura ainda maior. Ele praticamente disse o que por nossas terras brasílicas é comum ouvir de entidades políticas do passado: me esqueçam! Disse que o meio literário inglês nunca o tratou à altura, que ele sempre foi considerado uma espécie de aberração colonial, que nunca o engoliram, mas só o aceitaram em nome da fria educação britânica. Essas palavras, proferidas na série de seus últimos aparecimentos na imprensa, serviram para tornar a biografia do monstro um best-seller internacional, o que nenhuma mente voltada para a paranoia dos arranjos promocionais do mercado de livros cogitaria que Naipaul as dizia para o benefício do aumento do número de vendas; ele mesmo desapareceu em sua velhice conformada depois disso e não voltou a dar as caras.

Para um leitor antigo de Naipaul como eu, por mais estranho que isso possa parecer, não houve surpresa nenhuma no ressentimento declarado desse autor. Li quase todos seus livros (99% deles, posso dizer), alguns li mais que duas vezes, e aqui percebo que o estardalhaço feito em torno daquilo que pode ser tido como uma personalidade maligna até então não descoberta é uma tolice de quem não o leu ou o leu superficialmente. Toda a sua misantropia e sua acidez contra o Império britânico, e toda sua decantada visão sobre a América e a África pós-colonial, estão em seus livros. Seus livros são tratados sobre o poder que a dominação histórica e política tem para corromper as almas dos dois lados do jogo de comando. Assim como foi despropositado a reação retalhadora contra Gunter Grass quando esse escreveu em sua auto-biografia que servira às frentes nazistas por um curto período na juventude. Quando vi a fogueira feita na imprensa contra Grass, o primeiro pensamento que tive foi mas todo mundo já não sabia disso? Em Anos de cão não haviam sinais mais que contundentes afirmando isso? Ninguém conseguiu ver que Oskar Matzerath, debaixo dos palanques em que ouvia o führer, ou debaixo da mesa em que via a concupiscência do povo alemão daqueles anos demonstrada pelo pé do amante entrando pelos entremeios da saia de sua mãe, dizia com mais eloquência e fatídica simplicidade o que estava tardiamente anunciado na auto-biografia?

Naipaul alegar ter sido tratado como um colono desigual e apiedante pelos seus páreos na literatura inglesa acaba sendo revalidado pela forma com que sua obra parece ter sido mal lida na Inglaterra. Em uma literatura cuja característica secundária (mas veemente) ser a de seu hermetismo voltado para dentro de sua própria relevância patriótica, o lugar de Naipaul no interior dela ainda é uma questão não definida e obscura. Mesmo que na maioria das listas dos grandes autores em inglês da metade final do século passado ser dividida em seus dois primeiros lugares entre Naipaul e Bellow, e mesmo com a grande fama e reconhecimento de Naipaul como uma espécie de embaixador exilado com voz proeminente sobre o subdesenvolvimento alcançadas há alguns anos, Naipaul parece sofrer um processo de decrescente teor de relevância no mundo que seguirá após o seu desaparecimento físico, um mundo onde seus personagens tirados da realidade de mazelas morais e nada auto-afirmativos do pós-colonialismo parecem sem lugar na globalização revestida de gloriosa procura por sucessos financeiros. Não é um sinal a ser desprezado que Naipaul é pouco citado na literatura inglesa: tirando os ensaios primorosos de Edward Said que o elevam e o desbancam como protótipo reconhecível do intelectual exilado que fala a verdade ao poder, o que conheço é que Martin Amis o cita em uma passagem de Campos de Londres sobre descrições feitas por ficcionistas sobre sexo anal. Naipaul parece ter conquistado um curioso ponto cego em que ele existe com toda sua excelência e superioridade sobre os demais, mas cujo misto de fatos mundanos de origem, cor e visão o congelam em um adorno paulatinamente sem expressão.

Será isso verdade? Em uma crônica de Garcia Marquez sobre literatura centro e sul americana, um dos amigos do escritor colombiano o lembra que Naipaul também é um escritor caribenho. Não é sem estranhamento que se lê sobre essa verdade básica: Naipaul é tão passível de ser classificado como escritor caribenho quanto Garcia Marquez, nascido que é em Trinidad e Tobago e sendo que parte considerável de sua produção fala sobre a realidade desse país. E, para ressaltar com certa dose de comicidade fantástica o caráter de leveza conceitual de Naipaul, talvez ele seja menos conhecido nas América do que é lá fora. Deveria-se falar mais de Naipaul por aqui, tendente a nossa imprensa literária à maledicência como é, pois a leitura de seus livros se presta a uma acusação da miséria moral, do imobilismo e do estancamento espiritual, da falta de redenção dessas nossas terras, em nível mais sem eufemizações que o de Vargas Llosa. Por aqui se perde muito em não saber o quanto seria bom falar mal de Naipaul.

Um exemplo pontual da excelência e da superioridade de Naipaul está em seu volume de contos lançado com um atraso de 42 anos pela Companhia das Letras ano passado, Num estado livre. É um dos livros mais aclamados e conhecidos de Naipaul, ganhador do Booker Prize, e um ótimo cartão de apresentação para quem queira se iniciar na leitura desse monumental autor. Antes de mais nada, as circunstâncias de sua publicação no Brasil podem demonstrar o quanto tem-se a tendência de vilipendiar a importância de Naipaul. Lembro-me que, no ano de publicação de um dos romances menores de Philip Roth, Fantasma sai de cena, li em certas plagas conceituadas da internet a eleição desse romance como "a melhor publicação nacional do ano", além do que a imprensa dedicou certo esmero em sua divulgação. Quanto a Num estado livre, uma das maiores realizações de Naipaul, pouco se acha a respeito na internet, além de uma ou outra opinião pequena, e a imprensa simplesmente o ignorou (bons tempos em que a imprensa ainda comportava personalidades ambíguas como Paulo Francis, que, por mais que se  possa dizer contra o formalismo de suas opiniões, ele podia se alardear como jornalista voltado para a literatura_ e Francis foi quem me levou ao desconhecido Naipaul, por ser um de seus autores preferidos). Pois Num estado livre é, de longe, o mais bem escrito livro lançado ano passado no Brasil, com uma linguagem precisa, uma clareza de imagens que já na primeira página demonstra o potencial de Naipaul, com personagens complexos e viscerais, e com uma fluidez na leitura que é uma das preciosidades em mostrar o quanto a leveza serve ao estranhamento (o livro é cheio disso que se convenciona perceber como subníveis de leitura, como espaços voluntariamente vagos para a interpretação, com opressivos silêncios de trivialidade).

É impossível ficar incólume diante as 17 páginas do conto-prólogo que abre o livro, intitulado O vagabundo no Pireu. Nessa peça tudo é trabalhado para não se ter nada ali. Uma simples narrativa sobre a empáfia mal disfarçada de um vagabundo numa travessia de navio. Não se sabe nada sobre ele, e ele é tão insignificante em sua graça grotesca que se torna centro dessa narrativa em forma de diário apenas como procura pelo que contar entre situações de náuseas de viagem e suportamentos sob o sol escaldante. Os demais contos, mais encorpados no centro entre esse prólogo e um epílogo retirado do mesmo diário, na soma de três (sendo o último uma novela mais longa homônima do título), continuam a temática sobre a não-representatividade dos personagens. Em Um entre muitos, temos um empregado indiano que parte com seu patrão para viver em Washington, no segundo, Diga quem tenho de matar, dois irmãos saem de uma ilha caribenha para tentar a vida em Londres, um deles no serviço pesado para garantir o sustento do outro em uma improvável carreira universitária; no terceiro conto vemos um homossexual atravessando de carro na companhia de uma mulher um país africano em guerra civil tribal. São peças que beiram a perfeição, em uma pureza flaubertiana. Os dois primeiros contos dão ao leitor, de onde quer que ele seja, a impressão agoniante de estar dentro dos personagens, e com eles se ver abandonado em um mundo cruel em que os afazeres pessoais de uma civilização babélica mata não por ações de violência ativa, mas por um desprezo tão cabal e impessoal por vir da corrente determinista de história. O determinismo é o fulcro dessas narrativas: por vezes o leitor acredita que os personagens descambarão para o terrorismo e o assassinato, mas a calma e pesada rotinização das convenções desproteiniza os personagens ao ponto de uma quase inexistência, de uma invisibilidade ellisoniana. É esplêndido o controle da voz de Naipaul neste livro: ele sofreu tudo pelo que passam seus personagens fracassados, e sua frieza, pela própria afirmação de existir em sua escolha em escrever essas palavras, é uma forma de demonstra carinho para esses números humanos que são engolidos sem piedade pelas estatísticas, pelo seguramente sadio na normativa rigidamente funcional da ortodoxia sociedade-política. O livre do título é algo que está bem acima da ironia: é uma dessas verdades exorbitantes afiadas pela sua infalível precisão. O que pode preocupar é se essa narrativa, e a série de romances e livros de viagens e ensaios que Naipaul produziu em seguida, sãos os últimos que a atual situação do mundo comporta receber. Naipaul fala da farsa da independência, das marionetes servidas ao rearranjo do poder por parte das mesmas forças de dominação, só que seus personagens sequer esbarram com esse poder: são mostrados em sua asséptica posição de seres descartados suave mas determinadamente pela história, em seus últimos momentos, de maneira quase sem drama e sem tragédia. É uma ternura única essa do velho misógino resignado em seu refúgio londrino.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Naipaul



Passei todo o ano de 2005 lendo tudo de V. S. Naipaul. Já conhecia a obra desse autor solitário e áspero antes mesmo que lhe dessem o Nobel de literatura, e uma vez quis comprovar a estranha sensação de inefabilidade me causada por um de seus romances emprestando-o a uma namorada, que me devolveu semanas depois esclarecendo de um jeito enviesado minhas impressões sobre o livro. Ela disse: "É cheio de ferros corrugados e muito depressivo". Os ferros corrugados haviam me passado batido_ coisa que depois, com um olhar feminino emprestado para me antenar a esses mobiliários cenográficos, vi que o autor tinha uma compulsão por eles_, mas a enorme tristeza e desolação de Uma casa para o sr. Biswas correspondia ao que ela estava dizendo: para um leitor pouco acostumado, era algo depressivo. Eu quis responder a ela que era o retrato exato, sem maquiagens, de nossa condição social e de nossa história, mas antevi que seria uma discussão sem objetivo para os propósitos imediatos de nosso relacionamento, e que talvez ela reagisse negativamente a uma comparação com nossa situação nacional com um enredo acontecido na distante Trinidad y Tobago. Naipaul não serviria à sedução ou à manutenção de um relacionamento. Anos depois, como iniciei dizendo, resolvi que escreveria sobre esse escritor desconcertante em minha tese de conclusão do curso de história, e me pus a ler e reler suas obras. Foi um ano em que, inadvertidamente, me tornei o que se pode dizer um fã obcecado. Naipaul dividia com Saul Bellow as opiniões dos críticos sobre quem era o maior escritor vivo da língua inglesa, ora um retirando o outro do cume.

O título de meu trabalho era um insight bem arranjado: As encarnações imprevistas, as Américas subdesenvolvidas na visão de Gabriel Garcia Marquez e V. S. Naipaul. As duas palavras portentosas foram retiradas de uma passagem de Lord Jim, em que um velho capitão da guarda imperial inglesa é flagrado pela lucidez excessiva de Conrad com seu olhar perdido, por sobre seu cavalo, como se questionando quais arranjos do destino o jogaram naquelas terras da África, quais encarnações imprevistas o trouxeram até ali. Era uma metáfora cósmica perfeita para tudo o que sentem os personagens de Naipaul, toda a deslocabilidade irremediável de um Naipaul que Edward Said uma vez definiu como o intelectual exilado por natureza. Claro que o projeto era bem maior que as minhas capacidades do momento, e vários fatores da vida diária me levaram a escrever com o coração umas quase 200 páginas empregando meu escasso tempo livre, com uma paixão que tentava passar por cima das várias carência formais que sofria minha monografia. Tive que restringir a abordagem, concentrando-me em dois livros de cada autor, mas eu sabia de tudo e lera tudo sobre eles. Escolhi Cem anos de solidão, pelo óbvio, e, estranhamente para mim, escolhi um dos títulos de Naipaul do qual menos gostava, mas que reconhecia sua excelência, o Um caminho no mundo. Foi um ano em que vivi plenamente a felicidade da leitura; tudo que fazia tinha o direcionamento programado de sopesar em que contribuiria para minha tarefa; tudo se relacionava com a beleza e o impacto das páginas que eu, e só eu, estava tendo contato_ recordo de uma noite em que passei horas recapitulando mentalmente uma série de ideias, sentado em um bar após beber duas doses de vodka.

A parte mais difícil foi a de escrever sobre Garcia Marquez. O colombiano parecia apolítico e simplista demais perto de Naipaul, e eu ainda estava sofrendo a rejeição natural depois de vinte anos devorando GGM. Enquanto em GGM se encontrava uma fé e um cavalheirismo arturiano, uma fantasia sensual que poetizava a realidade, em Naipaul se encontrava a matéria podre, incapaz de eufemizações, a brutalidade, a ultra-violência, a americanidade desse lado austral do globo sem retoques e sem papas na língua. Naipaul é visceral, escatológico, impiedoso, seco_ antecipa com maior força a adrenalina criminalística de Roberto Bolaño, e é uma mistura de sociólogo maldito com Elmore Leonard. Mesmo o seu mais "lírico" romance (e haja aspas), Uma casa para o sr. Biswas, em que narra, ouvindo a voz de Dickens, as desventuras sempre malogradas do sr. Biswas em ter uma casa, há o elemento individualizado do niilismo naipauliano, sua denúncia resignada e cruel sobre as mais profundas resoluções da História. E Uma casa para o sr. Biswas, para maior agravante, é uma das narrativas mais engraçadas da metade final do século XX, em inglês. Mas trata-se da graça recapitulativa sobre a desgraça do pai de Naipaul, um trinitino semi-analfabeto que nunca teve uma casa, e que sonhava ser escritor mas que purgava uma rotina insossa de jornalista policial. Tal romance é de uma beleza destilada, de uma potência denunciativa sobre a opressão e a mutilação espiritual dos povos colonizados, que tal montante de susceptibilidades reativas se transformou apenas no laconismo fundo da namorada que resumiu tudo em mera depressão.

Naipaul é uma experiência limítrofe para um leitor, sobretudo um leitor do mundo situado na zona do subdesenvolvimento, tanto americano, como africano, asiático ou médio-europeu. Ele escreveu sobre todas as modalidades geográficas do subdesenvolvimento, visitou todos os países, e levantou grandes polêmicas. Onde esteve foi repudiado, na mesma medida em que teve reconhecimento de sua afiada capacidade de analista intelectual desvinculado de raízes. Parecia aquele personagem real do fraco filme de Spielberg que, sem nacionalidade, morava em um aeroporto internacional. Era a antítese de todos os escritores contemporâneos: sem pátria, detinha uma liberdade que soava amarga para quem sentia ter pelo que lutar. Por causa disso, ele foi meu escritor preferido, e por um longo período, eu compartilhei da crença dos que o julgavam maior que Bellow. Um de seus mais belos livros trata, ousadamente, sobre a visão da decadência da velha Inglaterra pós-imperial, o magnífico O enigma da chegada.

Fiz uma monografia capenga mas mesmo assim tirei a nota máxima, e seu volume encapado me rende, de quando em quando, que algum raro estudante me procure para falar sobre literatura e para que eu lhe proponha um tema. Apaguei o trabalho do computador, para que existam apenas as não-cambiáveis cópias da faculdade e a minha pessoal. Mas eu escrevi este post, de forma rápida, para noticiar que, o livro que me custou os olhos da cara na importação de seu original inglês, e que é uma das obras mais instigantes de Naipaul (que lhe rendeu o Booker Prize) acaba de ser publicado no Brasil, com um incompreensível atraso (visto que quase toda sua bibliografia já foi lançada por aqui). Estou falando de Num estado livre, lançado com uma capa horrível pela Companhia das Letras. Um espetacular livro de contos, com toda crueza e violência sem misericórdia de Naipaul. Falei de Naipaul no passado, mas, como todos sabem, o homem vive, apesar de ter anunciado há algum tempo sua aposentadoria nas letras. E há pouco foi lançado uma biografia devastadora sobre ele (um biografia autorizada !!), em que devassa os capítulos de sua vida em que foi um péssimo marido, e mostra seu crescente rancor ao que ele chama, injustamente, de um desprezo do mundo anglo-saxão por sua obra. Vai o homem, mas sua obra colossal fica.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

2666, de Roberto Bolaño

                                                                                                             Para Fernanda Guo


Considerando que o romance 2666 tenha essa grandeza representativa que alguns livros possuem para estabeler um painel psicológico da época e da geografia a que pertencem, essa caudalosa e sombria ficção produzida por Roberto Bolaño no fim de sua vida pode figurar como o enfeixe a três outros romances também não tão felizes sobre nossa realidade latinoamericana. Apesar dos tantos equívocos que estão sendo ditos sobre 2666 _ sobre o que tornou-se uma convenção dos que não o leram, dizer que padece de ilegibilidade, ou, curiosamente, o extremo oposto de compará-lo à literatura de Dan Brown _, a visão mais clara é que ele é um prosseguimento da narrativa da derrocada espiritual da América Latina numa espécie de modernidade imposta sobre ela de cima para baixo, fato antecipado pelos romances "O Senhor Presidente", de Miguel Angel Asturias, "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marquez, e "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. Nesse sentido, apesar de uma das facetas de autopromoção de Bolaño ter sido a de diminuir a importância dos escritores do boom, ele não faz outra coisa que dar sua substancial contribuição a esses predecessores, desencavando essa porção de terra da inércia da dominação e trazendo-a à luz de uma revelação sem eufemismos. No romance de Miguel Asturias vemos a ditadura patriarcalista em toda sua nudez ostensiva, os assassinatos promulgados em seu nome, o silêncio rigorosamente imposto sobre a população subjugada, a opressão crua contra a qual não havia ainda um nivel possivel de reação por parte dos não conformados. Já em "Cem Anos de Solidão", Garcia Márquez, apreendendo a primeira lição lançada pelo guatemalteco, vai além, criando uma mítica para que o latinoamericano possa reconhecer-se nela como um povo, com todas as suas idiossicrasias heróicas, os seus orgulhos, paixões e derrotas _ ainda mantendo o travo principal da dominação que o norte-americano ou o europeu impunha sobre nós, mas alargando o direito de fazermos dos atributos da discriminação as características de uma personalidade étnica própria. É em García Márquez que encontramos o elemento dissidente, não pela primeira vez, mas com a coragem de alçar-se à legitimidade literária de um Dom Quixote, sem culpa e sem a necessidade de rebaixar-se ao caricaturesco. Uma outra visão errada sobre 2666 é a de que ele rompe com o dogma regionalista dos escritores do boom, levando a narrativa para cenários urbanos estrangeiros e utilizando técnicas de escrita cinematográficas da moda, do noir americano ao relato da segunda guerra, o que me faz pensar que diabos de infelizes são esses teóricos literários por não poderem abdicar de uma profissão martirizante da qual não tem o mínimo talento, e passarem para ocupações mais condizentes de mecânica de automóveis ou ascensoristas de motel. Na literatura sofisticada dos representantes do boom, o possível regionalismo se encaixa com mérito ao universal tolstoiano, e Bolaño seria um desequilibrado se tentasse escapulir do fantasma da influência por essa brecha.

É outro mérito de Bolaño não parecer-se com nenhum desses escritores, ter uma musicalidade, um enfoque e uma subjetividade que não remetem à identificação com essas fontes diretas. O terceiro romance citado acima, "O Jogo da Amarelinha",  consolida essa distância. Cortázar, que poderia ser apontado _ inclusive por mim _ como um escritor de recursos muito superiores aos de Bolaño, sob a ótica de que seu papel de trabalhador contínuo de fazer o ultra-som da América Latina antecipa o prosseguimento lógico da obra do chileno, os tornam com a mesma equivalência canônica, o mesmo valor de criadores genuínos. No romance de Cortázar, "O Jogo da Amarelinha", um passo a mais é dado além do limite traçado por García Márquez. Cortázar nos dá o direito de sermos intelectuais, seleciona uma série de personagens deportados para encarnar a nossa progenitura do Pensamento, nos eleva à condição de homo pensandis. Podemos aceitar sem vergonha que nossos diálogos foram promovidos ao nível do debate político e da busca filosófica, sem termos o peso de consciência de que devemos desculpas por essa ousadia de índios que esquecem que seu destino social é apenas a buginganga e tudo relacionado a ela. E Cortázar, na suprema cara-de-pau de mostrar que não estava para brincadeira, corajosamente acrescenta um adendo ousado à nossa fórmula do pensar: o humor anárquico. Como se não bastasse o esnobismo de subdesenvolvidos com volumes de Adorno debaixo dos braços, esses índios pós-colombianos com os pés atolados no chorume da banana querem ser engraçados, não os piadistas que têem em Groucho Marx ou nos três patetas a memória do riso, mas querem ser engraçados de uma maneira excêntrica, imaginando como seria se Kant saltasse por sobre a mesa e dançasse um fandango, ou se Plank se lançasse a um longo desafio de trocas de achacalhamento com Cyrano de Bergerac. Por isso, na lucidez de ser um instrumento de continuação da confecção do grande mural da verdade latino-americana, Bolaño sabia que não poderia ser engraçado. Cortázar já havia esgotado essa opção.

2666 é o prosseguimento desses três grandes retratos cronológicos da América Latina, mantendo-se original e independente, e, ao mesmo tempo, coerente com o andamento do passado. Não é um romance policial, apesar da maior seção de suas cinco partes ser uma coletânea em ritmo jornalístico dos quase infinitos assassinatos de mulheres na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Não é um romance sobre estrangeiros que, em maior ou menor grau, se relacionam com a América espanhola, mesmo a maioria quase absoluta de personagens sendo de americanos e europeus. O enigma a que o romance se propõe a ser está mais embaixo. Não é um romance sobre loucura, como dá a acreditar a já antológica cena da segunda parte, do livro de matemática pendurado de páginas viradas para baixo no varal, soprado pela beleza aleatória do vento, obra emulada pelo professor Amalfitano de um dos rascunhos de DuChamp. Ou, que seja, simula ser cada uma dessas coisas apenas pelo artifício obrigatório de prender o leitor ao sabor de seus interesses mundanos, mas, nas camadas mais profundas, faz seu serviço de encher de luz o panorama atual da América Latina de García Márquez, Astúrias e Cortázar, para mostrar ao leitor a derrocada de volta a uma estaca zero.

 2666 é uma súmula nada elogiosa sobre o horror da América Latina. Levei muito tempo para descobrir isso: precisamente a leitura de todos os outros romances de Bolaño antes de chegar a esse. Em uma resenha que escrevi sobre "Estrela Distante", para o blog do Milton Ribeiro, meu mote principal foi condenar a total falta de fé de Bolaño, sua "rendição", sua secura, sua abstinência voluntária a todas as nuances da escrita. Abria mão da filosofia, da poética, do humor. Era ostensivamente vazio e objetivo, como as fotos de um tratado sobre sarcomas. Com 2666 eu compreendi que ele não poderia ser de outra maneira. Que talvez essa imposição a qual se submetera em nome da fidelidade à sua missão de dar sequência a um espólio, o tenha feito sofrer sob o peso da disciplina. Sua razão artística e sua legitimidade, o que o tornava justificável como escritor, era essa frieza. Como todo prosseguidor que tem algo de valor a dizer, assumia sua condição de antípoda em relação a seus antecessores. Tinha de destruir toda a mítologia de García Márquez, a poética joyceana de Astúrias, a inteligência, a cultura e o humor de Cortázar, para, em contrapartida, reafirmar todas essas características, asseverando que a América Latina de hoje não comporta mais tais molduras. A América Latina de Bolaño é uma espécie de Macong conradiano, uma terra sem lei, de extrema violência, uma terra que, no dizer de "Estrela Distante", nunca estaria pronta para a poesia. Daí o tema recorrente nos seus romances da procura por uma poeta ou por um escritor desaparecido, ou as figuras distorcidas nas quais se juntam como numa caricatura grotesca o paradoxo da escrita e do assassinato, do esclarecimento e do irracional: a busca por uma utopia romântica para a qual o desespero da não aceitação leva seus detetives selvagens para onde as miragens do sonho desaparecem sem vestígios, no deserto, ou contra os sólidos muros da cidade.

Borges, num de seus memoráveis prefácios, lembra o que disse um crítico sobre o romance "O Morro dos Ventos Uivantes": não se engane achando que o cenário do romance é a Inglaterra vitoriana; ele na verdade se passa no inferno. O mesmo se pode dizer de 2666. Todo ele se passa no inferno, mas no esteriótipo de um inferno onde as semelhanças com a América Latina são mais que coincidentes. Só um latinoamericano pode perceber plenamente isso. Por isso, 2666 é a grande denúncia sobre a prostração espiritual dessas américas. A denúncia do quanto o coronel Buendía, o Cara de Anjo, e os exilados mannianos superinteligentes de Cortázar fracassaram diante a bestialização do cotidiano político de uma região que nunca teve mais que simulações mal arranjadas de redenção. Nesse romance inacabado no qual Bolaño conseguiu dizer tudo que queria, o chileno se aproxima de outro importante escritor caribenho, o índo-britânico V.S.Naipaul, para quem a América Latina ainda está distante de se livrar de sua sina de colônia atrasada, vítima do embasbacamento conivente com as mesmas formas de poder que apenas trocam de roupagem para falsear uma mudança, sofrendo sob a violência e o assassinato. Uma América para a qual não só a poesia é inacessível, mas qualquer forma de esclarecimento iluminista.