É sempre assim: minha falta completa de disciplina de leitor permite que, antes que eu possa acabar o livro com o qual estou comprometido há semanas, um outro que recém chegou em casa se interponha no caminho e me cative por inteiro. Dessa forma, deixei de ler os dois livros que estou para finalizar, com os quais havia me comprometido para esse fim de semana, e me vi hipnotizado pela fantástica prosa do Jesus de Paulo Leminski. Comecei por folhear o volume com mais outras três biografias (que soam improváveis, para quem conhece o grande curitibano apenas superficialmente), e logo li a primeira página da parte de Jesus (que Leminski referencia como profeta, outras vezes poeta), e logo não conseguia mais largar a leitura.
Vamos por partes: Leminski parece deixar ver aqui que era um profundo conhecedor de literaturas; não só pelo monumental domínio sobre os tantos textos hebraicos, gregos e em latim tardio, em que estão enredados os tantos livros crísticos e judaicos, cujos longos excertos citados no volume foram traduzidos por Leminski, como, ao que me pareceu invejável, sua perfeita compreensão das indevidas limitações em que está a literatura brasileira. Explico: lendo esse conjunto de ensaios simplesmente estonteantes (para usar do belo coloquialismo de beco do autor), é impossível não descobrir em Leminski o nosso Borges, ou o nosso Cortázar, ou o nosso Saul Bellow e Anthony Burgess, em questão de intelectual ultra-erudito, leitor de tudo e senhor de vastos conhecimentos. Leminski conhece tudo. É, penso, o nosso mais inteligente e culto poeta, senão nosso mais, nesses termos, escritor. O único que me vem à cabeça que poderia lhe ombrear em uma conversa de deixar queixos caídos é Guimarães Rosa. Por isso, tanto por exaustão abnegada de quem está a um nível muito elevado, tanto como pela conjunção natural entre popular e erudito que acontece quando os limites distantes são rompidos, Leminski apresenta essa brincadeira na escrita, esse não-se-levar-a-sério que se leva muito a sério, essa criança leminskiana que se surpreende e se encanta com tudo, esse ingênuo genial que sempre me lembra de Whitman quando diz que o aprendizado o empacou diante o primeiro livro e as magias da natureza de maneiras que a única coisa que ele quis fazer era ficar lá, observando, calado. Assim, Leminski parece dizer, com essas biografias improváveis, que em nossa literatura pátria, tão pequenina, a ausência de romances-ensaios, ou de uma escrita de peso sobre outros campos de exploração do saber, poderia ser rompida aos poucos, com paciência, com a quantidade de páginas reduzida que adivinha o livro didático juvenil, mas que, em contraposição, não é nada modesta. Essas quatro biografias parecem livros informativos encomendados, como a coleção Primeiros Passos; tem ilustrações cômicas, são espaçadas por parágrafos pequenos, mas esse fenótipo é astutamente enganador. Esse Jesus, por exemplo, sem nenhum medo de exagerar, tem a mesma volatilidade dos escritos esotéricos de Saul Bellow e Thomas Mann. Enquanto eu o lia, deslumbrado pelo domínio de Leminski, me lembrava das tantas reflexões sobre o espírito em romances como Herzog e O Legado de Humboldt, quanto da primeira parte de José e seus irmãos, em que Thomas Mann cria uma cosmologia na qual data a época em que a matéria foi insuflada pelo Verbo.
O Jesus de Leminski primeiro mostra essa revelação sobre a literatura brasileira, dos meados da década de 1980 em que foi escrito; Leminski parece dizer aos outros escritores nacionais: "Oi, podemos fazer isso; podemos sair da temática tirânica a que estamos confinados por termos nascidos com essa vocação, nesta geografia, e escrevermos sobre coisas distantes, sobre assuntos ilimitados, sobre filosofias germânicas e aquilo que construiu as religiões; nada para nós é sagrado, e podemos envolver essas digressões com muito conhecimento". Leminski reivindica, nesses quatro livros, o que Bolaño reivindicou ao falar que o subdesenvolvimento de nosso continente não permite que aqui surja uma literatura de gênero. Jesus transita por uma fluidez formal que insinua uma vastidão possível por parte do autor, que poderia ter sido escrito mais, ter sido escrito um tratado de 300 páginas só com isso, mas a descontração de Leminski impõe a concisão, impõe uma falsa modéstia. Em determinada parte, o poeta escreve algo e coloca em parêntese, oi Alice, como se aquilo fosse o prosseguimento de uma conversa anterior muito explorada, muito intensa, algo não editado e que é puro Leminski. Ganha-se muito tornar-se íntimo da escrita de Leminski. Foi uma das minhas maiores realizações dos últimos anos.
O livro tem muito humor (começa com uma falsa notícia jornalística, extra!, extra!, que soara nos tempos do nazareno), e passa por um estudo sucinto sobre as etnias judaicas da época, sobre as similitudes entre os quatro evangelhos e suas discordâncias maiores, sobre as heranças das religiões pagãs no cristianismo, e sobre Jesus e Buda, sobre Jesus e as mulheres, sobre a força poética que faz de Jesus um dos maiores poetas da história (nessa parte, há belíssimas coletâneas dos evangelhos canônicos e apócrifos traduzidas do original por Leminski). Uma das partes mais saborosas e espantosas, se reserva às páginas em que Leminski aproxima James Joyce de Jesus, sobretudo as várias implicações cristãs em Finnegans Wake_ partes realmente fundamentais para quem gosta de literatura e Joyce.
As outras biografias, que começarei a ler a partir de amanhã, são do poeta Cruz e Sousa, do inventor do Haikai, Bashô, e de Trótski. Um livro arejado e delicioso de se ler.
