Depois de ler O pintassilgo, novo romance de Donna Tartt, é difícil não dar ouvidos para críticos como James Wood que acusam o infantilismo na produção da atual literatura. Desconsiderando diagnósticos mais genéricos, como o de Vargas Llosa, que diz que o infantilismo é uma praga espiritual oriunda da degeneração do gosto que assola todas as vertentes da cultura de 20 anos para cá, o romance da Tartt por si mesmo desperta cogitações sérias de que essa pobreza, vinda de uma visão limitada do mundo, revela de maneira menos segura para nosso conforto civilizatório que a atrofia da experiência está também fazendo seus estragos no campo da imaginação. E experiência tem sido um tabu para os escritores norte-americanos, essa classe de criadores que sofre de maneira mais primordial a transformação do mundo físico da experiência tradicional para o virtualismo sinestésico que simula a coisa autêntica. Tartt, por inúmeras vezes neste seu romance, se enquadra na crítica que Joseph Bródski fez a uma obra de Solzenítskin: assim como o autor russo de Pavilhão de Cancerosos, ela tangencia a sublimidade, bate nas portas de uma expressão que se adivinha grandiosa, para logo em seguida morrer na praia. Ela nunca acontece nas altas esferas artísticas as quais desde sua foto com ar vitoriano nas orelhas do livro ela promete ser capaz de acontecer. Ela sempre perde a linha de concentração e cede de maneira até ofensiva aos interesses batidos do mercado de imagens feitas, todas elas dedicadas à alta percentagem de atender ao gosto infanto-juvenil. Tudo é um tanto mais grave porque Tartt é, indiscutivelmente, uma escritora que tem mais qualidades e bem mais talento que o restante de seus pares; é capaz de descrições formidáveis, de construção de personagens precisamente verdadeiros (que são realçados pela generosa quantidade de movimento que a autora dá a eles: personagens que oferecem uma humana e ilimitável gradação de olhares enquanto conversam); e de páginas que aventuram reflexões filosóficas que seriam relevantes se na própria ação de escrevê-las não viesse a reação subjacente dela moderar o tom para não espantar o modelo de leitor jovial que ela enxerga do outro lado do livro.
Além da falta de consistência. As primeiras 200 páginas são muito boas. O leitor que traz na cabeça os apegos que o fez se interessar pelo livro_ de ser dickensiano e meio que na contramão do virtuosismo técnico modístico dos romances americanos atuais_, se alegra ao ver o apartamento um pé abaixo da linha da sarjeta onde o jovem herói do romance vai morar, com todas as suas sombras e seu conforto de antiquário cheio de móveis antigos e livros empilhados, com as janelinhas nubladas polvilhadas pela chuva constante. O leitor é levado à melhor parte de seu memorial de leituras introspectivas quando o jovem herói se encontra com a menina de olhar enigmático que ele viu por último no atentado terrorista que matou sua mãe, a menina meio que deformada pela explosão, com metade da cabeça restaurada por placas de metal, deitada em um quarto soturno do apartamento e ouvindo Arvo Part em doses regradas para combater sua enorme dor de cabeça. Há uma beleza tocante nisso, uma beleza clássica pelo alquebramento sereno; há um convite feliz para o diálogo e para o recolhimento valioso que a grande literatura oferece. Eu poderia seguir pelas 700 páginas se tudo acontecesse dentro dessa atmosfera do quarto. Não que as 700 páginas do livro funcionassem melhor naquela falácia costumeira de que se fossem menos as páginas... ; o livro tinha que ter mesmo suas 700 páginas, mas gastadas com outras coisas, gastadas com a capacidade abortada de Tartt de recolhimento. Talvez A história secreta tenha conquistado tantos adeptos por causa desse recolhimento, o que verei em uma das minhas próximas leituras. Mas aqui, Tartt atende com exageros ao gosto do infantilismo, com um arremedo pedante de tudo que ela imagina ser cool e euforicamente provocante, de tudo que ela imagina em sua ingenuidade de escritora adulta com amplo potencial ser o que agrada à juvenília.
O interessante é que, para o leitor atento, fica fácil notar que Tartt não domina nada o universo juvenil urbano moderno. Seu adolescente problemático narrador se droga demais, toma todos os tipos de narcóticos possíveis como se fossem balinhas M&M de chocolate, e ainda assim, no auge da paranoia, lê O idiota e escreve ensaios estudantis de dez páginas sobre Thoureau e literatura inglesa. Em seu i-pod (que, perdoem minha ignorância sobre o assunto, me parece uma peça anacrônica de se possuir como um utensílio trivial na época em que as cenas são narradas, 14 anos atrás), ele tem "tudo o que há de melhor em hip-hop", ao lado de Shostakovitch, Mahler e Bach. Tartt se divide entre o que gostaria de fazer com o livro, com o que deve fazer para o mercado editorial, e os personagens sofrem com esse bipolarismo de comportamentos e gostos. Tartt gostaria de situar todo seu livro em uma Nova York sombria e dickensiana, mas resolve atirar seu herói por 200 páginas na cidade mais no extremo disso (como se houvesse um certo masoquismo em sua escolha), Las Vegas. E mesmo nessa cidade intranscedente ela consegue jogar suas pitadas de fog londrino, pois o herói mora em um bairro de casas abandonadas aonde os carteiros não chegam, como uma versão esquisita do universo de Oliver Twist, e nunca menciona nem de longe o glamour neônico da cidade.
O pintassilgo é um zeitsgest do romance moderno americano. Enquanto a literatura europeia aproveita, em um de seus ramos, do revisionismo histórico, como Sebald e Nooteboom, a literatura norte-americana se perde em suas instâncias medianas em explorar uma espécie de instante perpétuo provocado por um novo extasiamento em relação à nova repaginação de poder financeiro da América, caindo no efeito colateral de transformar tudo em uma súmula de Hollywood e sitcom.
O interessante é que, para o leitor atento, fica fácil notar que Tartt não domina nada o universo juvenil urbano moderno. Seu adolescente problemático narrador se droga demais, toma todos os tipos de narcóticos possíveis como se fossem balinhas M&M de chocolate, e ainda assim, no auge da paranoia, lê O idiota e escreve ensaios estudantis de dez páginas sobre Thoureau e literatura inglesa. Em seu i-pod (que, perdoem minha ignorância sobre o assunto, me parece uma peça anacrônica de se possuir como um utensílio trivial na época em que as cenas são narradas, 14 anos atrás), ele tem "tudo o que há de melhor em hip-hop", ao lado de Shostakovitch, Mahler e Bach. Tartt se divide entre o que gostaria de fazer com o livro, com o que deve fazer para o mercado editorial, e os personagens sofrem com esse bipolarismo de comportamentos e gostos. Tartt gostaria de situar todo seu livro em uma Nova York sombria e dickensiana, mas resolve atirar seu herói por 200 páginas na cidade mais no extremo disso (como se houvesse um certo masoquismo em sua escolha), Las Vegas. E mesmo nessa cidade intranscedente ela consegue jogar suas pitadas de fog londrino, pois o herói mora em um bairro de casas abandonadas aonde os carteiros não chegam, como uma versão esquisita do universo de Oliver Twist, e nunca menciona nem de longe o glamour neônico da cidade.
O pintassilgo é um zeitsgest do romance moderno americano. Enquanto a literatura europeia aproveita, em um de seus ramos, do revisionismo histórico, como Sebald e Nooteboom, a literatura norte-americana se perde em suas instâncias medianas em explorar uma espécie de instante perpétuo provocado por um novo extasiamento em relação à nova repaginação de poder financeiro da América, caindo no efeito colateral de transformar tudo em uma súmula de Hollywood e sitcom.
