terça-feira, 21 de outubro de 2025

Histórias de amor no novo milênio

 


Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sátántangó

 


Não vi o filme Sátántangó, mas dizem que tem uma polêmica cena envolvendo a tortura e morte de um gato. Isso me fez afastar desse filme, ainda que o diretor tenha tentado se defender dizendo que o gato foi anestesiado, o que me parece ter piorado a situação. Mas no livro, obviamente, tem a mesma cena perturbadora. É perturbadora tanto pelo sofrimento de um animal quanto pelas questões filosóficas que ela suscita. Quem pratica esse ato abominável é Estike, uma menina com problemas mentais, a mais nova das irmãs, tornadas prostitutas, e do irmão (que é um pervertido idólatra). Estike é insustentavelmente pura, e isso que é o mais grave. Ela tem a pureza absurda de uma serial killer, ou a pureza absurda de um anjo? No livro, que é todo simbólico sobre a formação das religiões e das instituições de poder humanas, Estike pode ser vista como Cristo. Há uma cena em que ela se manifesta em uma áurea messiânica, depois de sua morte. O leitor é levado a se confrontar com a ideia de que a divindade, inserida na carne, envolve um processo tão amoral de subjeção e violência quanto a tortura feita por Estike. O experimento crístico que culminou na crucificação não seria ainda mais brutal? Um Deus encarnado no primitivo padrão terreno não envolveria um descompasso entre sua pureza e potência com os limites da realidade, que seria entendido pela nossa mente canhestra como algo brutal? Krasznahorkai nos faz ver a bestialização que se esconde nas religiões, e como a própria moral religiosa nos treinou para sermos hipócritas travestidos de piedade no alto da higiene de séculos de sacrifícios de animais a Jeová ou ao deus da hora. Toda religião, assim como todo aparato civilizacional, se fundamenta na barbárie e na violência, o que os aspectos metafísicos da transubstancialização evidenciam. Mas Krasznahorkai não é um niilista, é, pelo contrário, um autor religioso, metafísico. É um ateu que crê no sagrado, ainda que se resigne a perceber o sagrado pelas insinuações do sublime. Quando Estike se manifesta em espírito, os três homens que a vêem (Irimiás, Petrina e o "menino"), apavorados, rejeitam o milagre. Um diz que é a fome e a penúria que os fazem ter alucinações, "como nas trincheiras da guerra". E assim, conformados, o próximo ato desses três missionários é negociar com Páyer, o vendedor de armas. Irimiás é tanto são Paulo apóstolo como os herdeiros de Maomé, é um dos sacerdotes de Quetzalcoatl e O Grande Inquisidor. Irimiás, Petrina e o "menino" são os institucionalizadores da fé, os primeiros padres e papas e pastores. Petrina, diante da fulgurante luz de Estike, a menina Deus que testou sua plenipotência elegendo um gato para o primeiro arrebatamento, pergunta a Irimiás se ele acredita no inferno. "Deixe de bobeira", responde Irimiás. Nesse romance soberbo, Krasznahorkai nos leva onde ninguém nunca foi, no Cristo como primeira revelação satânica (lembrando Zizek), no Deus que ao se manifestar na terra incorre no paradoxo destruidor de ser impossível que um Deus se manifeste na terra. Que diferença tem a brutalidade de um gato torturado com o cadáver de um menino exposto na igreja católica, ou das tantas barbaridades escatológicas professadas por cada religião? Krasznahorkai reforça que a verdadeira religião existe, mas a religião da independência, da interioridade, da supressão, do absurdo. A primeira cena do livro mostra os apóstolos Irimiás e Petrina saindo de um cartório, um local sem elevação, sem valor, sem mistério. Os líderes dos homens, diz Krasznahorkai, são todos uns panacas trapaceiros e assassinos sem alma.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Senhorinhas

 




A Júlia adora senhorinhas. Quando ela vê uma senhorinha andando pela rua, com seu jeitinho fofo, ela me diz: "olha só que linda, papai, aquela senhorinha!". E eu invariavelmente respondo: "realmente é um encanto. Quem vê nem imagina que ela já foi de uma quadrilha violenta de assaltantes de banco". A Júlia de primeiro se admirava: "mesmo, papai!", e quando via que era brincadeira minha ela ria e dizia: "deixe de bobeira, papai". Se ela via uma senhorinha e cantava a meiguice de seu passo desbravador pela rua, eu dizia: "linda! Mas ela acaba de colocar chumbinho nos portões de cada vizinho que tem cachorros do bairro". Ou eu digo: "que coisa delicada! Ninguém imagina que ela esganou a irmã gêmea e escondeu o corpo num baú". A Júlia se delicia com essas barbaridades e sempre ri me dando bronca. Uma vez, de frente à livraria da cidade, quando saíamos com alguns livros, uma dessas senhorinhas, sentada numa cadeira de fio na calçada de sua casa, pega o Eric pelo braço e começa a mexer no cabelo dele. "Que menino bonito, vem cá na vovó". E o Eric, envergonhado, para e responde sobre seu nome, sua idade, essas coisas. Entramos no carro e todo mundo encantado com a fofurice daquela senhorinha, e eu digo, taciturno: "Ela mandou matar o marido há vinte anos, que agonizou no mesmo lugar em que ela está sentada. Ela foi presa por uma semana, subornou o delegado e os policiais e foi inocentada. Tinha as fitas telefônicas com as gravações da conversa dela com o pistoleiro, que foram todas apagadas". A Júlia, a Dani, e mesmo o Eric se admiram de eu ter dessa vez me aprimorado com tantos detalhes, e a Júlia retruca: "nossa papai, deixa de ser bobo". E eu insisto: "dessa vez é verdade, ela é a dona Adélia, tem dois filhos que desde então não conversam mais com ela". Precisei de dias de insistência pra convencer os três.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O anticristo

 


Entro no facebook hoje. Vídeos que eu não quero ver são jogados na minha cara. Não quero ver um avião planando. Não quero ver um cara pendurado numa montanha. Não quero ver um vídeo caseiro de uma mulher de bermudas pegando um vaso na estante. Etc, etc, etc. Tudo de páginas que eu não sigo. E vem mais uma enxurrada de propaganda, as mais estúpidas possíveis. Não suporto e largo o celular. Creio que a depressão crônica que me toma todos os dias vem disso, dessa plenipotência da imbecilidade e do péssimo gosto. Me passa pela cabeça a impressão de que é assim que os poderosos sempre nos viram, os czares, césares, ditadores, colonizadores, presidentes, e as redes sociais agora nos mostra o segredo. A grande maioria da humanidade consiste de futilidade e ausência de espírito. Me lembro de Gurdjieff dizendo que só uma minúscula porcentagem de nós conseguiria a conquista da imortalidade. E Simone Weil dizendo que só poucos conseguem saber que existem, que vivem. Tudo o mais vai se apagar pela própria inanição do espírito, pela própria rarefação da consciência. Eu ainda fico aterrorizado de ver como nos deixamos chegar a isso. Minha avó me contava, quando eu era muito criança, sobre o anticristo. Que o anticristo iria marcar cada um dos habitantes da terra, e todos esses marcados iriam sucumbir e perecer. E eu, com oito anos e já muito cético, ria da ingenuidade pentecostal dessa senhora tão devota, pensando que quem seria burro pra se deixar marcar pelo anticristo. E hoje eu penso, quem me dera se houvessem elevadas entidades cósmicas, como um demônio, como um anticristo, para validar uma possível importância de nossas almas. Seres espirituais não tem interesse por nós. A realidade, se eu pudesse voltar no tempo e contar para minha avó, seria tão imbecil que ela jamais acreditaria. "Vó", eu lhe contaria, "o esplendor de Lúcifer não aconteceu, a senhora está errada. Quem nos dera! Aconteceu algo muito, muito, muito pior. Toda a humanidade, que está explodindo, oito bilhões, aceitou voluntariamente viver na mente de um adolescente. Toda a humanidade desistiu de planos maiores e se resignou pelo mais pobre, o mais abjeto, o mais feio, o mais perverso, e fica 24 horas só trabalhando feito um verme, feito uma mula, e vendo vídeos estúpidos. Sorrindo com carinhas estúpidas para mascarar a enorme tristeza. Não houve a glória do Mal, vó. Não houve a dignidade excruciante do inferno de Jó. Não houve fogo nem nenhum de nós teve a honra de ser transformado em uma estátua da sal. Houve só a abissal e brega burrice. Só as cores da miopia e os sons das dancinhas." Eliot disse que o fim viria não com um estrondo, mas com um lamento. E mesmo ele estava errado. O fim está vindo com um meme de um peido, e todos nós símios rindo do alto das árvores jogando bosta e se masturbando um nos outros. Até que tudo seja passado no rodo e não sobre nem uma fagulha de luz para testemunhar que seres como nós um dia existimos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq

 



A leitura desse fenômeno de vendas, chamado Michel Houellebecq, suscita muitas cogitações sobre o que vem a ser carisma na literatura contemporânea. Houellebecq é retorcido com certa insistência, pelos seus leitores bem intencionados, para caber no molde de um Jonathan Swift e de um Albert Camus, e mesmo em suas primeiras obras ele tendo demonstrado não ter nenhum propósito de se equivaler a esses modelos, já em seus romances mais recentes vem reagindo passivamente a essa necessidade de entendimento, talvez de forma inconsciente. Em seu romance Plataforma, quando a temática das novas investiduras da dominação global através do turismo sexual dos antigos dominadores nas ex-colônias se junta à repercussão de um polêmica criada e exagerada pelos jornais, o carisma com muitas lacunas do autor sofre uma espécie de eufemização na tentativa de ver sarcasmo sofisticado no que aparentemente é apenas um niilismo grosseiro e uma astuta adequação ao que o público ávido por comprar livros requer. Tudo não passa de uma estratégia mercantil: o mercado encontra um escritor que polemiza dentro do gosto do freguês, e a mídia se apressa a potencializar o escândalo de uma elegante má reputação também ela com olhos raposinos nos lucros. É o par com sintonia perfeita para alimentar a fama e a glória para ambos os lados_ quantos jornalistas e formadores de opinião não passaram a se beneficiar largamente com documentários, reportagens e livros sobre Houellebecq?_: Houellebecq escreve Plataforma, um romance que só com muita credulidade poderia matizar delicadezas pontuais da política moderna como o turismo sexual e o islamismo, e a mídia ecoa com uma sensibilidade simuladamente ultrajada que realmente o autor brutaliza tanto o turismo sexual quanto o islamismo. Talvez o que satisfaz em primeiro plano o leitor nem seja a controversia, mas os mobiliários de cena os quais Houellebecq é pródigo em oferecer_ como paisagens, o tédio dos aeroportos e os apartamentos aquecidos de Paris_, mas a premissa sustentada pela propaganda feita para que as sublimidades de sua escrita passe a dar a impressão ao leitor de que ele está ganhando algo mais profundo do que um simples hedonismo de viagem: há ali uma sarcasmo político, um humanismo às avessas, uma fina experiência filosófica. Quando Houellebecq escreve todo um romance sobre turismo sexual, que qualquer um levemente bem informado sabe ser uma característica de todos os países, algo notório e incapaz de provocar surpresas, o imaginário criado como áurea à sua mensagem secreta é que quando ele aparenta defender a exploração de meninas em países subdesenvolvidos ele está, na verdade, emulando Swift quando este satiriza que a solução para conter a desigualdade social da Irlanda é comer os filhos dos irlandeses pobres. E no seguimento dessa colaboração entre escritor e mídia publicitária, Houellebecq encerra Plataforma com um massacre provocado por islamitas, o que dá à obra uma segunda vertente de incorreção. Se o leitor tiver ânimo para uma segunda leitura de Plataforma, verá que sua primeira impressão é a certa, de que tal romance tem 400 páginas dedicadas a descrições sexuais de uma insensibilização fisiológica (com uma repetição da frase, que é uma assinatura do autor em todos os seus livros: "ejaculei violentamente"), e uma longa e morosa catalogação sobre a burocracia de como funciona uma agencia de turismo internacional. Não que Houellebecq seja mal escritor, mas a questão é que ele parece ter perdido a mão, parece que seu excepcional talento demonstrado nesta que é sua única grande obra, Partículas elementares, se limita agora apenas a um bom cenógrafo. 

Uma recente pesquisa apontou que as crianças mais bem educadas do mundo são as francesas. Elas não fazem bagunça em aviões, elas não gritam, elas não pulam, elas não atravessam os assuntos dos adultos, elas não dão birra: uma criança francesa, pelo que enalteceu as revistas que ensinam as etiquetas do bom comportamento para famílias abastadas, para todos os efeitos do bem público, simplesmente não existe. Elas estão lá como composição do ambiente, mas são esvaziadas desde muito pequenas de qualquer potencial de perturbação. O segredo para se obter uma criança destas, reproduz por nossa terras virtuais o site da revista Veja, é porque os franceses não as tratam como crianças, os franceses deixam bem claro que as vidas dos pais estão desvinculadas das vidas de seus filhos, no tocante a tudo que esteja externo à manutenção financeira de seus estudos, alimentação e saúde. O carinho é algo protocolar, biológico, como deve ser entre bons conviventes de idades diametralmente opostas e que só por um acaso envolve detalhes escatológicos triviais como a gravidez e amamentação. Eu sempre achei que a excepcional assepsia da educação parental dos franceses determinou toda a literatura francesa. Determinou que seja algo impossível para a literatura francesa gerar um escritor como Kafka, por exemplo; e determinou que a atmosfera de abandono cósmico pretendido por Beckett para seus romances tenha levado Beckett a optar escrevê-los em francês. Nenhum escritor francês jamais teria a capacidade idiossincrática de centrar a figura do pai em sua obra, como fez Kafka, nem nas complexas identificações deístas do pai como em O processo e O castelo, nem mesmo no mais pungente debate com a tirania caseira do pai em Carta ao pai. Para um escritor francês, a figura do pai é meramente um assombro muito bem estancado em eras passadas a ponto de se tornar um reminiscente sem nenhum apelo filosófico em seus genes; o pai na literatura francesa tem um peso bovino, de animal associado a ilesas características reprodutoras, de uma figura que aparece nas fotos com uma seca intranscendência que é visto pelo seu filho com a falta de qualquer necessidade de esgotamento racional; o pai poupou o filho de especulações esotéricas, de nostalgias emocionalmente pouco econômicas e desgastantes; o pai oferece ao filho o dever de devolver no final da vida do pai a mesma polidez de ausência de toques desnecessários que este outorgou ao filho, na infância. Mesmo Camus, o menos francês dos escritores em francês, fracassou diante o abismo de tentar escrever uma elegia mais ocidental a seu pai, em O primeiro homem, quando todas as suas pretendidas observações sobre o túmulo do pai se transformam no mesmo ruído proximal e sem fôlego, expirado com pressa. E por isso o mais próximo do afeto paternal que se encontra na expressão francesa seja o da eutanásia do pai: seja no filme As invasões bárbaras, ou no romance de Houellebecq, O mapa e o território. Mas algo tão reativo para a arte como a figura do pai não é extirpado sem sérias consequências estéticas e significantes: a literatura francesa moderna é incapaz de se beneficiar da riqueza do tema da paternidade (temos aqui a mais gritante das exceções à regra na figura de Proust, principalmente na tocante e belíssima relação de paternidade entre o sr. Vinteuil e sua filha, que se acentua e perde todos os atenuantes regidos na educação da filha somente após a morte do pai, e na relação peculiar e terna do narrador com sua mãe).

Isso é amplamente visto nos romances de Houellebecq. Para nós, leitores sul-americanos, a assepsia da importância do pai é ainda mais implacável, nós que sempre fomos muito mau criados em nossos mimos de compensações supersticiosas e nossas balanças de afeto católicas, o que para o leitor francês de Houellebcq não passa de pedantismo circunstancial. Essa ausência de esoterismo afeta muito a qualidade da mais ambiciosa obra de Houellebecq, O mapa e o território. Esse romance é a prova de força do que sobra do carisma do autor quando ele tenta dar-se autonomia de escritor relevante negando-se a manter um contrato tão evidente de recíprocas garantias com a mídia polemista. Neste romance Houllebecq abre mão do sexo (há poucas cenas, e a usual frase "ejaculou violentamente"), não o colocando como um dos pés da obra; e aqui ele não recorre ao escândalo ou à maledicência. Sua tentativa de autonomia é respeitável, mas o que ele pretende ser a aproximação ao patamar sério de um Camus, acaba mostrando vários defeitos na obra. O defeito recorrente é o unidimensionalismo dos personagens: o herói da trama é bonzinho demais, racional demais, se permitindo um arroubo de violência moderada no final para ganhar legitimidade. As mulheres ainda são as sacerdotisas agradecidas dos desejos dos machos, que muito tem colaborado para as feministas verem no autor a encarnação do demônio, mas com menos disposição ao sacerdócio do que aparecem nos outros romances: elas arvoram uma inédita independência, sendo que a namorada do herói o deixa pela carreira profissional_ aqui, pela primeira vez, Houllebecq permite que uma de suas mulheres tenha humor, na figura da promotora de exposições do herói. O segundo e mais grave erro foi a técnica mal sucedida do próprio autor se pôr como um personagem no livo: na verdade é o que o livro tem de melhor, um Houellebecq pouco higiênico e com abstrusões de humor, mas o sentido da coisa fica incompreensível e a brutalidade da resolução dada ao artifício dá a impressão de uma mera comicidade gratuita.

A parte genuína da obra, a que parece capaz de alçar Houellebecq para um novo patamar, é a relação entre o pintor e herói da narrativa, Jed Martin, com seu pai. Martin é um recente milionário das artes, e seu pai é um profissional do ramo da arquitetura que está prestes a enfrentar o vazio de uma aposentadoria sem os vícios urbanos do excesso benemérito de trabalho. A convivência entre os dois, como não haveria de deixar de ser, é fria, distanciada, monologal, mecânica. Todo o peso da excepcional educação pragmática é visto na vida de Martin: seu determinismo ao sucesso, seu apartamento de alto luxo sem mobília em que ele dorme em um colchonete suportando o ronco do aquecedor sempre estragado, seus meses em que fica trancado em casa pintando, sem falar com ninguém, ao ponto de um simples pedido em uma padaria ser um esforço de desatrofiamento das cordas vocais. Martin vive a angústia de sua mãe ter suicidado antes que sua memória infantil pudesse perpetuar uma imagem dela. Martin é muito francês em seu polimento e suas reservas, em seu humanismo embutido aquém da racionalização. É o mais humano dos personagens de Houllebecq, em uma bibliografia recheada de personagens que estão situados além do bem e do mal, o mais próximo a um desentronamento de seu casulo para ser aquecido por uma impressão de alteridade. Uma vez, sem motivo algum, ele desce de seu apartamento e vai até o escritório do pai, apenas para estar diante dele, sabendo que a mesma inexorável falta de assunto vai abater sobre eles. O pai o recebe esbaforido, em pleno meio de um dia hipertensivo, e o repreende por assustá-lo e pelo nonsense da visita. Tempos depois, o próprio pai o visita, e eles bebem junto, num clima de intimidade desconcertante de uma primeira vez, e com o laconismo de sempre o pai lhe diz que vai recorrer à eutanásia em uma clínica suíça, porque se nega suportar o tratamento de um câncer de reto. É a última vez que se veem. Martin, em um novo arroubo, parte para procurar a clínica suíça para saber sobre os últimos momentos do pai, e encontra um prédio branco límpido e com a pureza sem exaltação dos muito ricos e muito civilizados. Lá, ele é atendido por uma mulher insípida e crua, avessa sem a mínima paciência a atender à vontade de Martin de saber o que seu pai viu e falou em seus momentos finais. Ele a soca e a espanca violentamente, a deixando atirada em evidente coma no chão, e sai diligentemente até o aeroporto, contando ser preso a qualquer hora. Neste momento, se fosse um filme, a plateia do cinema com certeza teria se regozijado em gritos e batido palmas. Martin vê que uma clínica destinada a multi-milionários jamais iria procurar os noticiários com uma denúncia de espancamento, e ele chega de volta a Paris. Quando ele estava procurando a clínica, um erro de interpretação idiomática faz com que o taxista o leve a um bordel de luxo. Houellebcq faz um novo esforço em adstringir o peso da vida com comparações do quanto seria melhor se o pai de Martin tivesse recorrido ao hedonismo do braço daquelas moças, no final da vida, em vez da solução da clínica. Inconscientemente ele acabou transformando todo o bem engendrado mobiliário de cena apto para reflexões mais profundas no mesmo clichê dessa vez sexualmente ponderado de seus outros livros. O único alcance obtido foi esse: a figura do pai fracassa em produzir algo substancial e vira uma decantada comédia. O que é revelado como mais diagnóstico desse fracasso é que o pai de Martin, na juventude, sonhou ser também um artista.

O vazio da paternidade é o tema de O mapa e o território. O personagem mais interessante, um chefe de polícia que é lamentavelmente aposentado da narrativa sem qualquer explicação próximo ao término do romance, é um pai fracassado por causa de sua oligoespermia, a quase nula produção de esperma. Isso que ele considera a maior dor da sua vida é contornada com o lenitivo da criação de um cachorrinho e de uma vida de atenções sanitárias recíprocas com a sua esposa. O próprio Houellebecq que aparece no livro é um órfão sedimentado, um órfão insofismável. O órfão padrão francês, com selo de qualidade. E tudo passa. A vida deles todos passa e é descrita até o fim a decomposição rumo à velhice e à morte de Martin. E o romance termina com a tristeza cada vez mais plástica e vazia de Houellebecq, que o conclui com o carisma típico de um escritor famoso que se sustenta pelo comedimento chique e pela competência de mobiliar bem a narrativa. Há uma tentativa de criticar a sociedade de consumo num novo coisismo em que Houllebecq faz de seu livro uma repetição da obra consumida, descrevendo manuais de funcionamento de carros e outros utensílios do desejo do homem moderno comum.

É impossível não se questionar por que Houellebecq é um dos escritores que mais se vendem no panorama atual das letras. Seus leitores são como ele? Ele fala o que pensa? Ele é uma forma ultra-moderna de sátiro? O que eu acho é que Houellebecq expressa muito mais sobre o que realmente é em seus livros, e o fato de ser brutalmente assassinado em O mapa e o território revela uma catarse auto-crítica que talvez aponta para uma nova exploração pessoal nas próximas obras. Ele se fez morrer talvez como forma de mea culpa. O que eu acho é que sua intranscendência é um espelho da mesma característica do homem consumidor de cultura do alto desse século XXI, bem localizado em sua falta de necessidade do autêntico e refestelado com o que a bijuteria fina da aparência do autêntico lhe dá de garantias de sofisticação e conteúdo. Uma leitura rarefeita e dentro de certos parâmetros válida, com a precisão de oferecer a matéria hercúlea de 400 páginas com a fluidez de leituras de revista. Uma leitura, no final das contas, inofensiva em toda sua comburência de coisa perigosa, fechada em seu círculo de validade ao ter como polo receptor um consumidor exatamente igual a ela.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Emmanuel Carrère 2



Emmanuel Carrère está no calor sufocante da ilha grega de Leros, hospedado na casa de uma amiga. A amiga oferece o chuveiro para que ele tome um banho, mas ele recusa. Está há uns bons dias sem tomar banho, e sente um "prazer sombrio em marinar no meu suor nervoso e nas minhas roupas rançosas". Eles saem à noite para beber. Carrère toma incontáveis garrafas de vinho. Volta para a casa da amiga, dança com ela ao som da Polonaise "heróica" de Chopin, tocada por Vladimir Horowitz. Depois, ele e a amiga não fazem amor, o que ele não se lembra "graças a quem de nós dois esse erro foi evitado", o que fica a suspeita que para o sensualista exacerbado e dedicado cultor erótico que ele é, na certa a recusa foi da mulher. O que não é de se espantar, visto a sua roupa que há dias não troca, a sua cueca que há dias não troca. Essa cena é narrada em Ioga, depois de Carrère tratar dos jovens médio orientais refugiados num abrigo grego, numa tentativa desaforada de ser um escritor com preocupações sociais e senso histórico. É desconcertante para o leitor ver na recusa de Carrère em tomar banho o limite clínico real de sua capacidade em ser altruísta, em pensar fora de si, em realmente ser "um grande escritor". E o mais desconcertante é que o nojo que eu, pelo menos, senti, ao imaginar o odor que um corpo europeu masculino de sessenta anos despende privado da mínima higienização por dias, aumenta por saber que Carrère mesmo não percebeu isso ao escrever o texto. Ele não dá dicas morais ou metafóricas a serem retiradas dessa porquidão, ele escreve isso sem a mínima autocrítica, desmerecendo todo esforço anterior empregado na obra por ser uma pessoa melhor, menos egoísta.

Cavalgada pela Masúria



"Cavalgada pela Masúria", um dos capítulos de "Minha infância na Prússia", entra fácil na minha lista de melhores contos. Trata-se de uma parte do diário da condessa Marion Dönhoff. Com uma prosa que lembra Hemingway, mas de forma superior_ sem nenhuma necessidade tão tipicamente masculina de dizer "olha como escrevo maravilhosamente bem"_, o texto narra uma viagem que a escritora, quando jovem, faz pelo interior rural da Alemanha, a cavalo, e acompanhada por uma amiga. É uma obra idílica, pastoral, cheia de sol, florestas e a densidade humana de povoados com camponeses laconicamente gentis. Só que o ano é 1941, e a presença da guerra é um incômodo generalizado. Marion cita os prisioneiros pelos campos de forma pictórica, um detalhe indispensável que se tem de colocar no quadro mas que teria sido muito bom se pudesse desconsiderá-lo. Só que a autora não é uma poeta, mas uma jornalista ativista, o que torna impossível qualquer grau voluntário de alienação. Ao mesmo tempo que fala da exuberante simplicidade daquela vida, em que nem sempre encontram estábulos para pernoitar os animais e uma só vez, depois de muitos dias, tem a chance de tomar um banho quente, perfaz pelas páginas o exército de jovens se arregimentando pelas estradas, as sopas de leite na mesa carente dos camponeses à noite e a desnutrição da onipresença da batata. É um texto que rescende uma dolorosa saudade, uma saudade de tudo, da paz, da harmonia, da modéstia. Como são belas as mulheres escritoras, em sua modéstia sábia, cientes de sua superioridade sobre seus pares masculinos; enquanto minha outra leitura, o Emmanuel Carrère, fala apenas "eu", "eu! eu! eu!", a "minha dor", o "meu desespero", a condessa quase não se coloca em cena, uma impessoalidade transparente para mostrar a história e a impermanência fruto da ganância do "eu". E quando essas reminiscências terminam, vem aquela lucidez que só a literatura mais elevada provoca, uma espécie de amplitude iletrada paradoxalmente feita pelas letras, uma fagulha de consciência universal que não é para menos que um outro escritor tenha conceituado como "esotérica". Sabemos que essa educada e serena senhora que escreve essas palavras é a mesma que fez parte de um complô fracassado para matar Hitler, foi presa e libertada, enquanto outros de seu grupo receberam a pena de morte. De forma que esse conto é auto-explicativo em última instância. É uma nostalgia por uma época e uma disposição de espírito que foram varridas pela história, mas não vinda de uma intelectual isenta, não vinda de alguém que se deleita ao som lisergiado por drogas pesadas do "eu", como é Carrère. Debaixo desse tom ameno dessa mulher de oitenta anos há a adaga escondida de quem lutou para salvar esse mundo da estupidez e da veneração por idiotas sanguinários. E é só uma ilusão achar que ela saiu de todo derrotada. A possibilidade de que seja lida por longos e longos anos atesta que sua força verdadeira está acima da violência, está na restituição da comunhão do entendimento. Como diz Sêneca, que pego de uma lembrança do Carrère em O Reino, os maus não vencem, os que praticam a injustiça não levam a melhor. É um engano se entregar a essa resignação derrotista. "Pensas que quero dizer: um ingrato será infeliz. Mas não falo no futuro: ele já é".

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Emmanuel Carrère

 


Emmanuel Carrère é ótimo. Mas quando fala o quanto é o fodão, com suas mulheres que transou, e com a grana que tem, que é rico e inteligentíssimo, a gente percebe o quanto a futilidade moderna impregnou a literatura. Não se vê isso, seria um absurdo inenarrável, nos russos pré-revolução, nem nos norte-americanos do século XX (nestes últimos eles não alardeavam seu classemediaaltismo, mas a usavam para a crítica profunda da perda da alma). Carrère faz como Seinfeld e outros alicerces da anedota elevada (porque, por mais que seja brilhante, o que ele escreve não passa disso): o culto da discriminação elegante, da condolência burguesa pelos desassistidos, desde que se mantenha sempre à vista o fato deles estarem por cima, com suas preocupações espirituais cosméticas e suas angústias metafísicas de vitrine. Mas há nisso uma grandeza. Não quero renegar o imenso deleite e aprendizado que um livro como O Reino me provocou. E o poder de Carrère está em reconhecer isso, de que ele é um escritor que atende à metamorfose do que hoje pode ser conceituado como "um grande escritor". Alguém que escreve algo que exorbita o cânone, que traz para o proscênio a tralha que antes era repudiada e hoje se adequa aos novos interesses de uma classe abastada de leitores: a auto ajuda refinada, temperada com filosofia e conhecimento social, o anseio pela redenção, pelo esclarecimento. Os russos o faziam se retirando para mosteiros, no exílio, ou de dentro de prisões, ou abraçando o campesinato; eles não, Carrère não. Carrère diz que não tem a amplitude moral de uma montanha, mas a mornidão dos que só tangenciam os grandes temas. Ele mesmo se define como "morno". Ele é uma "colina". Ele escreve em sua casa luxuosa na ilha de Patmos, a mesma onde o suposto evangelista escreveu o Apocalipse. É esse fetiche da coisa autêntica vendável que motiva Carrère, estar onde aconteceu o milagre, mas não se imiscuir nele. A aquisição do gostinho espiritual apenas, e não do Espírito. Sem sofrimento, tomando seu café com nome chique em um barzinho cool numa cidade de altíssimo custo de vida num lugar idílico na Europa. Mas ele é um escritor honesto e verdadeiro, não escondendo esses detalhes significativos de sua mornidão, de ser reflexo firmado no fetiche da sua impressão de profundidade. Seinfeld em um episódio pergunta ao George o que pode ter na América do Sul. Carrère, assim como todos os intelectuais franceses, deixa transparecer nitidamente seu prazer em ser europeu, intocável, em volta com suas marcas empresariais poderosas, suas grifes (em Ioga ele fala da maciez de seus sapatos finos), sua cultura restrita a seu direito de sangue. Em O reino ele abruptamente interrompe o tema do livro para falar sobre um vídeo pornô chamado "Brunette mourant de plaisir et jouissant deux fois", que ele achou pelo Google, e descreve a tristeza contemplativa da morena do título com todo o potencial de suas tintas superiormente reflexivas, pintando-a de maneira rembrandtiana, descrevendo sua entrega às duas explosões de orgasmos com a máxima sutileza insinuante à imolação interior dos primeiros cristãos, ou algo assim que ecoe elegantes dissociações perceptivas. Ele, Carrère, chega a mandar esse seu texto sobre o vídeo para sua esposa, pedindo que ela lhe traga mais informações sobre a morena. E a esposa dele, com o sorriso descolado da cônjuge culta, pergunta se ele entende as possibilidades terríveis que se escondem nesse vídeo, que pode muito bem ter sido postado de forma não autorizada por um ex-namorado vingativo, ou a própria mulher o publicou por uma situação de necessidade econômica, etc. E a única coisa que o morno Carrère escreve, em conclusão a essa aula sobre as torpes motivações políticas por detrás da mídia pornográfica, é como ele tem sorte em ter uma esposa assim. O que não impediu que Carrère fizesse a mesma coisa que o ex-namorado do vídeo, falando em seu livro Ioga sobre detalhes depreciativos não consentidos sobre seu casamento que levou essa sua ex-esposa a lhe processar. Mas essa cena não é um deslize autodepreciativo de Carrère, ele a descreve para, como Montagne (muito citado por ele), ressaltar que o assunto de seus livros é pura e simplesmente ele mesmo, com todos seus pecados, suas indiferenças, seus filistinismos, hipocrisia, carnalidade, preconceitos. Essa alfinetada gentil que sua esposa lhe dá para que ele se cientize um pouco ao menos sobre sua leviandade é um fato corrente de tantas outras partes em que a verdade lhe é mostrada por quem está de fora, dando pequenas marteladas em sua casca de proteção. Talvez toda obra de Carrère consista em suas respostas a essas marteladas. Seu amigo Hervé Clerc, como outro exemplo, é o homem espiritual, despojado, que vê a existência como uma luta da alma por sair das sombras e alcançar a consciência libertadora, enquanto ele mesmo se regala satisfeito de ser sua oposição, o homem feliz com sua riqueza, com suas bebedeiras diárias, sua sexualidade, sua agradecida limitação hedonista na carne. Carrère se descreve como uma repaginação moderna de Sêneca, esse filósofo best-seller mesmo em sua época que pregava o estoicismo da simplicidade mas que era um milionário banqueiro enfunado em seus palácios de prazer. E Carrère é ardiloso: ele conhece como ninguém seus leitores e o mercado do que sobrou do livro. Para uma geração de símiles globais dele, Carrère é uma amostra ainda bastante elevada do que a literatura vestigial pode oferecer.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Não intrometa!


Um dos efeitos da diminuição global da inteligência é essa ingenuidade vazia, algo satânica, dos vídeos feitos pela IA de velhinhos marinheiros salvando baleias árticas. É de um artificialismo tão flagrante que só uma percepção profundamente corrompida pelo sentimentalismo tolo e pela depravação mental julga verdadeiro. O animal cibernético adiposo em toda sua preguiça simula se encher de ternura por algo que não está só além do real como além do definhamento de sua sensibilidade. O próximo passo cotidiano é enxugar as lágrimas pelo salvamento do filhote da baleia e entrar no vídeo do sexo sadomasoquista, para calibrar as outras cordas de seus nervos viciados. E qualquer sinal de dissidência da opinião religiosamente corrente das redes sociais, o alarme é acionado: o que esse estúpido está criticando no facebook? o que esse esnobe arrogante está querendo reivindicar fora das regras? ou se adapte ao meme, à corrente de julgamentos da semana, à adoração ou ao cancelamento, ou caia fora. Ou faça o self do seu rabo, ou vá ser a estranha aberração que é na solidão. Não intrometa!

domingo, 8 de dezembro de 2024

Abrigo

Dos 17 até os trinta eu tinha só dois livros. Lord Jim, do Joseph Conrad, e O jogo da amarelinha, do Júlio Cortázar. Claro que eu lia como um louco, mas eu comprava, trocava, ou simplesmente me desfazia dos livros sem a menor consideração. Meu primeiro emprego era de veterinário em uma cooperativa, que eu exerci por cinco anos. Eu chegava exausto do campo à minúscula pensão na minúscula e esquecida cidade onde eu morava, tomava um banho, jantava, e me lançava à releitura infinita dos meus dois livros. Eu ainda hoje sei um capítulo de cor de Amarelinha, e trechos inteiros do Lord Jim. Tirei deste último o título da minha monografia de história, "As encarnações imprevistas". Daí conheci a Dani, e ela me deu os dois primeiros livros que eu iria guardar pra sempre, além das eternidades condensadas pelo outro argentino e pelo polaco que eu levava no alforje, os volumes três e quatro da obra completa de Borges. Nesse astucioso presente, veio decretado meu duplo destino, que era o de ter propósito para constituir um lar e formar uma biblioteca. (Lembro do espanto absoluto na cara da senhora minha vizinha, quando viu aquela moça e o bebê de colo_ a Dani e a Júlia_ entrando pela primeira vez na casa onde ela julgava morar apenas o triste psicopata solitário e inofensivo com o seu cão.) Daí a Dani me disse, quando eu lia a dedicatória em completo maravilhamento que ela escreveu naquele presente perfeito que em trinta anos ninguém jamais havia tido a sensibilidade ou o interesse em me dar: "Nós podemos reservar um dos quartos da casa e começarmos a montar uma biblioteca, o que você acha?". E hoje aqui estão, os meus primeiros livros de homem assentado, enquanto as crianças correm pela casa, elas mesmas se regalando por horas com a biblioteca. E a Dani, como sempre, com sua humildade política, por detrás de tudo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Rimbaud

 


Sempre tive um forte preconceito contra Rimbaud. O que um adolescente pode escrever de legítimo? Desde então meu desprezo total por ele. Afora o magistral romance do Le Clézio, Quarentena, em que ele é um dos personagens, eu não tinha nenhum rastro dele na minha biblioteca. Então me chegou esse volume de suas obras completas, por obrigação contratual, e, por puro enfado, peguei-o para dar uma olhada essa manhã e comecei a ler Uma estação no inferno. Li todas as 40 páginas com os olhos cheios de lágrimas e o espírito cheio da euforia contestatória diante uma entidade antiga, que nada tinha de adolescente e nem tampouco de francesismos. Então isso é Rimbaud? Então esse "negro", esse "filho de Cam",  como ele se define em uma das passagens, esse "ser de uma raça inferior", como ele de novo se mostra criticamente agregado aos excluídos da Terra, é o Rimbaud que por meio século eu ignorei? Essa alma transbordante de ternura, ódio celestial e amor humano!

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O gene, uma história íntima, de Siddhartha Mukherjee



Toda a humanidade veio de uma tribo de sete mil negros que morava na costa oeste africana há 200 mil anos.


Nós só pudemos nascer e estarmos vivos graças à mitocôndria, uma organela que habita as células e é responsável por minuciosas funções indispensáveis, e que só existe na embriogênese pelo óvulo, nunca pelo espermatozóide. Ela é trasmitida única e exclusivamente pela mulher. 


A fibrose cística, uma doença devastadora e fatal, é uma herança genética restrita a europeus e seus descendentes. Ela só se manifesta como doença se pai e mãe forem possuidores do gene correspondente, caso contrário, foi a sua presença recessiva no dna que fez com que milhares, ou talvez milhões de pessoas, sobrevivessem à peste negra. Seu comando genético determina a retenção de sais no corpo, o que impediu que o sintoma de diarréia intensa advindo com a peste matasse seus portadores.


Sendo simploriamente conciso nas conclusões suscitadas por esses dados, todos nós somos negros, somos femininos, e temos milhares de doenças escondidas em nosso genoma que tanto podem ser nosso holocausto quanto nossa salvação. E mesmo assim, estão disseminados pela sociedade, na história, nas religiões, no comportamento, na política e no pensamento midiático o preconceito contra negros e outras discriminações "raciais" estúpidas, o ódio contra as mulheres e a eugenia contra os fragilizados e "diferentes".


Por isso eu disse para a Júlia, quando nós iniciamos a leitura do soberbo O gene, do Siddhartha Mukherjee, de onde vem os dados acima, que este é um dos livros verdadeiramente religiosos. Se houver um propósito maior e mais sublime na nossa espécie tão combalida pelo ódio e pela ignorância, está aqui, na simplicidade chocante do nosso genoma (que é quase idêntico ao do verme), nessas zonas de silêncio e nesses espaços vagos na catedral genética. Tudo o mais é  a procura e a ânsia por saírmos do atraso milenar, do estarrecimento da existência que ainda compreendemos de modo tão errado. Mukherjee está repetindo o que vem sendo dito desde os profetas judaicos, desde Platão, Kafka, Einstein, etc.

Solenoide, de Mircea Castarescu

 


Vejo agora que uma cantora dos EUA disse que ganha mais dinheiro com fotos de sua bunda do que com shows. Isso tem relação direta com esse grande livro que eu encerrei a leitura, finalmente, hoje. Castarescu faz um romance escatológico. Uma apologia de seus cheiros, de seus parasitas, de suas unhas, de seus dentes, de suas exsudações, de suas glândulas. O romance é não só suas memórias recolhidas da infância, como seu corpo. Ele é prolixo, palavroso, interminável. Lá pela página 400, ele retorna de maneira exaustiva para a descrição de sua sala de aula onde é professor, em uma precária escola romena, e dos alunos e colegas. A Bucareste onde nasceu e vive é tão encarnada com seu ser que surge como um estômago de um monstro ciclópico com porões secretos e câmeras mortuárias com estátuas de vice reis gigantes. Em um país massacrado pela política desendividualizadora, em que as pessoas são números funcionais em um projeto capenga socialista, o narrador de Solenoide, o próprio Castarescu, se reafirma como espírito, como consciência, como atenção constante e incansável. Na era dos celulares, em que o motorista não consegue dobrar uma esquina sem se atualizar sobre a nova estúpida dancinha do tik tok, um romance de oitocentistas páginas de celebração dos poderes da atenção é o que Adorno dizia de que, no futuro (hoje), os únicos livros relevantes seriam os mimeografados. É por isso, e pela escrita soberba, que esse exaustivo romance é uma obra prima. Uma espécie de símile de A montanha mágica, pois se naquele romance Mann se mostrava saudoso de um mundo de altas ideias destruído pela primeira guerra mundial e o início efetivo do século XX, aqui Castarescu se mostra saudoso da interioridade lírica, do ambiente da infância, da lentidão da mneumônica, da religiosidade suspensiva da personalidade, que o século XXl decretou anacrônico e ridículo. Não é à toa que o idiotismo do homo cibernético, o que fica 24 horas por dia recebendo propaganda inútil entremeada a informações banais, possa reagir a essa exuberância do ser com ranço. Se a literatura se míngua em uma literatura menor, ligeira, curta, que pode ser lida em um dia e é nobeliada como representante passível dessa finada forma de arte, esse romance é uma afronta violenta, é uma reafirmação brutal da escrita. Castarescu aqui escreve para ninguém, como Soljenitsin fazia ao enrolar o manuscrito de seus romances e os enfiar nas frestas das paredes do Gulag, escrevendo só para si mesmo. E assim compôs um livro em que se pode habitar. (A tradução do livro é do ótimo Fernando Klabin.)

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A Vítima



Era bem provável que aquela nuvem gigante que cobria a cidade viera do Polo Sul. O clima andava tão louco há tanto tempo que não se precisava ver a meteorologia para supor isso. Era fácil cogitar que também havia algo além, que dava uma atmosfera espiritual às pessoas andando atarefadas sob as sombras e o frio. Por um momento seus dramas megalomaníacos, as intuições de antigas memórias tribais, eram postos em suspensão para que elas observassem aquele manto cinza metálico, inflado de umidade elétrica, tomando toda a amplidão do céu.

   Foi em uma noite dessas que Anselm Dulabonde desceu do ônibus na avenida próxima duas quadras  ao prédio onde sua irmã morava. Havia apertado o botão para avisar o motorista, mas este pareceu querer avançar além do ponto. Como em uma sincronia urbana, ele apertou novamente com nova ênfase ao mesmo tempo que o motorista moveu o volante com impetuosidade e freou o veículo a poucos centímetros da calçada. Um movimento de outros freios e buzinas rascantes atrás denotou a falta de cuidados, o que Anselm acabou sendo receptor da ira do homem, representada pela violência com que a porta foi aberta.

  Pulando para fora, com a estimativa de acidentes provocados nessas circunstâncias na cabeça, Anselm não procurou conferir o que o sujeito lhe gritara. Nada lhe desgostava mais do que esses embates urbanos que estavam mais para clichês físicos. Movimentos de acondicionamento dos dentes das velhas engrenagens sociais. Talvez o homem lhe dirigisse apenas um olhar compungido se ele o enfrentasse, raramente ia além. As pessoas tinham muito medo de se enquadrarem às estatísticas. Uma educação vestigial à prova de tudo as mantinham longe das colunas policiais dos jornais. Anselm sabia disso pois trabalhava de dia em um jornal de imprensa marrom, como se dizia nos bons tempos. E era o responsável por dourar a pílula dos incidentes de crimes e morticínios da cidade. Tinha um “infiltrado” na polícia, que lhe passava com a voz ensonada o material colhido nos boletins de ocorrência. Quando Anselm entrava no serviço, às cinco da madrugada, o informante se preparava para sair. Quanto mais sua voz era extenuada, mais tinha coisas picantes para contar. Maridos bêbados, delinquentes juvenis, arrombadores de panificadoras. Uma vez ou outra um tema real, que ele tinha que digitalizar às pressas antes que a imprensa cibernética dos grandes portais de notícias as lançassem.

    Eram sete e meia da manhã e o movimento de pedestres era moroso ainda. A cidade estava representada por homens de semblantes sorumbáticos carregando garrafas térmicas e mulheres magras de uniforme. Só Anselm, em sua roupa de flaneur, com a gola levantada como fazia nos tempos da universidade, era um ponto desviante da curva. Não recebia olhares averiguadores. Havia um exército de gente como ele, subempregados sem definição certa, com sinais inarredáveis de uma juventude tardia.

  Misturando-se a elas ele desceu pela rua que levava ao apartamento de sua irmã. Ela lhe telefonara às seis e meia. Disse que o filho dela, Marcus, de seis meses, ardia em febre. Não havia muito o que fazer do que deixar tudo em suspenso e ir socorrê-la. Não havia ninguém menos preparado para isso do que Anselm, mas o fato é que não havia mais ninguém... O pai do garoto era o que se definia nos anais jurídicos como pai ausente.

  _ E onde está Edgar, Tina?_ ele perguntou à irmã pelo telefone.

  _ Ele está em uma tarefa do escritório na cidade de L. Por favor, venha rápido.

 Tina, Esvertina, sua irmã, sempre poupava Edgar. Ela tinha muita pena que o marido fosse o único provedor da casa, e o escritório de advocacia onde trabalhava o sugasse tanto. Era parte do arranjo que ela teve que aceitar para não virar uma solteirona. Tinha sido uma mulher linda até os trinta anos, e aos trinta e sete a hidrostática corporal era uma realidade incontornável. Fizera três namorados arrastarem a seus pés, mas agora tudo o que lhe restara para uma promessa conjugal moderada era Edgar, e ela não podia mais se dar ao luxo. Anselm se distraía imaginando a cara de desforra dos namorados desprezados ao saber que ela se rendera a um sujeito divorciado, com dois filhos. Ele nunca tinha suportado a prepotência aristocrática de sua irmã, mas aquele terror da solidão clássica o deixava compungido. Era como ver um ovo Fabergé consertado com peças de segunda mão por um artífice farsante. Ser um estepe insuficiente era o máximo que podia fazer pela irmã para atenuar a ação daquela sorte inadequada, francamente injusta.

  _ Por que você não levou Marcus para o hospital, Tina?

  _ Eu o estava medicando com dipirona e amoxilina, que foi o que o médico passou a última vez. É tudo muito difícil, Anselm. Estamos em um regime de contenção de despesas e sair à noite com o Marcus seria um custo que não tenho como arcar.

  Ele pensou em quanto teria no bolso e não lhe pareceu ser muito. Aqueles choques entre sua vivência com a da sua irmã lhe entregava aspectos desconcertantes de seu pouco caso com o dinheiro. Sacolejou algumas moedas que pelo peso indicavam dar pelo valor de uma passagem de ônibus e pegou seu casaco. Miguel, seu chefe, o olhou aturdido. Estava com a cara inchada, demonstrando que havia passado a noite em claro em seu artigo sobre as formas globais de dominação. Abaixo do olho esquerdo uma mancha líquida, que parecia se segurar imobilizada para não escorrer.

_ É a Tina. Volto depois do almoço.

Ele não disse nada. Quando colocou sua pasta abaixo de sua mesa, ao lado da cesta de lixo, ouviu ele conversando com Januário, o responsável pelas colunas sobre movimentos emancipacionistas.

_ A falta de compromisso está cada vez mais marcante. Para um jornal progressista isso é uma falta de fé tremenda.

   Anselm fingiu que não tinha ouvido, embora a acústica da pequena sala ventilada amarelecida pelo sol recortado da manhã espalhasse o som de maneira nítida. No corredor ele fechou a porta com o ar absorto, pensando nessas intermediações menores da realidade. Era quase um trabalho voluntário, que só lhe dava para pagar o aluguel e as despesas com a luz. Em plena época que estavam, falar sobre antigas ideias abortadas mantinha a mente afiada. Ele sabia que Miguel estava certo, a baixa expectativa de que aquele jornal aumentasse sua circularidade fazia a permanência ali um ato de fé. Mas o que ele poderia fazer diante um inconveniente de saúde? Ele se condoía de que um bom homem pensasse assim, e mesmo sabendo que havia muito de mimo nisso ele descera as escadas com pesar.

   Do lado de fora ele estacou de súbito diante aquele céu. Vagas de nuvens de chumbo. Tinha algo de segunda guerra mundial, de operações militares sobre cidades devastadas. E o frio corria num movimento contínuo cuja aplicação fanatizada tentava entrar pelas abas dos casacos dos transeuntes. Ele teve a impressão de que flagrava uma ação orquestrada por alguma força maléfica, como uma organização sideral de ladrões de carteira.

  Faria o possível para voltar antes do almoço, talvez convencendo Tina a chamar uma ambulância. Tinha que ver com cuidado a situação do menino, que justificasse uma ambulância. Pensando assim, parecia um milagre preservado que numa cidade tão grande houvesse possibilidade de que um assistencialismo hospitalar tomasse conta de uma simples criança. Viver longe da região visível fazia Anselm pensar na grandiosidade que eram os poderes da instituição social. Se ele ficasse doente, o que raramente acontecia, ele nunca cogitava no recolhimento dessa ortodoxia. Da última vez que teve um ataque estomacal, ingeriu dois comprimidos e se encolheu em posição fetal, até que a fagulha dourada de dor sumisse. Talvez essa ideia tomasse conta de Tina, e ela achasse que um aparato não poderia ser tão intrincado a ponto de seu filho merecer atenção.

   O prédio de Tina tinha cinco andares e ela morava no terceiro. Era um bairro popular, de renda média. Usualmente acolhidos por casais jovens que acreditavam ainda que tudo era positivamente transitável. Tinham uma autocritica estética de não colocarem roupas em varais e serem adeptos do silêncio. As forças se estabeleciam na capacidade de contratarem serviços de limpeza doméstica, o que muito servia para darem uma dimensão das coisas. Anselm achava que o advento da revolução virtual havia trazido um grande alívio para aqueles casais, pois as distrações ficaram mais baratas do que irem a museus, ou jantarem fora, ou em parques com as crianças. E enquanto tivessem aquele pequeno arremedo de feudo particular com seus serviçais pagos por hora, o próximo passo necessário ficaria sempre protelado. Mas era interessante, pois nunca ficara sabendo de permanências exageradas nesse estágio. O que ele pensava que só poderia se resolver mesmo pela ascensão. Era um dos efeitos da persistência intuitiva ao senso comum que desbaratava todas as críticas filosóficas sofisticadas.

  A porta estava entreaberta, deixando ver o amarelo do corredor estreito das escadas. A tranca estava quebrada, e Anselm olhou para o painel de chamada afixado à parede. Leu o nome do terceiro andar, Edgar, o que o fez soltar um muxoxo de ironia. A placa de metal estava enferrujada, o que denotava ter décadas de idade. Subiu os degraus procurando não se segurar nas paredes. Do alto veio um eco vazio de significados, como se fosse um ar represado que ele liberara com a descompressão da porta. Uma luz automática acendia a cada andar. No terceiro, ele empurrou a porta de metal pesada. Entrando no corredor que dava acesso aos quatro apartamentos, ele se posicionou diante a porta da irmã. Apurou os ouvidos, na expectativa de que os dramas espirituais condensados lá dentro fossem ouvidos, talvez algum sinal de melhora. Mas o silêncio era total, como se fosse uma das ilustrações típicas dos romances russos clássicos. Tocou a campainha. Ela funcionou, com uma limpeza que mudava por um curto segundo as apreensões metais.

   O filho mais velho de Edgar abriu a porta. Anselm nunca sabia qual era o nome dele, se ele era o Victor ou o Tomas. Eram uma espécie peculiar de gêmeos de idades diferentes para ele, sendo muito parecidos. Apenas que o mais velho não tinha o vestígio de doçura infantil do outro, tendo as feições irritantemente pragmáticas para um menino de 12 anos. Era como se ele já estivesse se acondicionando para sua vida ativa, como se antecipasse a cara do burocrata que estava destinado a ser. Anselm procurava não nutrir nenhuma tipo de sentimento crítico em relação a ele. Não era seu problema.

  _ Posso entrar..._ ele perguntou, se lembrando de súbito que ele se chamava Victor_ ...Victor?

 _ O, é você! Entre.

Ele deu um passo cauteloso, olhando para o interior escuro. Fechou a porta atrás de si, pensando se não era pouco preventivo não girar a chave, e ficou parado. O menino o olhou de volta, com um ar interrogativo, mas não disse nada. Estava entranhado o suficiente no ambiente para achar todas as formas de desconexão lógicas corriqueiras.

 _ Chame sua mãe, Victor._ ele disse.

    Falara baixinho sem entender muito bem por quê. O apartamento era tão minúsculo que mesmo esse tom deveria ter sido apreendido por sua irmã lá de dentro. Só poderia estar no quarto, com Marcos. O menino entrou pelo corredor escuro e tudo voltou ao silêncio tirânico e aflitivo que aliás não chegara a ser interrompido.

   Havia uma poltrona velha ao lado da janela, e um saco de imitação de couro que ele não sabia o nome, mas que servia para se sentar. Em uma cesta no chão, haviam muitas revistas sobre assuntos triviais. Os assuntos triviais que o horizonte espiritual sempre limitado de sua irmã comportava. Moda, conselhos adolescentes, a vida das subcelebridades da internet e da música. Olhando por aquela perspectiva da doença, eram temas francamente encerrados, afasicamente obsoletos. Provocava certo constrangimento nele por a irmã conservar aquelas coisas. Qual o propósito? Apostava em algum tipo de esperança nelas? Como se algo pudesse ser reavido através daquelas folhas amarfanhadas e sebosas?

  Esvertina apareceu. Viera a passo comedido, como se devesse aquela mínima polidez a ele. No meio do corredor ela tropeçou em algum objeto que estava no chão, talvez um brinquedo de Marcos.

_ Oi, Anselm. A febre dele passou e ele está finalmente dormindo. Eu dei um banho em água fria nele, na bacia de metal.

 Ela tinha marcas profundas no rosto. Seu cabelo era um misto de cores baças das tantas tinturas que se sobrepunham, um filete ralo dele caindo-lhe para a frente por sobre a testa. Usava uma camisola branca encardida, e seus pés grandes e protuberantes mal haviam se ajustados a uma chinela. Estava dormindo também, o que deveria ter conseguido em uma batalha conjunta com o menino. Vai ver aquele comedimento era para disfarçar sua má escolha precipitada de trazê-lo ali justo quando enfim poderia descansar. A comunicação entre os dois sempre tivera esse mérito irritante de se fazer de forma imediata, sem subterfúgios, deixando os dois perdidos na impossibilidade seguinte de perpetrarem outra palavra. Seria impossível para os dois desfazerem o engano, com ele se retirando do apartamento. Iria se desenvolver para um problema inóspito e imprevisível, e por isso eles sabiam que teriam que tolerar.

  _ Que bom! Lembro da mamãe me dando banhos gelados quando eu tinha febre. Uma vez ela me estendeu na banheira e eu achava espetacular não sentir o frio dos tantos cubos de gelo que ela havia colocado sobre mim _ ele disse.

 Ela saiu de sua imobilidade e foi até uma cômoda pequena ao lado da estante onde estava a tv e alguns livros de autoajuda. Anselm imaginou que ela iria pegar um cigarro, mas se lembrou que ela tinha dito ter parado de fumar já fazia dois anos. Mas a coreografia do movimento era o mesmo e ele apostaria que se a abstinência não estivesse de todo resolvida havia acendido alguns sinais na cabeça dela. Ela vasculhou em um pequeno pote de cerâmica barato, que servia para guardar moedas e chaves, e retirou uma nota de dez. Entregou para Victor, que estava um pouco atrás, e mandou que ele descesse e fosse até a padaria trazer uma cerveja.

  _ Vá e volte rápido, Victor.

 Daí retirou um livro didático infantil de sobre a poltrona e mandou que ele se sentasse. Ele enfiou a mão por um momento no bolso traseiro do jeans e avançou. Em sua mente surgiu de forma repentina o texto que teria de escrever sobre os efeitos climáticos provocados pelo capitalismo que acometiam as regiões do nordeste do país. Sentiu uma vontade louca de ir para o escritório.

  _ Ainda acho que deveria levar Marcos ao médico, Tina. Essa febre pode voltar, as febres sempre voltam se a causa delas não for tratadas.

_ Eu vou leva-lo hoje. Eu não consigo falar com o Edgar. Ele esta em uma cidade interiorana e o sinal é péssimo. Vive caíndo. E dessa vez não há sinal algum.

  Anselm não queria entrar nessa parte da história. A situação da irmã era terrível, ele sabia. Os dois filhos de Edgar passando aqueles dias sozinho com ela e o Marcos deveria tornar tudo mais difícil. Era até um prodígio de autocontrole que ela aceitasse eles ali, o Edgar não estando. A mãe deles, a primeira mulher de Edgar, era um assunto proibido. Ninguém nunca falava o nome dela, quando os dois oficializaram o namoro ninguém nunca poderia fazer perguntas sobre o passado. Mas havia o arranjo dos dois meninos ficarem com eles aos finais de semana, e isso deveria ter sido uma das abdicações que Esvertina tivera que fazer. Era impensável tamanha paciência quando estava no completo controle dos seus poderes. Crianças para ela eram animais perturbadores que para suas seguranças deveriam manter a distância dela. Ele sempre tinha o receio de que ela falasse algo além da legalidade em restaurantes com meninos turbulentos, e uma vez viu uma mãe em um parque envergar a nuca em uma posição florestal de ataque e retroagir diante a razão restabelecida. E ele não sabia onde estaria o outro menino, o gêmeo cindo anos mais novo.

 _ Se precisar eu tiro o resto do dia de folga. Eu prometi finalizar algumas pautas para o Osmar hoje, mas eu poderia dar um jeito.

 Ela o olhou com antigas arestas de cogitações misantrópicas e então seu olhar desanuviou. Ele entendia bem o que queria dizer aquilo. No momento ele sentiu uma aversão pálida, desinflada, pela irmã, que antes era poderosa a ponto de manter a distância recíproca entre os dois. Ela nunca aceitara o que ele fazia como uma profissão, como um trabalho digno. Escrever abobrinhas para um jornal sobre anacrônicas causas perdidas não era nem de longe algo que justificava o martírio da sobrevivência cotidiana como eram suas sessões de fisioterapia. Mas isso ficara no passado, antes do fracasso, quando ela pesava dez quilos a menos e tomava banho todos os dias. O cheiro que ela expelia agora, junto com as profundas rugas que lhe apareceram no rosto, não lhe davam mais a segurança dos preconceitos de pertencer a um nicho. O repúdio ainda estava lá, como uma reação pavloviana. Bastava ele invocar as mesas palavras e a ridicularia se manifestava em um grau bem menor dentro dela Equilibrado pelo que o senso comum adepto a desforras morais dizia ser a lucidez do sofrimento, mas havia apenas a desistência. Para ela agora tudo se nivelava por baixo, nada tinha ganho uma natureza redentora de admiração. O máximo que se poderia dizer sobre um caráter de justiça era que ela fora trazida para a mesma zona rebaixada dele, aceitava com a mesma resignação o que achava que cabia como distinção de baixa classe a todos nesse estágio da derrota.

  _ Não é preciso, Anselm. Eu não quero prejudicar você. E a Marta veio aqui e disse que me ajuda a levar o Marcos. O hospital fica perto daqui.

  Ela disse isso olhando para baixo, compungida. Essas facilitações todas lhe davam a consciência de que seu atraso em levar Marcos ao médico era cada vez mais injustificável. Ela ergueu os olhos e neles havia um pedido claro para que ele não a julgasse por isso.

 _ A vida anda muito difícil, Anselm. Eu não pensava que seria desse jeito. O dinheiro parece não entrar, o tempo parece parar e tudo ficar enrolado em um âmbar_ ela não sorria. Sua boca tremera nitidamente, como se a expressão de todo esse pensamento em palavras lhe revelasse uma dor inconveniente.

  Ela sempre se limitou confortavelmente às áreas pragmáticas do discurso. Ao contrário dele, ela nunca fora dado aos livros. Via a propensão do irmão à leitura como uma espécie de aberração que explicava algumas coisas. Essa pobreza metafísica voluntária a salvava de uma interpretação mais sofisticada do sofrimento. Os homens cultos poderiam achar bonito dizer que essa imolação lhes causam inveja, mas para ele era aterrorizante purgar todo aquele inferno ainda mais subdimensionando-o. Havia um grau de conforto em reconhecer a extensão da desesperança que sua irmã sempre seria mutilada para perceber.

 _ Onde você disse que está Edgar mesmo?_ ele perguntou.

 _ Ele está viajando para recolher assinaturas em alguns processos de aposentadoria. Tem que cobrir várias aldeias que não chegam a ter cinco mil habitantes. Você sabe como é, todos aqueles doces casais de senhorzinhos dependendo da ação do escritório o mais imediatamente possível para terem do que viver.

  Aquela era a diferença entre os dois. Se ele tivesse gasto seu tutano de devorador de livros com aquela frase o tom seria outro, cheio de sarcasmo e crítica à extorsão da advocacia. Mas tendo sido dito por Tina, representava um retrato absolutamente oposto, com um humor fremindo de uma leve tensão que no final se resolvia pela descrição carinhosa de “senhorzinhos”. Havia o reflexo da rançosa ternura filistina das revistas adolescentes da cesta no chão.

 _ Bom..._ ele espaçou as mãos como se fosse brincar de cama de gato, sem ter o que dizer. Se fosse falar as cansativas coisas que lhe vinham à mente seria uma vaidade fútil, mostrar acidez para uma mulher que já estava derrotada.

 A porta se abriu e Victor entrou, empurrando-a com o corpo como se a garrafa de cerveja média que levava lhe reduzisse a automaticidade. Entregou a cerveja à Esvertina, que a pegou sem agradecer. Havia uma certa intimidade entre os dois, dura, sem necessidade de carinho, que dispensava esses atos sociais. O menino deveria ter algum senso de obrigação que lhe garantia a permanência ali. Não se podia mais chamá-lo de criança, tendo a infância sido excisada dele minuciosamente como uma unha encravada retirada de um organismo que agora tinha a liberdade de exercer sua plena eficiência. Tina passou a cerveja para Anselm, com a naturalidade concisa de algo essencial, como se estivesse lhe entregando um guardanapo para limpar o sangue do nariz. Um dos indicativos do quanto eram irmãos mutuamente desatentos era ela não saber que ele odiava cervejas. Em um programa de perguntas intimas entre candidatos eles fariam uma dupla destinada a uma derrota fatal, quando o apresentador lhes passasse a questionar sobre suas comidas preferidas e seus hobbies favoritos. O que sua irmã gostava mais de fazer nos tempos livres? Ele só conseguiria responder que ficava parada esperando o tempo passar. Mesmo que ela atravessasse dez quilômetros a pé, o fundamento de sua vida era apenas o de esperar o tempo passar.

   Ele não levou a garrafa à boca. Talvez ela assistisse demais a séries da tv patrocinadas por marcas de cerveja, que fazia os personagens tomarem aquela agua choça a cada virada de cena. Quem na vida real tomava aquilo àquela hora? Num gradiente menos responsável pela digestão de tanta sinestesia acumulada, aquilo seria de uma comicidade terna. Mas só havia o cansaço e a desesperança.

 _ Victor, volte para o quarto e fique com Marcos_ ela disse.

O menino demorou alguns segundos, talvez de propósito para marcar que só ia quando lhe desse vontade, e fez o que ela mandou. As coisas talvez fossem bem mais fluídas do que ele imaginava, e tudo não passasse de impressões de sua mente extenuada.

 _ Quando você volta à rotina normal na clínica, Tina?_ ele perguntou sem nenhum interesse.

_ Talvez nunca. Venho fazendo o possível para manter a clínica, mas a taxa de aluguel me parece agora muito grande. Eu venho realugando para uma outra fisioterapeuta e quase não me sobra nada. E olhe para mim.

  Ela estendeu os braços e por um momento algo na linha do corpo dela a fez semelhante à adolescente de outrora, uma certa graça e leveza que se dissipou rapidamente. Anselm acentuou sua curiosidade a olhando detidamente para tentar apreender aquilo, mas os contornos oblongos suscitados pelo excesso de peso destituiu de uma vez a insinuação. Havia um descompasso que não oferecia muita esperança de um dia vir a ser consertado entre aquele corpo carregado de morosidade e o rosto de Tina, que estava chupado, cadavérico. Era como se ele, o rosto, tentasse afirmar algo à marra, de forma violentamente maníaca. Como a presciência de uma verdade que era um ato absurdo atestar nas condições materiais que o apreendiam à frente daquele organismo.

 _ Eu estou dez quilos mais gorda. O Marcos não para de mamar em meu peito, que está deteriorado. Um peito caído e murcho. Meu peito se estendeu de maneira brutal, como se minha pele tivesse virado uma borracha extremamente flexível. Ele não vai voltar para o que era antes, nunca mais. E o mais ridículo é que esse inchaço todo é em vão, pois não produzo leite nem a metade do requerido. Se Marcos fosse um bebê normal a metade já seria muito baixo, mas ele sendo um mastodonte insaciável, a metade é um estado de fome perpétuo. Daí que eu tenho de comprar um leite em pó rico em proteínas e vitaminas, destinado a esses casos, mas cada lata custa o olho da cara. A que eu comprei há três dias está por duas colheres.

  Ela parou de simular o riso que a fazia supor ser um atenuante para a revolta daquelas deliberações todas. À medida que falava, sua voz ia ficando pastosa, seu rosto ia se desfazendo. Ela encolheu os braços e olhava em uma parte do círculo de meia luz que constelava aquele cosmos caseiro que era a escura sala de estar, como se a falta de um alívio cômico àquela prisão fosse de uma crueldade pesada demais.

  Anselm conteve um suspiro, mas foi movido por uma inconformidade insuportável a se inclinar para a frente. Colocou a garrafa por sobre a mesinha de centro, sobre a qual estava um brinquedo de montar pueril_ um campo de férias com árvores de plástico e bonecos de pinguins, algo que se eviscerava de um atestado de bugiganga barata. Olhou aquele brinquedo por um momento, julgando que os significados foram organizados ali com uma feroz intenção de desmotivar, algo que a aleatoriedade se mostrava soberanamente virtuosa em fazer em ambientes como aqueles. Ele teve um daqueles pensamentos incapazes de se verbalizar, fulminantes de realidade, de que a cerveja era a única tentativa de transcendência que Estertina fazia quanto a ele, a única maneira sem sucesso dela em trazer algo de dignidade alheia para aquele seu mundo hermético.

  _ Tina, o que Edgar diz disso tudo? Digo, eu tento não interferir em nada em seus projetos familiares, e quem seria eu para fazer isso. Eu não sou casado e tão pouco tenho filhos. Mas como irmão, como tio, eu talvez tenha a liberdade de perguntar isso. O que Edgar acha disso tudo?

Ela o olhava fixamente, com uma atenção intensa. Ele associava aquele olhar a digressões que ela usava antigamente, quando eram jovens, para ou fugir de um assunto espinhoso ou para contra-atacá-lo. Quando ele executou o primeiro laboratório de suas experiências de opiniões que poderiam dizer a ela, sobre a nova roupagem adulta que ela usava na adolescência, essas palavras eram sempre ásperas. Ásperas a um ponto que chegavam a ser ingênuas, mostrando que ela superdimensionava sua capacidade solitária de lidar com seus namorados. Ela nunca aceitou que ele desse um pitaco sequer, e a primeira frase tinha sido que ele não era pai dela. Isso o abalou, sem saber como se comportar diante pequenos crimes sexuais contra uma moral fantasmagórica que ele mesmo tinha cumprido seu papel biológico etário em cometer, e depois se calou, aliviado. Foi muito fácil. Ele vinha levando os anos que a via crescer, deixando as bonecas e passando para as maquiagens, eliminando automaticamente todo o vestígio de cumplicidade que eles tiveram um dia, pensando como lidaria com isso. Se teria o grau de severidade deslocadamente paterna para usar com aquela menina desassistida na hora certa. E a hora certa chegara e ela resolvera tudo dizendo que ele não tinha nada para se intrometer na vida dela. Ele seguiu seu caminho, prenhe de uma plenitude rara da isenção consentida, da indiferença requisitada. E lá estava aquele olhar de novo, renascido depois de tantas modificações em que ele nunca mais fora reclamado, colocado no rosto dela como uma peça de quebra cabeça indevida, não encaixável. Suspenso num aparato temático já escoado de toda autenticidade, ele paradoxalmente parecia mendigar o contrário do que havia exigido de liberdade e não intromissão, cheio do saudosismo de um direcionamento afrontoso que agora considerava como uma perda valiosa. Naquele apartamento frio, rescendendo a odores de exsudações corporais de todos os tipos, de roupas não lavadas, da poltrona que tudo indicava aquelas manchas eram de vômito e urina, com as almofadas marrons rasgadas e afundadas em formas eternas de posições de glúteos avolumados e engordurados, naquele silêncio tumular irredimível e absoluto, havia acontecido tudo o que um irmão zeloso da concepção clássica tivera o dever de alertar e empurrá-la mesmo contra sua vontade para o caminho oposto.

  _ Ele trabalha demais, Anselm, e é para nosso bem, o meu e do Marcos e dos dois outros meninos.

  Aí ela desabou. Levou as mãos para o rosto e, na posição em pé em que estava, se pôs a chorar. Por um instante ele ficou imóvel, averiguando se aquilo consistia no que estava evidente que era, se não era uma tramoia não da irmã mas de outros movimentos condicionados que haviam vicejado naquele lugar vicioso como fungos. Alguma sistemática contração do corpo que só se parecia ao choro mas era algo mais solene no sentido de uma segurança postural de não recair em maneirismos sentimentais. O choro foi se alteando, até que o fiapo que era a nascente calma se tornou em uma explosão mucal no centro dos braços dela. Foi aumentando ainda mais até que Esvertina deu um grito e seu corpo tremeu, como se fosse desabar para o lado.

  _ Por favor..., por favor... Anselm...

 Ele se levantou com um movimento lento, comedido. Não saberia como abordar uma figura emblemática como sua irmã naquele estágio em que a via desalojada de tudo que a fazia peculiar. Naquele vão em que se suspendia por um momento todas as compulsões de sua personalidade. Se aproximou dela e colocou uma mão em seu ombro. Isso pareceu explicitamente insuficiente para os dois, a ponto de se não fizesse nada mais veemente, mais caloroso e humano, iria agravar a coisa. Então ele a abraçou e ela deitou a cabeça no ombro dele. Eram ambos altos, a estatura sendo uma característica estética que sempre favorecera ela em seu domínio feminil sobre as circunstâncias do cotidiano, mas ele era dez centímetros mais alto. O topo dos cabelos dela ficaram rente à sua boca e ele sentiu fragmentos brancos das células mortas do couro cabeludo nos lábios. Tinha um cheiro amorfo, em negativo, o nível mais elevado da decantação natural a que podia chegar aquela minuciosa química fisiológica, algo próximo à assepsia. Ele se lembrou das cascas de ferida do joelho dela, quando os dois ainda eram ligados um ao outro, antes que a mãe os tivessem distanciados pelo medo doentio do incesto. De como elas surgiam em decorrência das quedas que a exultação diante a fluidez sem limites da infância e sua pouca apetência técnica com a vida lhe causava. Anselm sentiu no fundo de si algo, não chegava a ser amor, uma condolência de uma ternura em estado primitivo pela irmã. Havia uma quantidade perniciosa de registros memorialísticos sobre ela em sua mente para que ele pudesse considerar apenas aquela garota imaculadamente sem erros que ela fora. No fim daquelas lágrimas, ele sabia que ela voltaria a ser a mesma mulher cheia de reservas e compulsões peculiares com a qual dividia muitas reservas.

     Ele nunca culpara a mãe por essa desconfiança fanatizada, aceitava as ações retaliativas que vinham dela sem cerimônia, como as leis da natureza aceitam sem drama o repúdio e o morticínio. A mãe tinha sofrido muito mais do que qualquer um dos dois, e Estertina estava em um segundo lugar vantajoso. De certa forma elas tinham uma recriminação rancorosa incrustrada numa região oclusa de suas feminilidades por ele ter tido a sorte de nascer homem. Ele cogitara em segredo que essa inveja, essa consciência resignada de que fora deixada em um plano inferior de benefícios pela potestade embriogênica que lhe fizera ter uma fenda entre as pernas e uma porção de hormônios que especificavam o crescimento de glândulas com o pueril objetivo de atrair o macho incubador ególatra, tinha revertido nela em uma condição homossexual. O excesso de ódio que ela sentira por aqueles dois namorados, a exultação que ela sentia ao ver que tinha o poder de fazê-los rastejar e se sujeitarem, que aquelas efusivas protuberâncias, ridículas curvaturas, abjetas umidades atrativas que expediam daquele corpo que ela habitava, poderia ser usadas como armas, evidenciava que ela assumira um projeto esotérico vingativo.

  _ Lembra da mamãe dizendo que a infância é o laboratório de todas as doenças, e que é por causa disso que as crianças passam tanto tempo febris? É o corpo depurando as mazelas, incubando em si mesmo os vírus e bactérias para criar uma memória imunológica. É bom olharmos a doença de Marcos com calma_ ele disse.

 _ É que é tudo muito difícil. Se pelo menos Marcos voltasse a ser o monstrinho sugador que costumava ser. Ele não está se alimentando desde dois dias atrás.

_ Talvez seja a economia natural do corpo, Tina.

_ Eu fico pensando nisso. Ele treme de febre mas há algo nele que não é de todo debilitante. Me vem à cabeça exemplos extremos, que são inconvenientes usar. Como de prisioneiros. Um homem famélico em um campo de concentração. E observo se Marcos está adquirindo aquela aparência mumificada.

_ E o que você acha?

_ Talvez seja minha visão de mãe, mas ele não está de todo mal.

_ Quando Marta virá para te ajudar a leva-lo ao hospital?

_ Ela veio aqui em casa mais cedo. Está de licença desemprego e marcamos de ir após o almoço. Ela já trabalhou na faxina do pronto socorro e sabe que a parta da tarde é menos movimentada. Ela diz que as pessoas não imaginam o quanto que existem doentes sofrendo nas madrugadas, o que resulta em internações urgentes pela manhã.

  Ela já tinha se afastado dele à medida que falava, de modo que pareceu a ambos natural. Por estranho que parecesse, não ficara nenhuma sensação de embaraço neles, como se o gesto abrupto de carinho fosse sublimado pela manifestação maior do choro. O rosto dela ficou iluminado pela lâmina das lágrimas. À medida que ia se evaporando ou sendo reabsorvida pela pele, um rubor se firmava junto à sombra da sala e as marcas da idade retornavam com uma fidelidade tranquila. Ela era dessas pessoas que não choram sozinhas, que o choro é associado em suas convicções a uma explosão catártica que necessitada a ter alguém como testemunha. Tinha servido para deixa-la inequivocamente mais tranquila.

 _ Você quer vê-lo?

  Se deixou levar pela repentina surpresa de que poderia muito bem prescindir de ver o sobrinho, que fazia parte da sua tenaz economia de sentimentos não se submeter a isso. Concordou em silêncio e ela se virou e seguiu pelo corredor. Como ela havia se desabafado_ aquela pobre consumação de dias e noites de desespero, que se agrupava também à sua política de baixas expectativas_, até o seu andar era novo, podendo ser definido como mais centrado. Com um movimento do pé, ela afastou para o canto o brinquedo no qual havia tropeçado. Andava de seu jeito largado, que a Anselm sempre era um traço marcante de sua personalidade, um tanto masculino. Um jeito de andar que nunca trabalhava no realçamento de seus glúteos bem torneados e sua cintura fina na juventude.

   Ela abriu a porta com delicadeza, para não acordar o menino. Ele entrou, com a sensação herdada de um senso comum inercial de que um quarto de criança, no mais vestigial e distante que seja, sempre exala uma áurea de pureza, de exclusividade indômita. Por mais que os objetos de cena sejam pobres, a pintura desgastada do berço, a pequenez opressiva das dimensões, a impressão de obsolescência dos brinquedos resgatados do baú de antigas infâncias, sempre havia uma afirmação incognoscível, impossível de exprimir, de soberania. Como se a criança ocupando o centro dessa terrenidade pesadamente intrascendente tivesse sempre o sinal distintivo do poder emanante do reino de onde provinha.

  Viu Marcos deitado de bruços, a cabeça voltada por sobre o travesseiro fino. Uma chupeta que pareceu de tamanho desproporcional estava bem fixa à boca, insinuando que fora parte do exercício de certa forma violento empregado para fazê-lo de abstrair-se da vigília. Usava um macacão todo fechado, que envolvia os pés como se fosse uma espécie de inteiriça armadura de algodão típica, que veio à cabeça de Anselm automaticamente o nome estranho, body. Uma dessas peças do vestiário infantil que para alguém estranho ao meio soavam como os nomes que os torturados medievais davam para seus utensílios artesanais. No silêncio do quarto, se notava aos poucos, como uma leve deflação de luz que exige que as vistas se acondicionem para ser perceptível, o rumorejar da respiração dele, um contínuo índice tonal de uma curta nota espichada de exploração a regiões profundas, um sonar trabalhando em volume baixo.

  Um traço de preocupação passou por Esvertina, que saiu de sua imobilidade contemplativa para tocar o bebê na testa. Por um instante de pausa que tinha tanta intensidade quanto um pássaro avaliando as contrainformações invocadas pelo seu pio, ela estudou a temperatura do filho, passando por estágios de ponderação progressivos. Retirou a mão com um alívio confiante, ainda com a cabeça inclinada para a frente como uma especialista.

  _ Ele está crescendo!_ ele falou, apostando que dentro de qualquer lógica não era uma observação que lhe desmentia.

 _ Foi uma noite terrível, das piores que passei.

   Ela alisou os antebraços com as mãos cruzadas e pareceu se criticar por ter recaído naquela lamúria. Era mais uma acusação por isso se voltar contra uma obrigação de agradecimento supersticioso de sua parte do que a consciência de não se mostrar tão pessimista a Anselm.

_ Mas graças a Deus ele está melhorando_ se corrigiu.

  Anselm pensou que poderia aceitar aquela técnica da mente tão comum à formação católica da irmã em se amparar a escapes esotéricos. Viver naquele apartamento desculpava qualquer amortecimento racional como aquele, e tornava até uma exigência sanitária.

 _ Pode me chamar quando quiser, pode ligar para o jornal à tarde, eu estarei lá.

 Ela o acompanhou até a porta. Passando em frente ao outro quarto, ele viu Victor sentado em uma poltrona diante um abajur, mexendo no celular. Estava jogando, num momento raro de flagra dos restos de sua infância. Na cama de casal ao lado, envolto em cobertores, estava o outro filho de Edgar, o mais novo, Filipe. Anselm não pode ver seu rosto, mas distinguiu o peito envolto em uma camisa que mesmo as sombras se percebia ser de um time de futebol. Edgar tinha o sintoma clássico do pai ausente em querer ludibriar a falta de experiências reais da paternidade com seus rituais fetichistas mais comuns. O máximo que deveria dividir com os filhos daquela exultação falangista da batalha contra o time adversário no campo seria os comentários pós-jogo, cada um tendo assistido em separado. Lembrou que Esvertina lhe contara certa vez que ele tinha comprado varas de pescas que nunca tinha usado realmente com os meninos. Anselm se perguntava se de alguma maneira isso se revertia positivamente como um dos atributos de caráter que fazia um bom advogado, o que então a situação teria suas compensações.

  _ O Filipe está doente também?_ ele perguntou.

  Ela ficou surpresa com a pergunta. O tom mais claro, um grau acima, que usara para responder, mostrava que aquilo, os outros meninos, eram apenas o mobiliário inevitável de uma zona menor de sua atenção.

 _ Ah, sim. Eu pedi que eles arranjassem o que fazer no térreo do prédio, para não se envolverem tanto com o clima carregado que estava, e eles voltaram muito cansados. Eles tem grupos de futebol ou o que seja com os outros garotos do bairro.

  Era o tom que usava para desfazer-se rapidamente de alguma pergunta retórica, o que se percebia nuances de uma irritação sublimada ao fundo.

  Ele se virou no corredor para ela, para se despedir. Esses momentos sempre eram desconcertantes, por mais que os dois tivessem crescido e com isso estarem aptos a desconsiderarem o constrangimento reminiscente desses atos. Anselm se sentia em desvantagem, pois a irmã tinha o tino prático que a fazia bem sucedida em comunicados simpáticos com empregados da limpeza e bilhetes de geladeira. Já ele ou era insuficiente ou tendente a uma exagero autodenunciador. Não iriam voltar a se abraçarem, se aquilo havia mesmo sido um abraço, e então ele ergueu a mão e deu um tchau deslocado. Era o mínimo ridículo que sua contenção poderia fazer, e ela respondeu com um balançar de cabeça.

 _ Volte a dormir.